Homônimos e confusão

HomonimosDaria para escrever um romance com histórias de pessoas que, por terem homônimos, entraram em grandes confusões, além de pequeninos vexames. Certa vez, aconteceu-me com o Mário Sturion, querido amigo já falecido. Mas, quando ocorreu, o Mário estava vivíssimo-da-silva e, para falar a verdade, não costumo ler notícias de falecimento. Pois bem. Um outro amigo me contou que lera, em necrológio, que o Mário morrera, bem antes de ele ter morrido de verdade. Senti a perda e, meio desnorteado, telefonei para filhos dele, solidarizando-me. Mas não era aquele Mário o morto, mas sim outro, um Mário primo dele. Cometi a grande gafe: “Graças a Deus, que bom!” – falei. E sequer percebi que não poderia e nem deveria alegrar-me pela morto de outro.

Já aconteceu comigo. Ausente da cidade, ao retornar atendi a um telefonema, triste, cavernoso. Era o Carlos Cantarelli – outro inesquecível amigo, agora também falecido – cuja voz foi a mais bela da radiofonia piracicabana. Por que, então, estava tão soturna? Ao ouvir-me, ele berrou: “Turco morfioso, você está vivo? O jornal deu que você morreu.” Nem eu sabia. Era um primo querido meu, Cecílio Elias, que se tinha ido. Alguns poucos amigos meus entristeceram, houve festa entre políticos. Mas vaso ruim não quebra fácil, aqui, ó!

Aconteceu, também, com meu pai. Ele foi preso, na revolução de 1932, na Estação da Luz, confundido com um contrabandista de armas. O bandido tinha o mesmo nome, Tuffi Elias, a mesma cara e o mesmo jeitão. Meu pai safou-se por sua marca registrada: ele, na juventude, perdera o dedão da mão esquerda, o “mata-piolho”. Acho que, para escapar, deve ter dito, sei lá: “Esse Tuffi bandido tem todos os dedos das mãos? Então, não sou eu. Olha aqui, cadê meu “mata-piolho”?

E com o sagaz Sebastião Ferraz, diretor do “Diário de Piracicaba”, patriarca de minha geração de jornalistas? Um belo dia, o “Diário” publicou nas notas policiais: Sebastião Ferraz, preso por bebedeira e arruaça no centro da cidade. Foi um corre-corre. Preso, o Sebastião Ferraz? Era verdade. Só que um outro Sebastião Ferraz, maluco e malandro conhecido. Tornou-se rotineiro: a Polícia prendia o arruaceiro, soltava-o, voltava a prender. E saía nos jornais: “Sebastião Ferraz foi preso.” No JP, Losso Netto e Acary divertiam-se.

Então, o Sebastião Ferraz jornalista chamou acho que o José ABC e ordenou: “Está proibido, a partir de hoje, me chamar de Sebastião Ferraz ou escrever meu nome. Agora, eu sou S.Ferraz. Sebastião é aquele pinguço desgraçado.” Até o final de sua longa vida, o glorioso e velho S.Ferraz jamais permitiu alguém o chamasse de Sebastião. Bom dia.

1 comentário

  1. Edson Rontani Júnior em 28/09/2014 às 11:31

    Curiosa história ! Realmente sempre li as matérias do nosso patriarca assinadas por S. Ferraz mesmo.

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