Uma outra tesoura do Polacow

Izidoro Polacow

Nunca fui supersticioso, a não ser – há décadas passadas – em jogo do Corinthians. Então, como bom corintiano, eu fazia as minhas mandingas: acendia uma vela, colocava pinga para o santo, fumava um charuto. De nada adiantava, pois o Pelé estragava tudo. De que adiantava eu pedir aos santos, se Pelé era o deus do futebol?

Mesmo assim – sem me apegar a superstições – aprendi a buscar e a observar os sinais da vida. Pode parecer muito junguiano e, talvez, até seja, mas a vida dá sinais e é preciso aprender a entendê-los. Continuo tentando, sempre pensando nos áugures que, muitos deles, no alto das montanhas interpretavam os avisos das aves, sabendo que aves avisam. Na verdade, a vida avisa através de sinais, de pessoas, de fatos. Lá está, ainda nos livros sábios e santos: “quem tiver olhos de ver veja; quem tiver ouvidos de ouvir ouça.”

Pois bem. Fui honrado com a visita de uma jovem jornalista, a Patrícia Polacow, que, de mim, queria ouvir algum depoimento para o livro que está escrevendo. Antes de ela chegar e ao telefone, perguntei-lhe: “O que você é do Izidoro Polacow?” E ela, toda feliz, respondeu: “Neta”. Emocionei-me e perguntei se o velho e querido Polacow continua sendo um chato. Ela se riu. E eu lhe expliquei o que já havia escrito antes: foi o meu primeiro orientador no jornalismo, no antigo “Diário de Piracicaba”, do saudoso Sebastião Ferraz. O Polacow era o redator-chefe, experiente, grande jornalista, absolutamente chato com o seu perfeccionismo. E eu – aos meus 16, 17 anos – querendo ser jornalista fui encaminhado, pelo Ferraz, até ele, com a alvissareira informação: “Com o Polacow você vai aprender jornalismo.” Vibrei.

Já contei essa história e a Patrícia já sabia. Mas, como dizia Nelson Rodrigues, o importante é estar repetindo. E, quanto mais velho se fica na profissão, mais se repete, mesmo porque leitores antigos vão morrendo, jovens vão chegando e, na verdade, nada há de novo sob o Sol. Isto posto, retorno ao Polacow, meu primeiro orientador na brava faina jornalística. Na verdade, eu tinha medo dele. Mas o admirava até porque – num concurso de que participei lá no Diário de minha adolescência – ele fora um dos juízes e fez uma preciosa correção no texto, cobrando-me no dia da premiação: “Você aprendeu que se escreve assertiva e não acertiva como você fez?” Sim, eu tinha aprendido. E estava ansioso por aprender mais coisa.

Para falar a verdade, eu não queria aprender nada. Eu tinha a certeza de já saber tudo, vendo-me como um David Nasser, um Carlos Lacerda, um Júlio Mesquita, um Joel Silveira. Para mim, tudo era uma questão apenas de iniciar, sentar-me à máquina e escrever. Então, o Polacow chegou com a primeira lição, como a própria Patrícia, a neta dele, já sabia: ele me deu uma tesoura. E me fez sentar à mesa com uma montanha de jornais. E ordenou, lição número 1: “Agora, você leia página por página e recorte as notícias que considerar mais importantes. Se você souber ler, saberá escrever; se distinguir o principal do acessório, poderá ser jornalista.” E fiquei com a tesoura na mão, odiando aquele homem, querendo matá-lo com a tesoura. Que atrevimento era aquele, dar uma tesoura para um David Nasser? Eu queria ser repórter e não “recórter”. Mas me calei, fiquei lendo, cortando, lendo e cortando. E aprendi muito.

Quando a Patrícia chegou para me entrevistar, ela tirou um pacotinho da bolsa e me falou tratar-se de um presente, uma lembrança. Não me falou de quem, dizendo que, ao abrir, eu saberia. Curioso, feliz, com cuidados, desatei a fita, desembrulhei o papel sofisticado e lá estava o meu presente: uma tesoura! Era outra tesoura que o avô dela, meu querido e velho Izidoro Polacow, me dava. Emocionei-me, pois, 57 anos depois, aquele meu primeiro mestre se lembrava do garoto pretensioso, atrevido que lhe fora entregue como aprendiz de jornalismo.

Eles me chamavam de “menino de ouro”. Quase 60 anos depois, sou o decano dos jornalistas de minha terra, ainda na ativa. E, por preocupar-me com os sinais da vida, a outra tesoura do Polacow me traz uma lição grave, séria e profunda. Não se trata, apenas, de uma lembrança. Mas, com certeza, de uma advertência que a vida, através dele, me envia: “Continue lendo e recortando, lendo e recortando. Algum dia, talvez, você aprenda a escrever e venha a ser um jornalista. Vá em frente, não é hora de parar, de descuidar, de relaxar.”

Mais outra vez, o meu caríssimo Polacow foi instrumento do mistério para me alertar sobre a vida. Abração, mestre. E bom dia.

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