O sorriso dele

– Texto publicado originalmente no Jornal de Piracicaba em 24-09-2003

Pensei em fazer um comentário a respeito da morte do Domingos José Cristofoleti. Ainda atordoado, desisti. Ao saber da notícia, a primeira pergunta que me fiz, em voz alta, foi: “Como é possível?” Dei-me conta, então, de minha profunda tolice e, de certa forma, de um cansaço que já me agasta: não há perguntas a fazer, tudo é possível. E nada é tão possível, óbvio, certo quanto morrer. Logo, respondi-me, desconsolado: o Domingos morreu apenas porque estava vivo. E, por mais doloroso pareça, foi apenas isso que aconteceu. Que nos acontece.

Seria melhor pensar assim, com frieza e distanciamento. Tenho tentado. Pois não quero mais saber de mortes inesperadas, surpreendentes, como as de frondosos jequitibás que tombam sem ninguém saber porquê. E não coloco mais Deus ou deuses nessa dor humana. Eles nada têm a ver com isso, acho. Deus fez tudo e foi descansar no sétimo dia. Está, ainda, descansando. O plano é um só: nasce-se, vive-se, morre-se. E apenas isso, também. A arte está em saber viver. Que é a maior e mais esplêndida das poucas sabedorias humanas.

Se eu pensasse com a dor, se pensasse com a lamentação ou com o susto, repito, estava perguntando-me e colocando Deus ou os deuses na mágoa: “Por quê o Cristofoleti morreu?” E, então, haveria explicações que não a resposta prosaica, óbvia, terrivelmente banal: morre-se. As pessoas morrem. Tudo o que é vivo morre. E, sem sacralidade alguma, eu ficaria repetindo, repetindo: nasce-se, vive-se, morre-se. E não haveria dor. Nem saudade. E não precisaria de explicações, de elucubrações, de filosofias.

Perguntar exige reflexão. E vida e morte não têm respostas. Se tivesse, eu ficaria perguntando a quem interessou a morte de Domingos José Cristofoleti. Quem ganhou com ela? A quem aproveitou, essa morte tola, fora de lógica? Diante de certas mortes, diz-se que a pessoa descansou, que Deus levou, que estava na hora, coisas assim. Mas ninguém sabe porque e para que morre um homem com pouco mais de 50 anos, no esplendor de suas forças e de sua alegria, vivendo novos sonhos, retomado de esperanças.

Não é possível, no entanto, ser indiferente à morte. Há um patrimônio milenar de crenças que nos forja o espírito. Perseguem-nos, ainda hoje, os fantasmas que monges e frades mendicantes relatavam aos povos em tempos sombrios. O culto aos mortos continua. O temor à morte, também. E, assim, uma outra vida – num além desconhecido ou de retorno a este mundo – dificulta a naturalidade de viver, angustiando-a. À espera de uma outra vida, muitos não vivem a única que tem.

Não quero escrever sobre isso, a morte de Cristofoleti me entristeceu. Por muitos anos, nos nós víamos todos os dias, algumas vezes por dia, ele, à porta de seu escritório. Sorrindo… O “Cristóvão Colombo” foi sua paixão, consumindo-lhe forças, tempo, energia. Não lhe foi feita a justiça devida ao construtor. Mas isso é parte do destino: a criatura devora o criador.

Não quero pensar no porquê desse fim inesperado. Seria tolice fazê-Io. Pois, a única resposta pacificadora seria a da banalidade da morte. Mas dói, pois a morte não é banal. Uma cultura cristã milenar pesa-nos na alma. Somos não apenas o “povo do livro”. Mas, talvez e especialmente, o “povo da memória”. Foi a mensagem que ficou: “Fazei isso em memória de mim”. Os mortos são memória.

A memória de Domingos José Cristofoleti fica em seu sorriso. Devem ser bem-aventuradas as pessoas que deixam sorrisos como herança. Bom dia.

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