Dores e doçuras de perder

Olho o relógio. Madrugada, quase três horas. Acabei de perder, no computador, tudo o que escrevi. E estou escrevendo há mais de quatro horas. Não sei qual tolice cometi. Alguma tecla errada, devo tê-la tocado. E, então, dei-me conta de estar sendo pretensioso e, de alguma forma, irresponsável em relação a mim mesmo: fiz-me usuário de uma técnica que não domino. Acontece em mim o que a sabedoria do povo milenarmente advertia: “não vá o sapateiro além de suas próprias sandálias.” Ou chinelas, sei lá. E eu fui. Estou indo.

Pensei nos governantes que constroem bombas atômicas, que promovem guerras. Senti-me como eles. Eles mexem com o que não entendem. E, por isso, brincam com o Mundo, da mesma forma como eu brinquei com o computador. Eles mexem com canhões e mísseis e mexem com o mundo e mexem com a humanidade – sem competência para fazê-lo. Qualquer criança, vendo um botão luminoso à frente, aperta-o. Quando a explosão acontece, há o susto, mas é tarde. Governantes mundiais – entendo-o, ao perder escritos, idéias e emoções – brincam de ser competentes diante do Mundo da mesma forma como eu, guardadas as proporções, pretendi ser competente diante do computador. Incompetentes põem tudo a perder, como pus a perder um trabalho árduo. Com governantes belicosos, porém, é o mundo que pode desaparecer. Por causa de um botão.

Há uma irresponsabilidade assustadora nisso: as pessoas manipulam o que não conhecem. Aconteceu com Eva e Adão, que manipularam a árvore e a maçã, brincando com o mistério do amor. Acontece sempre com as pessoas. Está para acontecer com o Irã e com a Coréia do Norte, aconteceu comigo nesta madrugada amarga e solitária. Há que se fazer “mea culpa”, rever situações, recuar. Quanto a mim, decidi retornar às minhas sapatas, às minhas chinelas. Ou ao meu jardim particular, de pequenas maravilhas pessoais. Nele, há um banco em que me sento para escrever com lápis e papel. Ainda existem cavernas.

Algo novo, porém, ocorreu. Não me irritei e nem embraveci ao perder tantas coisas que, em outros tempos, iriam parecer-me preciosas. Foi essa a estranheza: a serenidade diante da perda. Na verdade, aqueles escritos eram e foram apenas outra perda, mais uma perda. Descobri, então, que perdas não mais me abalam e nem me desesperam. Podem enraivecer, mas nem sequer perturbam. Perdas são perdas. Todos sabemos disso: cadê o toucinho daqui? O gato comeu. E as coisas e as pessoas daqui, cadê? O gato também comeu.

Perdi, pois, todo um trabalho cansativo, de conflitos entre coração e razão. Pela dor no corpo, eu sabia que, nele, estavam suores, lágrimas e sangue também, sangue da alma. Mas isso é tolice. Pois, na vida e diante do que nos apaixona, há, sempre, lágrimas, suores e sangue. Nascemos disso. E nisso. E com isso. Perdendo aquele trabalho eu perdera menos, muito menos do muito que já perdi, do que venho perdendo: familiares, amores, ilusões, sonhos, crenças, ideais. E a fé, que sumiu.

Pela janela, vi o raio riscar os espaços escuros. O raio coruscou. Trovões fizeram barulho. Detesto escrever que trovões ribombam. Mas trovões ribombam, como o raio corusca. Então, a chuva caiu. O ar fez-se mais leve, uma brisa espantou o calor, surgiu o silêncio após o temporal. O mundo continuava. Por isso, fiquei rindo: o que desaparecera do computador ainda estava dentro de mim. Está. A maneira de dizer será diferente, outra. Mas o sentir continuará. Pode, pois, haver doçuras na perda. Há. Que, pois, pessoas se vão, que continuem indo-se, que se vão as coisas e os tempos e os escritos também. Que tudo se vá, perdendo-se. Eu continuo. Ainda. Bom dia.

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