Madalena e o feminino.

A vida emite sinais. Por isso, não é estranho o “Dia da Mulher” sempre cair na Quaresma. Deveria levar-nos a reflexões, como a mim me leva. Pois, já há algum tempo, passei a refletir sobre a percepção feminina do mundo e da vida, tão diferente da masculina. Penso ter-me acontecido desde a leitura, nos 1980, do instigante livro da pensadora francesa Elizabeth Badinter, “Amor conquistado”. É um soco na nuca. Faz tremer.

Ora, não se pode abandonar de todo a milenar imagem masculina de mundo: a fêmea, na caverna; o macho indo caçar, retornando à casa, onde ama, descansa, fica junto ao fogo. Até o fogo é a mulher que o acende. O do fogão, o fogo do coração. E o da carne. E o da alma. Lar é lareira. E a casa e a família e o mundo. Lamentavelmente, em mais esses tempos de perplexidade, homens e mulheres distanciam-se do masculino e do feminino. E complicamo-nos.

Apesar das mudanças, mulheres ocultam-se sob véus. Ocultam-se por estratégia, mentem por generosidade. No colo, o filho feio se torna bonito. No lar, o homem fraco faz-se forte. A mãe e a mulher, quando querem, inventam o mundo. E a vida seria feia e seca sem esse toque de generosidade, essa arte da sedução, a maestria feminina. Desde as cavernas, o homem precisou da leveza que não encontra no campo da caça. Doçuras, perfumes de jardim, maciezes, a ternura do que é tenro, a ternura, os doces mistérios femininos. É pena que essa força mágica a mulher a perca quando se masculiniza. Com ternura, Eva venceu Adão, Dalila enfraqueceu Sansão. E Julieta matou Romeu de amor.

Em mais esse dia quaresmal da mulher, penso na Madalena, que descobri em estudos recentes. Na feminilidade dela. Se o mistério nos foi oculto pela visão masculina de mundo, há como que uma alvorada cristã mais amorosa a partir de Maria de Magdala. E aquele medo milenar do homem pode desaparecer, o “Noli me tangere” dito pelo Mestre, o “não me toques”. O medo se desfaz quando, como Madalena, o feminino continua aos pés da cruz humana, diante do sepulcro das dores de um homem, de um filho, cuidando de suas feridas. Mulher é um ser especial. Que transforma o mundo.

Um poema gnóstico a Madalena diz tudo:

“(…)Eu sou a primeira e a última. Sou a honrada e a menosprezada. Sou a prostituta e a santa. Sou a esposa e a virgem.” Bom dia.

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