A Rua São José

Viver vive-se vivendo (28)

O Bispo Emérito de Piracicaba, D.Eduardo Koaik, ainda neste 2007 repetiu-me o que, por mais de 20 anos, insistiu em dizer-me, agora sei que como alerta e como estímulo que nem sempre ouvi. Falava-me ele, ainda me falou recentemente: “Deus gosta muito de você. Por isso, Ele o persegue.” Começo a entender. E descubro que até nisso – nas descobertas da vida – elas nunca foram tardias. As de agora, sei que, também, não são. Há tempo. E esse tempo, sinto-o, é realmente o de refletir, de contemplar e de contar.

Espero sobrarem-me muitos e muitos dias para dizer do que vi, de como as coisas aconteceram, de uma Piracicaba onde a vida e o mundo aconteceram de forma realmente admirável. E, nesses dias, muitos deles serão reservados para cavoucar a memória em honra a D.Aníger Melilo, o homem que, com sua fé e docilidade, construiu uma história excepcional num tempo também excepcional. Em minha casa, reservei cantos de reverenciar os que amei. Disseram-me assemelharem-se a templos e isso me conforta, pois foi o que pretendi fazer, é como tento cultivar. E, nesses cantos, a figura de D.Aníger Melilo está posta entre os meus queridos: pai e mãe, avós, filhos, irmãos, a mãe de meus filhos e pessoas que amei.

Nesses espaços, há coisas, acho que preciosidades, que D.Aníger me deu, contemplando-me com sua amizade. Guardo o capacete do pai dele, o jurista e depois padre Vicente Melilo, na Revolução de 1932. Guardo fotos, um decreto no qual criou a capela do Seminário da Nova Suíça; um vaso do altar daquela capela, o crucifixo que ele me deu no Cursilho de minha conversão, em 1967, há, portanto, 40 anos. Foi no dia 7 de julho daquele ano e não me perdôo por, embora lembrando-me da data e daquela epifania – a parusia na minha vida espiritual, num sentido salvífico – não a ter celebrado. Eu deveria, jubilosamente, ter dado graças e não as dei. Deveria comemorar como aniversário de nascimento e convidar amigos: também não o fiz. Acho que aguardo o momento do retorno, neste caminho de volta que comecei a fazer.

D.Aníger, já doente mas lúcido, me chamou certo dia e me entregou, como se me desse tesouros para guardar, duas imagens: uma, de Nossa Senhora Aparecida; outra, de São José com o Menino no colo. Ambas as imagens tinham sido entronizadas naquele Seminário que, a propósito, foi batizado com o nome de São José. E nunca, digo que absolutamente nunca, importei-me com a pequenina escultura de São José, a não ser pelo valor afetivo, o presente de um amigo que foi meu pai espiritual. Deixei-a a um canto, quase esquecida. E a escultura de Nossa Senhora, essa teve caminhada diferente, com certeza por essa minha inexplicável rendição a Maria, mesmo nos meus momentos de mais amargura ou de negação de tudo. A imagem da Senhora Aparecida – que D. Aníger me deu – passou a ter uma história própria, confusa, itinerante, ora saindo de minha casa, ora voltando. Até que ficou, em definitivo, no lugar onde estão fotos e lembranças de meus queridos.

No domingo, 25 de agosto, vi a imagem de São José escondida num canto de uma estante. E, de repente, as lembranças vieram-me com luminosidade, como sinais reveladores, coincidências que, na realidade, são caminhos. Veio-me a necessidade vital, imperiosa, de recomeçar esses escritos por outra dimensão, a dimensão de um quadrilátero central de minha terra amada. E, em especial, a dimensão, em minha vida, de uma rua, a Rua São José. Pois, tendo nascido na esquina da rua Moraes Barros com a Praça da Catedral (onde está o Banco Sudameris) foi na rua São José que a vida aconteceu, entre revelações, alegrias, dores, um aprendizado.

Toda a minha segunda infância, dos cinco aos dez anos, eu a passei numa casinha humilde da Rua São José, humilde e magnífica como construção de amor. Era quase em frente ao Cine Broadway, ao lado do Hotel Lago, famoso mas vitimado pela modernidade. Dos 10 anos até os 22, quando me casei, morei com minha família ainda na Rua São José, quase em frente ao Teatro Santo Estevão. Depois de casado, minha primeira casa, adquirida com suor e sacrifícios – onde eduquei e criei meus filhos – foi também na Rua São José, onde está o Cartório do Bortoletto, a quem vendi a propriedade. E foi na Rua São José que instalei O Diário, no último período de minha vida como dono de jornal. Foi como, agora me parece claro, algo me dizendo que tudo estava concluído naquele período da vida, incluindo O Diário.

Não percebi, como agora enxergo, que, mesmo tendo feito alguns movimentos errados e equivocados, os caminhos estavam traçados. Tentei negá-los, busquei outros caminhos, mas tudo me levou ao ponto de partida, ao reinício, como me mostrando que a vida é, mesmo, um eterno retorno.

Antes de retomar toda essa história – o mundo e o tempo que eu quero contar a partir daquela rua – coloquei a imagem de São José ao lado da Senhora Aparecida. Agora lá estão, reunidos, a família e o casal: José e Maria, e o filho. Com os meus mortos queridos.

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