“In Extremis” (168) – “Inferno Verde”, “Paraíso Perdido”

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Rio Guaporé, Amazônia. (imagem de Luis Deltreehd, por Pixabay)

A Amazônia – esse sacramento da natureza – volta a desafiar o Brasil, a partir de mais outra de suas tantas seculares tragédias. Que, aliás, ocorrem por irresponsabilidade humana. E sinto-me um herege ao, ainda outra vez, tentar referir-me a ela. Desde a infância, a Amazônia me assombra, como ainda deslumbra a humanidade. Não é um lugar; é o êxtase. Não é a floresta imensa; é o mistério. Já foi cantada por todas as vozes, glorificada e temida. Foi o “Inferno Verde”, de Alberto Rangel; o “Paraíso Perdido”, de Euclydes da Cunha. A Amazônia é o templo de todos os deuses pagãos que, nela, reinam em sua plena majestade. E, por isso mesmo, assustadoramente.

Grandemente encravada no Brasil, eis que esta parece ser sua penitência, como que destinada à profanação do homem branco. O Brasil faz, desse seu tesouro, o papel de um herdeiro irresponsável, sem consciência do imenso legado gratuitamente recebido. Lembro-me, ainda amargamente, da tragicomédia em que a dupla Assis Chateaubridand/Davi Nasser transformou a Amazônia mato-grossense para apresentá-la ao mundo como um “romance nacional”. Foi em 1950, e em outros dois ou três anos seguintes. A Revista O Cruzeiro patrocinou, estimulou, criou o grande drama: uma índia, a infeliz Diacuí, estava sendo apresentada como vítima da ignorância de seu povo por amar um homem branco e, com ele, querer casar-se através dos rituais ditos civilizatórios. O Brasil indignou-se com o que chamou de ignorância indígena, pois o noivo branco, Ayres Câmara Cunha, iria levar a civilização àqueles povos atrasados.

Os espíritos sagrados indígenas resolveram a situação: Diacuí, a que se vestira de noiva no casamento cristão, morreu no parto da filha do homem branco. A história terminou ali. E os “Diários Associados” perderam a fonte de seu grande carnaval. Assim, pois, já era o Brasil diante da Amazônia: um herdeiro irresponsável sem qualquer noção da riqueza universal daquele tesouro. O naturalista Alexander Humboldt – deslumbrado com o que encontrara em meados do século 18 – deu-lhe o nome Hileia, derivado do grego, floresta selvagem.

Vivi o privilégio de, em cinco circunstâncias, pisar pedacinhos daquele solo sagrado. Em Manaus, Belém, Roraima, pela Belém-Brasília. Há noites, ainda agora, em que desperto sacudido por sonhos indizíveis ou por terríveis pesadelos. Para mim, entrar na Amazônia sabe-me, ainda hoje, como êxtase e como horror. Deslumbramento e medo. Euclydes tentou – sem o conseguir, apesar de sua genialidade – definir se, lá, a natureza se revela como adversária do homem ou se vítima de apetites criminosos. Mas conseguiu, o notável escritor, proclamá-la como Éden a ser protegido, a “terra sem pecado”. Na Amazônia, Euclydes encontrou o “Paraíso Perdido”.

Diante dessa nova tragédia, consolida-se-me uma certeza: a Amazônia não pode pertencer ao Brasil ou a qualquer país. É patrimônio da humanidade que está sob a guarda dos únicos habitantes que sabem compreendê-la, amá-la, preservá-la, sendo dignos dela: os povos indígenas, especialmente escolhidos pelos deuses da floresta para serem sacerdotes e guardiães do templo sagrado. A estupidez congênita desse tal Bolsonaro confirma-o. Ele já sugeriu a sua solução: fazer como os Estados Unidos e dizimar todos os povos. Pensamento de genocida estrutural.

Pelo mínimo que vi daquela grandeza, reconheci a minha pequenez diante da Criação. A beleza é aterradora. E, dela, soa a advertência ao homem branco: “Não me toque, herege!” Se violado, o Paraíso Perdido torna-se Inferno Verde.

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