Saudosa maloca…

Pacaembu - CorinthiansEspanto-me quando algumas pessoas estranham minha paixão por futebol e, em especial, pelo XV e Corinthians. Dizem-me que um intelectual não deve ter essas paixões. Ora, bolas! O que é a vida senão paixões, grandes paixões? O racionalismo frio e objetivo,  pode haver maior aridez do que essa? Paixão faz o coração palpitar, a alma querer sair do corpo, o sangue esquentar nas veias, os sonhos multiplicarem-se. E, então, a vida se torna história da carochinha. E, convenhamos, invenção por invenção, a história de fadas e cavaleiros andantes é mais fascinante  do que essa nossa triste história cotidiana criada pelo mercado e pelo materialismo, não? Bobo é quem fizer a opção errada.

O XV – com esse seu cambalear constante – desperta forte paixão. Mas não consegue fidelidade total de seus amantes. Quinzista tem medo de ser feliz. Por isso, de vez em quando, é infiel. E, no mundo – que eu saiba – a única e intocável  e insubstituível  fidelidade, que existe, é a do corintiano. Marido e mulher, namorados, amantes, religiosos, políticos são capazes de trair, quando não em atos, pelo menos em pensamento. Corintiano não trai o Corinthians nem em pensamento! Pois não se conhece corintiano que – por mais triste ou magoado esteja – imagine trocar ou deixar o Corinthians por outro clube. É fidelidade absoluta, total, verdadeira, plena, na saúde e na doença, na alegria e na tristeza, na riqueza e na pobreza. Aliás, só pobreza, pois corintiano não sabe o que é riqueza e nem saberia o que fazer se a tivesse.

Esse é, em meu entender, o grande problema agora: deixar o Pacaembu – nossa maloca querida, nosso barraco de zinco, nossa favela – por aquele palácio do Itaquera. Esse estádio monumental não faz parte da identidade corintiana. Torcer no palácio do Itaquera seria comparável a levar o mendigo a um jantar solene com a Rainha da Inglaterra. Ele ficaria cego, surdo, mudo e castrado.  E, diante do caviar, pensaria tratar-se  de pimenta do reino ou de semente de maracujá.

Imagine corintiano – maloqueiro por vocação e destino – sendo obrigado a trocar um bom e largo gole de cachaça por uma taça de champanha francês! Ou os negos e negões musculosos, tatuados, brutamontes vestindo fraque e cartola! Torcer, gritar, gemer, xingar, cantar, chorar na catedral de Itaquera será tão ridículo e indefensável como levar escola de samba para bagunçar a Basílica de São Pedro. Corintiano sabe qual é seu lugar. Somente os cartolas pensam diferentemente.

Vendo, pela tevê, a despedida corintiana do Pacaembu – nossa casa, nossa favela, nosso campinho de várzea – fiquei, também, com o coração dolorido, aquela saudade antecipada e estranha daquele que vai embora sabendo, porém, que irá voltar. É isso que estou querendo dizer: o Corinthians não vai ficar em Itaquera. Nossa casa é o Pacaembu e – ai de mim! – eu me lembro das dezenas de vezes quando saí daqui, de minha Piracicaba, para sofrer, gemer e alegrar-me no Pacaembu. Era o mesmo que estar na Rua Regente, casa do XV, de que ninguém esquece.

Como sofremos e como fomos felizes no Pacaembu! Nunca mais me esqueci – e não me esquecerei – daquele campeonato glorioso em que voltamos a ser campeões contra a Ponte Preta, gol de Basílio. E a estreia de Garrincha, como jogador do Corinthians? Já velhusco, arrebentado, dominado pelo álcool, Garrincha veio para o Coringão como um anúncio de milagre. E fizeram-no estrear contra o Santos de Pelé! Meu Deus! No começo foi um alívio, quando se soube que o Santos escalaria o Coutinho, outro que estava arrebentado. Ai a dor, ai a desgraça! Garrincha não fez nada, deu vexame. E Coutinho – jogando quase de muleta – marcou três gols e nos mandou embora para casa, envergonhados, tristes. Mas ainda apaixonados.

Poucas belezas vi de tão verdadeiras como a nação corintiana cantar e propagar, como despedida, a “Saudosa Maloca”, do imortal Adoniram Barbosa. Só faltou Elis Regina para cantar conosco, dando o provisório adeus ao Pacaembu: “Saudosa maloca, maloca querida, e dindonde nois passemo dias feliz de nossa vida.”

Em Itaquera, corintiano ficará metido a besta, bobo como novo rico. Igual a sãopaulino. Maloqueiro virar bambi? Ora, que desaforo. Bom dia.

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