Um violão e o mundo

picture (93)Esta é terra de seresteiros. Nela nasci num tempo em que, nas ruas, havia mais luzes de estrelas do que de lâmpadas, ruas com perfume de damas-da-noite, de silêncios apenas interrompidos por trilares de apitos dos guardas. Ou de grilos. Passava-se por sob janelas e ouviam-se ressonares das pessoas ou contidos sussurros de amor. E, sem muito esforço, poder-se-ia sentir o cheiro de alfazema vindo de lençóis. E de manjericão.

As casas ainda tinham jardins e eles se abriam às calçadas. Plantavam-se rosas, muitas. E – como se destinadas a avivar sentimentos – elas encantavam com as cores da vida: vermelho, da paixão; amarelo, da saudade; rosas cor de rosa para dizer de amizade, de primeiras intenções. De violões nos ombros, moços iam-se pelas ruas, as mãos com verrugas de tanto apontar e contar estrelas. Pois eram tempos em que contar estrelas dava verruga nas mãos, diferentes de agora, tempos sem verrugas, sem mãos apontando estrelas, sem violões encantando calçadas. E ladrões de flores, cadê? Pois seresteiros roubavam rosas deixando-as à janela das bem-amadas.

Meu pai teve medo de meu violão. E de mim. Deu-me por desatinado ainda na adolescência: “tocador de violão, seresteiro, jornalista e escritor – meu filho é um caso perdido.” Duas madrugadas ficaram-me grudadas à lembrança. Uma delas foi quando – entrando em casa, andando nas pontas dos pés – não consegui enganar meu pai. Ele, acordado, me esperava. Nada falou, não tugiu nem mugiu. Apenas tirou-me o violão das mãos, quebrando-o em minha cabeça. A dor, senti-a mais no coração do que na carne: como – sem violão – cantar à namorada que ela era “meu benzinho, luz dos meus olhos, desejo em flor?”

Outra madrugada inesquecível, tive-a ao voltar também furtivamente, um outro violão no ombro, comprado com o dinheirinho ganho ao ensinar, ara coleguinhas, o “rosa, rosae” do latim. Entrei em casa, cambaleando ao sabor dos últimos goles de vermute, pois seresteiros inspiravam-se com vermute. Minha mãe me esperava em silêncio, cúmplice e generosa. Fizera café, queria conversar comigo. Perguntou-me: “O que você quer da vida, meu filho?” Eu tinha a resposta pronta, meu sonho já elaborado: “Quero para consertar o Brasil. Depois, vou consertar o mundo.” Sonhar pouco era bobagem.

Lembro-me dessas belezas jovens por, cada vez mais, estar entendendo o Lula. A vida dele foi mais difícil do que a minha. Lula não teve oportunidade de sonhar na adolescência, de fazer serestas por ruas tranqüilas, roubando flores de jardim, cantando, ao violão, canções de amor. Os sonhos de Lula são tardios, como os de homens que não tiveram infância. É bom sonhar. Mas há, penso eu, sonhos e ilusões próprios de cada tempo da vida. Um homem maduro com sonhos infantis corre o risco de não ser levado a sério. Ou, então, de se tornar contador de histórias, o que não é ruim.

Tomara Lula continue sonhando para, com ele, não ocorrer o que aconteceu comigo: chegou um dia em que – desistindo de consertar o mundo, o Brasil ou São Paulo – jurei consertar minha cidade. Também desisti, pensei no bairro onde moro, depois no meu quarteirão, contentei-me com minha casa e nada havia que precisasse de conserto. As coisas são como são. Do mundo, sobrou-me o conserto de mim.

É o que faço: tento consertar-me. Nem o violão sobrou, mas decidi comprar outro. Por enquanto, sento ao piano e entendo melhor o pranto de Maysa: “O meu mundo caiu…” Tomara não aconteça com Lula. E bom dia.

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