Mentira, agiotagem, tráfico

– Texto publicado originalmente 18-09-2003

E o político, é ou não é um mentiroso? A questão, tão antiga quanto a própria filosofia, foi reavivada pelo filósofo José Arthur Gianotti ao discorrer sobre a mentira e a política. Foi bom que acontecesse. Pois a mentira se vai tornando produto cada vez mais raro. E não se trata de ironia do escrevinhador.

Ora, de tanto ser repetida, sabe-se que a mentira toma ares de verdade. E, quando todos mentem, a mentira coletiva passa a ser a realidade comum. E não mais se sabe onde está e qual é a verdade, onde e qual a mentira. Fica-se num “chiaroscuro”, luz e sombra, entre ficção e realidade. O que é o quê? Nisso, analista político e ficcionista assemelham-se: onde está a mentira ou a verdade na política; o que há de ficção ou de realidade na obra de arte?

Até prova em contrário – e busquem-se provas! – a humanidade não passamos de uma cambada de mentirosos. Mente-se no amor, mente-se na guerra, mente-se nos negócios, no comércio, nas trocas. Mente-se para ir para os céus e mente-se descendo aos infernos. Para enfrentar uma mentira, cria-se outra. Mente-se para pedir; mente-se para dar. Pais mentem para filhos; filhos mentem para pais; pastores, para o rebanho; o rebanho, para o pastor. E, como tristeza final, lá vai o homem mentindo para si próprio, até chegar-lhe o dia em que, olhando-se nos próprios olhos, se pergunte: “que rei sou eu?”

Mais do que a maioria dos mortais, o político é, ao mesmo tempo, um simulador e um dissimulador. Simula ser o que não é; dissimula aquilo que é. Uns mais, outros menos, somos todos assim. O namorado simula ser rei, dissimulando o plebeu que é; a namorada simula graças que não tem, dissimulando a sensaboria que tem. A mentira – como que repetindo o instinto de sobrevivência dos bichos – faz parte da luta pela vicia. O risco está em transformar o mundo em mentira total.

Mentir a mentira-de-mentirinha faz parte do cotidiano das pessoas, naquilo que Aristóteles via ora como um exagero da verdade, ora como diminuição dela. No Brasil e no mundo, no entanto, estamos diante da mentira grave, do vício da mentira, que envolve a economia, a justiça, a morte, a estrutura das instituições. E o comerciante, na feira, mentir para vender um pé de alface, e Bush mentir para criar a guerra. Há mentiras que o Procon resolve. Outras que atentam contra os céus.

O filósofo Gianotti, portanto, instiga a refletirmos sobre valores esquecidos. Ainda que sejamos pequenos mentirosos do cotidiano, devemos e podemos aceitar mentiras de políticos, se elas alcançam a vida e o destino de povos e de nações? Já não teríamos ultrapassado os limites do razoável, engolindo farsas, concordando com crimes, aceitando éticas capengas, moralidades obtusas? Num mundo de farsas e de mentiras coletivas, saberíamos avaliar qual a diferença essencial, por exemplo, entre um agiota e um traficante de drogas? Entre o policial e o bandido, onde está o mocinho?

Escriba velho e tolo, ainda pergunto-me coisas. Qual mais nocivo para o país: o traficante da Colômbia ou o agiota internacional de Genebra? Qual a diferença básica entre máfias de gravata e máfias de morros? Quem é mais fácil de enfrentar: um Fernandinho Beira-Mar ou o especulador que desestrutura a economia do país?

Sinto-me mais vítima de fabricantes de remédios do que de traficantes de drogas. Destes, escapo. No entanto, diariamente, sou derrotado e subjugado por donos de laboratórios, economistas e banqueiros internacionais. Mentira, o que é? Bom dia.

 

 

 

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