O papa tem razão

As coisas, quase sempre, têm mais de uma versão. Por uma das que sei, foi Ovídio quem, adulando o imperador Augusto, anunciou que ele falava “urbi et orbe”. Ou seja: tudo o que Augusto propunha era “para a cidade (Roma) e para o mundo”. Assim, Roma era o centro do mundo e a palavra de Augusto, universal.

Muitas das estruturas da Igreja Católica remontam ao Império Romano, além de assimilar e depurar influências gregas, judaicas e outras. O ideal de “um só rebanho para um só pastor” não é apenas evangélico. Foi dos césares, foi de Átila, foi de Napoleão e de Alexandre, foi dos soviéticos e é o de Bush. E a técnica – que muda apenas conforme os tempos e circunstâncias – é a de colocar o bode na vida das pessoas. E por bode, entenda-se, literalmente, o demônio, diabos, outras figuras.

Não há Deus sem demônio. Basta ver o sucesso das seitas ditas evangélicas. Deus é secundário. Em primeiro plano, estão os demônios, os diabos, que infernizam a vida das pessoas, que as impedem de ter um grande amor, de conseguir emprego, de ganhar na loteria. Para enfrentar esses demônios, é preciso ouvir as ordens do pastor, seguir, à risca, suas instruções e fazer os pagamentos devidos. Lembro-me de que, num terreiro de candomblé, uma mãe-de-santo pediu, a parente meu, dois bodes pretos, que precisavam vir da Bahia, galos e galinhas. Todos seriam sacrificados e o sangue dos bichinhos seria derramado na cabeça do coitadinho de meu parente.

Os papas, portanto, falam “urbi et orbe”, para Roma e -para o mundo, para os católicos e para todos os povos. É essa a pretensão. E seria tolice negar a grande autoridade moral do papa, especialmente desse João Paulo 2°, amado por onde passe. Ele diz e escreve coisas que causam perplexidade, que parecem ir na contramão da história ou, então, de retorno a idades de sombras e de trevas. Mas esse é outro assunto.

Ora, ando com pena de João Paulo 2°. Não me parece justo o que fazem com ele, ainda que em nome do Espírito Santo. É um homem doente, alquebrado. Não se pode – a não ser no plano da fé – acreditar que Sua Santidade esteja em plena lucidez, com capacidade de reflexão perfeita, os grandes debates que ele próprio tem provocado nos últimos tempos. A Igreja é um colegiado; o Vaticano, também um Estado. E, pela figura esquálida do papa e seus limites físicos e intelectuais, parece lícita a dúvida: ele reina, mas governa? Vá, lá, que o Espírito Santo assopre sobre esse colégio de assessores. Mas os Estados laicos não estão preocupados com isso. Nem com o que Alá diz para Islã.

É esquisito. A Aids avança, é um flagelo em países africanos. Mas o papa proíbe o uso de camisinha. A fome torna-se endêmica, multiplicando-se famintos e párias. Limitar filhos, porém, apenas através de métodos naturais. A criançada casa-se na Igreja Católica e, dela, se exige um compromisso indissolúvel, pelo resto da vida. Os jovens repetem a fórmula e dão de ombros.

Agora, proíbem-se palmas nas missas. E danças. Meninas não mais serão coroinhas. O papa tem razão. No quê, não sei. Mas tem. O papa sempre tem razão. As missas parecerão celebrar como que apenas a morte. Mas onde irão guardar-se as alegrias de Salomão, dele e da rainha de Sabá, a beleza do “Cântico dos Cânticos”; as danças e os cantos- de David; os poemas amorosos de Juan de La Cruz e de Santa Tereza d’Á vila? Felicidade não é preciso; tristeza é preciso.

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