Quando o diabo entra no corpo

picture (26)Há alguns anos, em Rio Claro, uma devota mulher levou terrível sova de um padre, já que dissera estar com o diabo no corpo. À época, achei pouco. Pois com o diabo não se brinca. Quando ele toma conta do corpo é preciso saber como cuidar dele e, então, conviver. Diabo no corpo é como pulga: dá coceira. E mexe com a cabeça, com a imaginação, com o sexo. Segundo Freud – e alguns inquisidores da Idade Média – diabo no corpo e agitação sexual são quase a mesma coisa. Para Freud, podia ser, em alguns casos, histeria. Para padres medievais, parceria com bruxas.

Quem assistiu a “O Exorcista” aprendeu: diabo expulsa-se com tapas, gritos e força. Ao bater duro na mulher, o padre deve ter encontrado um diabo poderoso. Pois há milhares de diabos. E de todos os tipos, cores e formas.

Um certo Jean Vier – ainda no século 16 – jurou existir um rei do inferno que possuía 1.111 legiões de 6.666 diabos cada uma, portanto, com 7.045.926 servidores. Antes dele, no ano 180 d.C., um outro calculou haver 30.000 demônios. Como são cálculos de muitos séculos passados, não sei dizer se os diabos foram derrotados, se se multiplicaram.

Nunca se revelou qual diabo o padre descobriu na mulher de Rio Claro. Mas foi coisa feia, pois, segundo os relatos, o exorcista bateu duro, agarrou, procurou o demo oculto no sutiã da possuída, embaixo das saias, parece que até na pontinha das orelhas. Que ninguém faça ilações precipitadas: o diabo, num corpo de mulher, se esconde nos mais esquisitos lugares. E, parecendo invisível a olhos descrentes, as formas e tipos e cores de diabos são múltiplas. Tem diabo que é cão, outro que é bode, um que pode ser leão, além, obviamente, da serpente. O formidável é que diabo, quase sempre, tem preferência por mulher. Desde o tempo de Eva. Tem bom gosto, o safado.

Em forma de animal, sabe-se que o danado somente não assume o corpo do cordeiro. Num Concílio da Igreja, o diabo foi descrito como um “ser grande e negro, com garras, orelhas de asno, olhos faiscantes e dentes rangentes, dotado de um falo enorme e espalhando um odor de enxofre.” A figura assemelhava-se a Pã, deus pagão, muito sacana, que assusta pessoas no mato, está em todo lugar e causa pânico. É isso aí: pânico é coisa de Pã.

Tem diabo corcunda, anãozinho. E o que se finge de bonzinho e veste roupinha cor-de-rosa. Já se sabe de diabos lindos que, para dormir, usam apenas perfume. Aquela diaba da Marilyn Monroe era um deles e revelou o segredo demoníaco quando lhe perguntaram com o que dormia: “Chanel 5”. Não houve quem não quisesse ficar com o diabo no corpo. Aliás, não se pode esquecer do romance do Raymond Radiguet, delicioso: “Com o diabo no corpo” (“Le Diable aux corps.”) O diabo do corpo é irresistível

Mas é preciso cuidado. Pois há diabos bons e diabos ruins. Os bonzinhos fazem traquinagens: elfos, gobelins, anõezinhos. Os da Branca de Neve, muita gente os teve como diabinhos da floresta. Mas eram gente fina. Logo, o exorcista, para ser eficiente, tem que saber qual o tipo de diabo apareceu. Pela pancadaria, o diabo, na mulher de Rio Claro, devia ser dos bravos.

E por quê lembrar-me disso agora? Motivo simples: assisti a um documentário da Brigitte Bardot, a Brigitte dos 1950, de “E Deus criou a mulher…”, a Brigitte demoníaca, infernal, irresistível. Vi, babei, voltei à minha adolescência e fiquei com o diabo no corpo, é lá isso possível? Deu coceira. Bom dia.

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