Retorno à caverna

Estranha vocação – ou destino – esse do ser humano. Quanto mais ele conquista os espaços, arrogando-se até mesmo a pretensão de, cientificamente, ter descoberto a origem do mundo e da vida – quanto mais ele voa em direção à Lua ou a marte, mais ele retorna à sua caverna primordial. A ciência é humilde; arrogante é a tecnologia. Com esta, cada qual se julga super-homem e invencível; com aquela, a pessoa humana encontra a dimensão de sua finitude.

Confesso ter pensado em encerrar minha longa jornada de escrevinhador de croniquetas. Esta coluna – alguns antigos leitores já sabem – eu a criei e dei-lhe vida ainda nos primeiros meses da ditadura militar, em 1964. Foi numa noite de angústias e de amarguras, as baionetas decepando liberdades, os tanques rugindo nas ruas. Era o sonho que parecia terminado. Ou sei lá se terminou mesmo e ainda não acredito. O fato é que – amargurado e agoniado – precisei de uma válvula de escape, sentindo-me intoxicado por tantas misérias humanas, pela violência inaudita ainda que anunciada. Eu não podia perder-me de mim. Era preciso manter a esperança viva. E, então, nasceu o “Bom dia, leitor”, espaço intimista onde, mais do que com o leitor, eu falava comigo mesmo. Na verdade, eu me procurava naquele fundo de trevas.

Esta coluna – de um para outro jornal, com algumas interrupções e, agora, eletrônica – pode estar prestes a fazer 50 anos. Creio que, nela, deixei anotada toda a minha vida interior, alegrias e tristezas, expectativas e decepções, crenças e descrenças. Todas as mudanças me atingiram, não sei, ainda hoje, se para pior, se para melhor. Será verdade que idosos, por terem vivido tempo mais amplo, se tornam mais sábios? Ou ficam apenas mais cansados? Também não sei. E esse não-saber, sinto-o,deveria repercutir-me na alma comrao um mínimo, pelo menos, de sabedoria. Mas não sei.

Acreditei, pois, que eu deveria dar por encerrado o meu tempo de escrevinhador de generalidades. Descobri, então, que devo continuar. Se inspiração é o sopro do divino que homem aspira, ele deve, a partir disso, expirá-lo. Se inspirou, expire. Para não explodir. E confesso estar explodindo mais na cabeça do que na alma e no espírito. Meio abestalhado, perplexo, aturdido, mas com a sensação do sertanejo que, em pleno agreste, fica olhando para o céu na certeza de que, mais cedo ou mais tarde, a chuva cairá. Nem que seja chuvinha fina, a benfazeja chuvinha criadeira.

Estou querendo dizer que – com seus celulares, carrões, internet, o milagre aparente da tecnologia – as pessoas me parecem medrosas. Há medo no ar. Medo de sair de casa, medo de ser assaltado, medo de ser morto, medo de ser enganado, medo de confiar,medo da solidão, medo do convívio, medo de acreditar e medo de amar. Na Revolução Francesa, o somatório dos pequeninos medos levou ao Grande Medo, com a chegada do Terror.

É um destino pelo menos curioso, esse do ser humano. Conseguiu chegar à Lua, tem esperança de encontrar vida em Marte – mas está incapaz de estar em paz em suas cidades. Então, ele retorna à caverna, encaramujando-se. É o eterno retorno, que nos foi anunciado por Nietszche. Eu também retorno. À croniqueta, esta minha caverna onde encontro o escondido dentro de mim. Digo um bom dia a mim mesmo e transmito-o ao leitor. Pelo menos enquanto a chama existir. Deve ser um destino pessoal ou necessidade interior de sobrevivência espiritual. Sei lá. Mesmo assim, bom dia.

2 comentários

  1. Delza Maria Frare Chamma em 08/08/2012 às 13:02

    Gostaria de deixar aqui um registro da alegria em acompanhar o processo de mudança por que passou a nossa querida Província. Modernizada e ligada às redes sociais, continua sendo o espaço sem o qual não conseguimos mais ficar. Nela buscamos e encontramos sempre algum artigo, notícia ou memória, que nos permitem estar interagindo com o tempo, numa tentativa de segurar emoções ou dispersar temores, passando-os pelo crivo da reflexão. E, falando em reflexão, volto-me às duas crônicas do “Bom Dia”, com as quais Cecílio, você nos presenteou neste recomeço. A primeira reflexão nos chegou através de “Retorno à Caverna” e a segunda através “De fora do Mundo”.
    Após a leitura das mesmas nos vimos parados e refletindo nas reflexões propostas. E percebemos que elas não poderiam vir em melhor hora porque a preocupação de ambas parece caminhar para uma certa universalização, pois, quem de nós, não se vê às voltas com as angústias existênciais nelas propostas? Pensar em que coexistência não implica diretamente em convivência é algo que às vezes nos passa despercebido e sem a devida análise. Cecílio, você foi ao ponto e precisamos reconhecer que isso realmente acontece. Se fujo de conviver com algo que não me atrai e pelo contrário, me desagrada, isso não me liberta da coexistência mas apenas da convivência. Por outro lado, no contraponto entre ciência, humilde como você afirmou, mas constante e processual, responsável pela evolução da humanidade que se vê liberta e não mais necessita de um criador para justificar sua existência, qual delas vence? Não temos dúvida sobre isso. E a técnica que em sua jornada rápida e arrogante, (como diz você) nos traz, talvez, essa mesma arrogância assustadora do “super-homem” que já tantos males trouxe à humanidade. Fugaz fantasia mascarando nossa finitude.
    É, Cecílio! com suas crônicas você nos faz pensar e já dizia B. Calvert: “Acreditar é mais facil do que pensar. Daí existem mais crentes do que pensadores.” Parabéns pelas reflexões despertadas e pela nova Provícia, presentes preciosos a nós leitores.

  2. Luiz Thomazi em 09/08/2012 às 13:42

    Estimado Cecílio, obrigado por seu retorno. Nossas vidas, de seus leitores e admiradores, fica muito melhor e mais prazerosa com o seu indispensável Bom Dia!

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