Por uma cidade cordial

Passado o impacto da escolha do Rio de Janeiro como sede das Olimpíadas de 2016, lá estamos, os brasileiros, com a responsabilidade de tomar consciência do que seja um país olímpico. Pois é disso que se trata, do espírito olímpico, o mesmo que inspirou os jogos desde a Antiguidade.

Na realidade, não se trata apenas de jogos, nem, também, apenas de competições esportivas. Trata-se de uma mentalidade que o espírito olímpico impõe, a começar do seu significado: Olimpo, a morada dos deuses; olímpico, no sentido também de majestoso, de divino. De nada adiantará, portanto, criarmos condições materiais ótimas, estruturas arrojadas se, ao mesmo tempo, não nos deixarmos dominar por esse espírito civilizatório onde a cordialidade, a confraternização, a solidariedade são questões fundamentais, ainda que em árduas competições e disputas.

Uma das vantagens que o Rio de Janeiro e o Brasil tiveram na escolha do Comitê Internacional se apoiou na magnificência da natureza e no temperamento acolhedor e generoso do povo brasileiro, não apenas dos cariocas. Foi como se nos lembrassem, novamente, da teoria – que, como masoquistas, tentamos destruir – do “homem cordial”, de Sérgio Buarque de Hollanda. O brasileiro é cordial, com uma vocação encantadora para o convívio, a solidariedade, a confraternização. A violência e os desencontros que temos vivido nas últimas décadas têm que ser creditadas, também, à imposição de uma mentalidade mercantilista que pretendeu soterrar os valores do espírito humano, transformando o homem nesse lobo do próprio homem.

Piracicaba precisa perceber que, também aqui, entramos em um novo contexto. Não será apenas o Rio de Janeiro o centro e o alvo dessas transformações. Será o Brasil como um todo, numa interligação emocional, espiritual e afetiva que a todos nos envolve. Piracicaba tem uma história de cordialidade, de civilidade que vem sendo esquecida e atropelada, num tempo em que se dá mais importância à abertura de ruas e avenidas para carros, do que para a educação, a saúde, a convivência de um povo. O Brasil começa, desde agora, a se transformar num país olímpico. E isso diz respeito a todos nós, na imensidão de nosso território, na diversidade profunda de nossas diferenças culturais. Uma cidade olímpica tem, antes de mais nada, valores morais e espirituais que a norteiem.

Estamos diante da maior oportunidade de nossa história para dar – a crianças, adolescentes, jovens – modelos mais nobres de vida, de comportamento e de mundo. Não haverá mais espaço para o feio, para o ruim, para o jeitinho, para a malandragem. Um país olímpico exige almas olímpicas, não apenas estádios, estruturas materiais ou organização. Crianças, adolescentes, jovens têm o direito de saber que há caminhos mais dignos do que os da simples materialidade de valores. Os esportes fazem parte do belo das sociedades humanas. O belo, as artes e os esportes constroem o novo homem. Piracicaba tem que ser, conscientemente, parte desse país olímpico em que nos transformamos desde o dia 2 de outubro. Bom dia.

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