Vesícula e saudade

picture (37)Há algum tempo, um cronista, lamentando-se da perda de sua vesícula biliar, escreveu ter sentido dor “maior do que a da saudade”. Horrorizei-me. Pois ou aquele homem nunca conheceu a dor da saudade ou não conhece quem tenha morrido dela, dor de saudade.

Deus – certamente atacado da cólera santa – alcançou o seu mais alto grau de crueldade e de sadismo ao inventar a dor da saudade. Eva e Adão não morreram por terem-se tornado mortais. Morreram da imortalidade da saudade do que tinham sido, da nostalgia de onde tinham vivido, a infinita dor do bem perdido. Que é tão agônica e permanente, tão corrosiva dor que somente deuses e demônios poderiam tê-la inventado.

O mais cruel dos homens seria incapaz de criar, para seu inimigo, tal sofrimento sem fim. Inventaram-se a prisão perpétua, a pena de morte, as torturas física, psicológica, mental – mas o homem foi incapaz de inventar o castigo da saudade, maldade exclusiva dos senhores dos céus e dos infernos.

Certa vez, nosso eterno Thales de Andrade contou-me de seu livro “Saudade”, que alegrou tantas gerações. Os amigos, incluindo Lobato, diziam-lhe que, sendo livro infanti, o título “Saudade” poderia ser inadequado, pois “criança não tem saudade”.

Professor primário, numa escola rural, Thales fez um teste com seus pequenos alunos. Quem tinha saudade? E, tendo-a, era saudade de quê? Uma a uma, as crianças falaram da saudade que levavam no coração: : “da goiabada que minha avó fazia; das férias na fazenda de meu tio.” E um deles: “saudade da minha mãe que morreu.” Desgraçadamente, pois, também as crianças conhecem a saudade. Que nada mais é do que a observação atribuída a Ruy: “saudade é vontade de outra vez.”

O que há de tão desesperador quanto a vontade de uma irrealizável outra vez? Saudade mata. É agonia lenta, vagarosa, ferida que se não fecha, pois regada, dia e noite, com gotículas de fel. Dói e não arde. O coração se esconde, a alma se recolhe, o cérebro tenta fugir. E, fingindo ser as de um passarinho inofensivo, as bicadas alfinetam, injetando mistura insuportável de fel e de mel. Que, pingando no coração, faz recordar e, então, mata. Gotejando na alma, tenta fazer esquecer, mata também. Morre-se de recordar, morre-se de querer esquecer. Vi meu pai morrer de saudade de minha mãe que morreu.

A saudade é a alma transformada em Sísifo: carrega-se a pedra da dor como se, levando-a ao alto, desse por finda a expiação. E, quando no alto, vendo-a novamente rolar, começa-se tudo de novo. É a tragédia cotidiana de não conseguir matar e não conseguir morrer. Ou o castigo infinito de conviver com uma dor que não é dor, com uma tristeza que não é tristeza, com amargura sem amargor. E penitência ainda mais cruel: a de ser íntimo de felicidades antigas que já não nos deixam felizes, de alegrias que não alegram, de encantos que deixaram de encantar.

Qual, das dores, a mais agônica: saudade de quem já morreu, de quem, vivo, está ausente? Talvez, dos mortos, alguma anestesia lenta nos faça saber da ausência definitiva, de um nunca mais voltar, do irrevogável. A saudade do ausente querido – um filho, um grande amor – é a dor da espera, da esperança e da expectativa, da dúvida, da incerteza. O perfume dos mortos vai-se com os que morrem. Mas o dos vivos nunca se extingue, como se permanecesse intato nos pulmões, na pele, na boca, na alma. Os beijos dos mortos ficam como lembranças. Os dos vivos ausentes queimam feito brasas incandescentes. O inferno é ausência do céu. E bom dia. (Ilustração: Araken Martins.)

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