O umbigo do mundo

Viver vive-se vivendo (2)

Não sinto, ainda, no coração. Mas sei, tenho consciência: esvai-se-me o tempo. Sentir é mais do que saber. Digo – a amigos e familiares – de minha serenidade diante do tempo. Moribundos vivem toda uma odisséia nessa passagem da vida para morte. Talvez – e quase me atrevo a dizer seja verdadeira a reflexão – vivem-se muito mais odisséias do que ilíadas. Mais do que ir e fazer, volta-se.

Foto: Soraya Lira Duarte

A viagem de retorno é admirável. É-me. Já conheço a história, sei dela. E, então, há segurança em contá-la. Pois contar é rebuscar o que aconteceu, olhar pelo retrovisor, sentir com sabedoria, ter paixões vivas e assumi-las com o coração em paz. Uma certeza, nesse caminhada final de vida, é a de que já me aconteceram as ilíadas, quase todas das que sonhei. E, também, a de que me acabaram as odisséias, como se eu tivesse retornado ao seio de Penélope.

Rendo graças. Pois – de alguma forma que não entendo, numa aldeia e à beira de um rio – faço um retorno, achego-me à lareira, tenho quem me aquente as pernas cansadas, quem me teceu a lã das meias. Acontece-me e possuo o que tentei revelar a meus filhos: lar é o lugar para onde se volta, não onde se fica. Logo, apenas poderá ir para o mundo e para a vida quem tiver para onde voltar. Ulisses pôde ir-se pela certeza do lugar de seu retorno.

Viver é estar num tempo e, também, num lugar. Enganam-se os que acreditaram estar, ao longo da vida, em muitos lugares. Passa-se por eles. Está-se, no entanto, onde ficou o umbigo. Meu tempo foi o de minha geração. Meu lugar, no entanto, é Piracicaba, umbigo do mundo, caverna de onde pude sair para ver os fantasmas exteriores, mas para onde sempre voltei prisioneiro de minhas raízes. Piracicaba, meu lar. E, no retorno da caminha, o lugar de estar.

Penso que, na verdade, não conto histórias, não revelo o que me ficou guardado na memória. Na realidade, parece sejam coisas do olhar. De como enxerguei o mundo e todo esse tempo. E tudo começa com uma imagem difusa, longínqua, num misto de descoberta e de fantasia, tantas imagens desfocadas, minha apresentação ao mundo, a chegada. Não sei se posso afirmar tenha sido uma cena ou apenas um cenário. Sei que se me gravou na mente ou na alma, como algo que ficou impresso.

Identifico-o, ainda hoje: um quarto todo fechado, escuro. Nele, há mulheres que entram e saem por uma porta, apressadas, não sei se nervosas ou excitadas. Do lado de fora, há vultos. São homens austeros que se mostram entre alegres e preocupados. Vejo fumaça que parece azulada. Tempos demais, minha gente diria ser fumaça de charutos. Minha mãe confirmou-me: aquilo aconteceu de verdade, numa certa manhã de domingo, dia 24 de junho – na verdade, era dia 23 – em 1940. Não ouvi sinos, lembro-me apenas de vultos, tudo eram vultos. Mas Amélia, minha mãe, contava-me até o final de seus dias: aconteceu às 10 horas da manhã daquele domingo, dia de São João, quando o foguetório junino se misturava aos sinos da matriz e Zulmira, nossa cozinheira – gorda, alegre, linda – me encomendava e recomendava a Xangô, mãe de santo que era.

Vi o mundo a partir do umbigo dele próprio: no lugar mais central de minha Piracicaba, num casarão na esquina da rua Moraes Barros com a Boa Morte, às portas da Igreja Matriz de Santo Antônio. Naquela esquina, meu pai tinha um bar-restaurante, o “Café Imperial”, depois conhecido como “Tufiniquim”. Em junho de 1940, os alemães já tinha invadido Paris. Quando eu nasci, no dia 24 de junho daquele ano, Hitler já forçara os franceses a assinar o armistício, a França envergonhada.

Estreei no mundo em plena II Guerra Mundial. Enquanto milhares morriam, eu nascia. Não precisei, pois, de muitas lições para entender tragédias e milagres. Mas acho que entendi: mais do que sobreviver, era necessário viver. Foi-me, acho, uma revelação primacial: sobrevivendo, eu teria que viver. Sobrevivente, teria, eu, que respeitar a vida. E, mais do que isso, consagrar-me a ela.

(Ilustração: Araken Martins.)

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