Preguiça dos anjos da guarda

Lembro-me sempre de uma gravura – e nunca mais a vi em lugar algum – que me parecia tétrica. A casa estava no alto da colina. O caminho era de terra. Duas crianças aproximavam-se da ponte ao entardecer. O céu, com cores entre o roxo e o violeta, era de crepúsculo. Por trás de arbustos, do outro lado da ponte, uma figura horrenda, aparentando ser lobo faminto, estava à espreita, aguardando as crianças. Sobre elas, porém, pairava um anjo da guarda, asas imensas, protetoras. E eu nunca soube o que aconteceu depois, se o anjo ajudou, se o lobo comeu…

Não sei se existem anjos da guarda. Se existem, devem estar cochilando. Ou, de tão antigos, já se aposentaram. Outra hipótese: se existem, são incompetentes. Pois não consta que novos anjos surgiram após aqueles que, em livros santos, formavam “exércitos celestes”, que eram a “corte de Deus”. Não sei onde, mas em algum lugar está escrito que a função dos anjos era a de “adorar e louvar a Deus”, parece que de Isaías a ode. E, de minha parte, nunca entendi porque Deus gosta de ser “louvado e adorado”, uma forma de narcisismo que me incomoda. Pois falava-se também – e sei que está escrito, sem saber onde – que anjos serviam de mensageiros, como o que levou ordens para Abraão, e que cuidavam de pessoas. Especialmente crianças e jovens, estes eram protegidos por anjos da guarda. Dizia-se.

Ora, minha inteligência, tão humana e limitada, não me permite entender que anjos tenham tanto trabalho ao mesmo tempo: adorar e louvar a Deus, levar mensagens, tocar trombetas, dedilhar harpas, ajudar pessoas, enfeitar pinturas de artistas nas imensas catedrais. Duas figuras de anjos há que me encantam: o que toca violino para São Francisco de Assis; o anjo que, com uma seta, chega ao coração de Teresa d´ Ávila, incendiando-o da chama divina. E aquele outro, cara de malandro, o Cupido, que faz estragos em corações? Com tanto trabalho, eles não podem ser eficientes. Cansam-se. Daí, talvez, os cochilos eternos.

Bem que eu gostaria de acreditar em anjos, especialmente os da guarda. A Idade Média foi o momento mágico desses seres celestes, de coros de anjos, uma hierarquia deles: serafins, querubins, potestades, arcanjos. A iconografia é deslumbrante. Anjos enfeitam e dão graça às igrejas. A adorável figura do menininho nu e gordinho, o “putto”, traz mais encanto às artes sacras. Três arcanjos poderosos tornam-se, no medievo, protetores até de nações: Miguel, Gabriel, Rafael. Anjos silenciaram a filosofia do mundo. Apenas quando perderam o prestígio, a humanidade retomou o pensamento. E tentou resolver por si mesma o que, antes, se atribuía a anjos e arcanjos. Por essa época, talvez, anjos da guarda passaram a cochilar. Ou ficaram sem funções por incompetência.

Mortes brutais de crianças e de jovens fazem-me duvidar de que Deus participe disso. Não pode. Pois seria de uma crueldade absurda e insuportável imaginar que tragédias e dores e luto e mortes ocorram, enquanto anjos ficam louvando e adorando a Deus. Onde estava o anjo da guarda dessas crianças estupradas, violentadas por monstros que não merecem o convívio humano? Onde estão ou o que fazem anjos da guarda de crianças perambulando pelas ruas, de pequeninos enfermos em hospitais, de jovens que são atingidos pela dureza da vida? A morte de cada criança e de cada jovem apequena a grandeza da vida.

Se anjos da guarda existem, estão cochilando ou perderam a competência. E ninguém precisa de anjos incompetentes ou que cochilam. Viver é perigoso. Bom dia.

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