Vontade de mãe

MãeAusência de mãe é dor que aumenta com a idade do filho órfão. Quanto mais idoso se fica, mais saudade se sente. É como se o vazio fosse crescendo, um vácuo que se amplia e, então, a sensação de estar num tempo e num espaço sem rumos. Falta de mãe dói no estômago.

Um velho e querido amigo, confortador de almas, dedicou e ainda dedica sua vida ao consolo dos que sofrem, em especial de idosos e moribundos. E um de seus maravilhamentos diante da solidão do ser humano que expira está no fato, como ele sempre nos contou, de uma última palavra que exala dos lábios do moribundo: mãe. Quando bebê, a primeira palavra é mãe, mamã. Ao morrer, o chamamento é pela mãe. Eis o mistério de amor que se prescinde de toda e qualquer explicação racional. A verdade, toda ela, está no cordão umbilical através do qual mãe e filho comungam uma união que nem mesmo a morte dissolve.

Há, em cada homem – creio eu – o desejo oculto e profundo, a inveja mal disfarçada de querer conhecer o milagre da maternidade, de carregar no ventre um filho. Até Deus, a se crer nos livros sagrados, quis ser gestado no ventre de uma mulher. Deus precisou ter mãe. Talvez porque – ou com certeza – ele nem sequer conseguisse ser Deus se não estivesse abençoado por um olhar de mãe, por um carinho de mãe, por um beijo de mãe.

No entanto, ser mãe não é apenas gerar, que isso, hoje, é feito também por mães com barriga de aluguel. É o estar presente, participante, até mesmo e quase sempre sofridamente, na vida do filho. É outro milagre e, portanto, inexplicável à razão: não importa como seja o filho, se feio ou bonito, se bandido ou mocinho, se devotado ou ingrato: o amor de mãe não fraqueja. Pelo contrário, parece que aumenta quanto mais problemas ou dificuldades existam, quanto mais sofrimento haja.

Nesse Dia das Mães, começo a sentir que nem tudo está completo, que a celebração fica capenga. Pois, se é admirável que mães e filhos comemorem, se é esplêndida essa demonstração coletiva de amor às mães, penso haver um espaço nebuloso, triste, descuidado que, num Dia das Mães, precisaria ser mais generosamente cuidado. Falo dos órfãos de mãe, de todos, de crianças e moços e velhos, pois orfandade de mãe é dor que não contempla idade. O mundo deveria ter um olhar de compaixão, especialmente neste dia, para os órfãos de mãe. Pois é um dia que faz a orfandade se tornar mais aguda, quando a saudade se torna ainda mais insuportável e o sentimento de impotência, de solidão e de ausência se torna ainda mais esmagador.

Que se tenha compaixão dos órfãos de mãe. Nós temos vontade imensa de mãe e é uma sensação de desfalecimento. Bom dia.

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