Vaso ruim e tiririca

picture (37)Há algum tempo, um amigo, despedindo-se, falou: “Tchau, turco de coração bom.” Tremi. Isso dá azar. Ser bom, ter coração grande, é prenúncio certo de desgraça. Pedi, então, ao amigo que espalhasse por aí que o amigo turco é cruel, ruim, insensível. Pois vaso ruim não quebra. E eu estava quebrando, entrando em colapso.

O Roberto Marinho – que foi um dos mais poderosos homens deste País, criador da Globo – tinha um artifício infalível contra maus-olhados e azares. Ele dizia ter, sempre, “uma úlcera no bolso.” Se alguém lhe desse tapinhas nas costas, se o elogiasse, o nosso “Cidadão Kane”, segundo ele próprio revelou, dizia: “Reze por mim, amigo. Estou com úlcera, não sei que mal me corrói o estômago.” E, então, a inveja do invejoso passava a ser alegria: “Tão vendo? O Roberto Marinho, com tanto poder e dinheiro, tem uma úlcera no estômago. Eu sou pobre, mas meu estômago é bom.” E o invejoso sentia-se feliz : podia não ter amor, dinheiro, poder – mas, também, não tinha úlcera. Vida “maledeta”.

Amigos não devem dizer, de público, de bem-estares do outro: “ele está forte, bonito, saudável, é bom.” As bruxas existem, olhos gordos são mortais. Amigos deveriam espalhar que o outro, coitadinho, tem dúzias de úlceras no estômago e no duodeno, que está no bico do corvo, apitando na curva, o escambal. Pois coisa boa atrai quebranto e, se for de mulher, quebranto pode até matar. Antes, dava lombriga em criança. O povo sabe: vaso ruim resiste. .

Ora, eu estava quebrando, forças fugindo-me, cirurgia inevitável. O João Sachs, cozinhando para os amigos, coçava o queixo, dizia-me: “Não sei, não… Você, desde criança, é bicho ruim, teimoso.” Foi o que me alentou: ser bicho ruim. Pois bicho ruim urra, geme, rincha e relincha, grunhe e berra. Pela visão de outro amigo – “turco de coração bom” – eu iria ficar de cama, bonzinho, santificado, sei lá se purgando penas, se aguardando prêmios por uma que outra virtude, esperando ir para o céu. Todos sabem: gente boa, Deus chama logo. Portanto, para ficar, há que ser ruim, peste dos diabos. Bicho ruim reage, vaso ruim não quebra. Ou demora mais a quebrar.

Isto é um pedido de desculpas. Pois, na eternidade dos últimos dias, tentei ser super-homem, recusando-me a prender-me ao leito, indignando-me à hipótese de submeter-me, de render-me. “Vaso ruim não quebra, vaso ruim não quebra…” – foi minha oração de cada dia. Pensei em beliscar neto, brigar com nora, xingar genro, mostrar a língua para a criançada da vizinhança, dar rasteira em velhinho na calçada, ficar de mal com filho, pisar no pé de cego. Pensei no mau carneiro: se era para ir para o sacrifício, ir berrando.

Escrever uma linha, uma só linha, foi-me sacrifício penoso de cada dia, como se nuvens pesadas estivessem bloqueando o cérebro. Ou o corpo, sem forças. Já me acontecera antes, mas, desta vez, pensei que o vaso ruim estivesse inteiramente vazio de pensamentos, de idéias, de sensações. Mas era preciso cmprir a missão do cotidiano. Nem que fosse uma frase vazia, que era a frase possível. Assim foi. Palavras não serviram para ninguém. Mas me provaram que vaso ruim não quebra tão fácil. E que tiririca, geada não mata. Bom dia.

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