“… se não marchar direito, vai preso pro quartel.”

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Desde muito jovem, aprendi estar, na voz do povo, uma das fontes da sabedoria de viver. Provérbios, ditos, canções, historietas, a linguagem nas traseiras de caminhões – neles, estão, quase sempre, ensinamentos do conhecimento do povo, mesmo quando aparentemente apenas jocosos. Quem tiver humildade para admiti-lo, saberá acrescentar algo mais à mais difícil das artes, que é a da sabedoria de viver.

As manifestações populares que sacudiram o Brasil mostraram a força do povo, apanhando de surpresa políticos, governantes, pensadores, analistas e a própria imprensa. De minha parte, devo ter alguns leitores como testemunhas das vezes muitas em que, nos últimos tempos, escrevi sobre uma possível e provável explosão popular. Não era adivinhação, mas a quase certeza de quem já vira o mesmo filme diversas vezes. Mesmo assim, a dimensão dos acontecimentos surpreenderam-me. Da mesma forma como, desde os últimos dias, sinto-me tomado por receios e pela preocupação de toda essa energia popular vir a ser instrumentalizada.

Ora, o povo já venceu. A classe política, governantes, autoridades e também a imprensa – esta que, nos últimos anos, se aproximou tanto do poder – finalmente perceberam ser verdadeiro que a democracia é o governo “do povo, para o povo, pelo povo”. Aliás, desde que soou, pela primeira vez, o brado “povo unido jamais será vencido”, o próprio povo tomou consciência disso. As multidões pacíficas deram exemplo dessa convicção  e sua reação às mazelas do país determinou a ação tardia de governos e de autoridades políticas. Foi, pois, redescoberta a mais genuína forma de representação política que temos: a ação popular. E ela se torna ainda mais necessária e profícua quando os representantes do povo – eleitos em esperançosos pleitos democráticos – falham, fracassam, traem, enganam.

Não podemos e nem devemos, no entanto, nos iludir. Mesmo a espontaneidade e a pureza de movimentos populares podem – e geralmente são – ser instrumentalizadas. Especialmente quando não têm lideranças definidas – como ocorreu nas manifestações populares ainda recentes – movimentos de massa facilmente podem se transformar em motins, badernas, tumultos, transgressões, anarquias, desordens.  E isso já está acontecendo há alguns dias, apesar dos protestos dos manifestantes pacíficos e idealistas. Ora, quando há o estouro da boiada nada há que a segure. E quando há má fé dos agentes provocadores – e já se torna cada vez mais perceptível a ação dos vândalos e bandidos – acaba, na desordem, a se confundir alhos com bugalhos. E poucos conseguem separar o joio do trigo.

Não é honesto, penso eu, continuar criticando a ação policial pelos excessos anteriores e iniciais. Aqueles acabaram e foram contidos pelas próprias autoridades. Essa cantilena atual – quase a confundir a ação policial com de baderneiros – está, na realidade,inibindo a ação justa, necessária e legal das forças policiais. Se há bandidos, como querer e pretender sejam, eles, tratados como se fossem cidadãos idealistas lutando por seus direitos? Bandido é bandido. E é obrigação da Polícia estabelecer a segurança e a paz. Como se falar em excessos policiais quando são eles atacados, vandalizados, agredidos por baderneiros? A terceira lei de Newton – da Ação e da Reação –  explica tudo. Quando a bola bate na parede, a parede bate na bola com a mesma intensidade, direção e sentido oposto. Em tumultos, isso vale tanto para os baderneiros quanto para os policiais mais exaltados.

O momento, agora – ainda penso assim – é de uma trégua, de armistício, mesmo porque já não se conhecem mais os interesses ocultos em tudo isso. Isso não significa que o povo se desmobilize,pois ainda permanece vivo o pensamento de Thomas Jefferson – aqui adotado pela antiga UDN – de que “o preço da liberdade é a eterna vigilância.” Continuemos, pois, vigilantes, mas aguardando o resultado das iniciativas tomadas pelos governos e políticos, após essa quase revolução popular. Há a hora de marchar, há a hora de parar. Nisso, reflito com meus botões, vale também a sabedoria popular, que brota até das cantigas infantis. Lembram-se? “Marcha, soldado, cabeça de papel/ quem não marchar direito/ vai preso pro quartel.”

Que multidões e policiais saibam marchar direito. Assim, os que não marcharem direito devem ir presos para o quartel. Bom dia.

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