Meu presente ao ser “lowton”

Foto: Filipe Ferreira/Olhares

Foto: Filipe Ferreira/Olhares

Viver vive-se vivendo (21)

Dizia-se que se tratava de “batismo na Maçonaria”. Não era nada disso. Mas, pelo menos na minha infância, foi uma cerimônia que se me tornou inesquecível, algo tão profundamente marcante como me foi, também, a primeira comunhão. Meu pai era maçom, não sei a que grau chegou, mas teve funções importantes, pois os maiores líderes da Maçonaria, naqueles anos 1940, chamavam-no amiúde, procuravam-no, dando-lhe responsabilidades que sei terem sido especiais. Nomes de que me lembro: Abério Sampaio, um farmacêutico de Vila Rezende, honrado e generoso, o inesquecível Leandro Guerrini, o admirável Leônidas Fogaça.

O mistério maçônico me fascinava. E, no entanto, me deixava angustiado diante o terror que as freiras, no Externato São José – na rua D.Pedro, esquina da Alferes José Caetano, onde foi a Faculdade de Odontologia – impunham aos alunos: “maçons vão para ao inferno; Maçonaria é coisa do diabo.” Isso, nos 1940, para se avaliar como estão superados alguns religiosos que, no início do século 21, ainda teimam em demonizar aquela instituição. Em minha infância, demonizavam. E eu não entendia como os maçons podiam ser tão perseguidos e estigmatizados se meu pai, em sua vida cotidiana, era um devoto fervoroso de Nossa Senhora. Se ele, embora não freqüentasse missas – pois maçons eram “excomungados” – estimulava os filhos a ter vida religiosa, colocando-nos, todos nós, a estudar em colégios católicos. Eram as contradições e tolices da vida, que aprendi, muito cedo, a conhecer. E a, com elas, conviver.

Lembro-me, com saudade doída, das tantas e muitas conversas com meu pai. É-me, ainda agora, na velhice chega, impressionante avaliar quanto fomos companheiros, as vezes sem conto em que estivemos juntos, momentos de lazer, momentos de dor, presença permanente em minha infância e adolescência. Sinto como se fosse ainda agora, ele e eu conversando, indo aos jogos do XV, ao Regatas, caminhando pelo jardim, conversando e, na juventude, fazendo serestas juntos. As ruas de Piracicaba eram tranqüilas, sem os horrores que revelam a brutalização do ser humano, esse retrocesso a uma animalidade sem sentido. Ver, nas calçadas, aqueles homens e mulheres conversando, crianças brincando, jovens namorando, a vida sendo vivida com serenidade mesmo na pobreza – ver aquela solidariedade entre vizinhos, ver meu pai com o sorriso sempre aberto, isso me marcou a vida em definitivo. E nada mais fiz senão lutar para que aquele mundo de harmonia pudesse renovar-se em cada época da vida, em cada momento do mundo, em minha cidade.

Numa daquelas conversas, meu pai me levou a um ranchinho de nossa casinha ao lado do Hotel Lago, pequenina e pobre. Nos fundos, no rancho, ele tinha tachos de fazer doce sírio e peças de marcenaria e carpintaria. Ele, então, me avisou: “Você vai ser lowton.” E eu não sabia o que era aquilo. E ele me explicou, à maneira mais simples para minha cabecinha infantil, entre os meus sete e dez anos. Sei que foi nessa idade, pois morávamos naquela casinha, de onde saímos em 1950, aos meus dez anos e já estudando no Colégio Dom Bosco. E minha irmã Carol já tinha morrido, vítima daquela tragédia que nos marcou para sempre. “Você será sobrinho dos meus irmãos da Maçonaria…” – ele explicou. E eu entendi que seria como ser apadrinhado, uma forma de estar sob a proteção daquela família, a maçônica, que meu pai amava tanto. Muito tempo depois, vim a saber que “lowton” tinha o sentido de adoção, uma evocação dos mistérios egípcios.

Passado algum tempo, numa tarde, eu retornava do Externato para casa, quando vi um homem elegante, bonito, alegre – eu sabia ser amigo de meu pai – aproximando-se de mim, à altura da bombonnière do Passarela, onde está o Banco Itaú, na praça José Bonifácio, neste 2007. Era Aristides Gianetti. Ele, com alegria e sorrisos de que nunca me esqueci, me abraçou e me deu um pequenino embrulho, em papel de presente: “Eu sou seu padrinho. Este é meu presente.” Era um relógio de pulso, marca Omega, o mais famoso à época. Eu tremi, meus joelhos fraquejando, a emoção de não querer acreditar, de pensar fosse mentira. Mas era verdade: o relógio era meu, meu primeiro relógio de pulso, de formato retangular, o mesmo formato de todos os meus outros relógios pelo resto da vida.

Aristides Gianetti – um homem polêmico – foi, em meu coração de criança, um dos modelos de generosidade, alguém de cujo sorriso, de cuja alegria nunca mais me esqueci. Quando cresci, ele, com certeza, nunca mais se lembrou da felicidade que me dera, a inesperada riqueza para uma criança que via a tragédia e a pobreza abalarem-lhe a família. Acho, ainda hoje, que a generosidade – gratuita, sem nada pedir, sem nada cobrar – daqueles maçons me deu confiança para crer e confiar no ser humano.

E a cerimônia em que me tornei “lowton”? Hei de contá-la, guardada tão preservadamente no fundo do baú.

 

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