Fogões a lenha, coisas que se comiam

Macarrão na chapa, em um fogão à lenha. Foto: Sandro Oliveira/Olhares

Macarrão na chapa, em um fogão à lenha. Foto: Sandro Oliveira/Olhares

Viver vive-se vivendo (20)

Um dos personagens do filme e do livro “Zorba, o Grego” fala: “Dize-me o que fazes do que comes e eu te direi quem és.” Não se tratava, pois, de saber o que o outro comia, para saber de quem se tratava. Era de saber no que transformava o que comia. E o personagem dizia haver quem transformasse o que come em excremento, outro em toicinho, alguns em trabalho e em bom humor e completava: “outros ainda, segundo já ouvi dizer, em Deus.”

Literatura e exageros à parte, o fato é que a comida, a culinária, o sabor, a arte de comer são momentos culminantes das civilizações. E da vida das pessoas. Não há quem não recorde de todo um passado, de todo um tempo, de si mesmo ao sabor que seja de um simples pão com ovo.

Éramos o que, na meninice, comíamos como lanche escolar. A lancheira era de papelão e, nela, cabiam uma garrafinha para leite ou suco ou refrigerante e o lanche, quase sempre um filãozinho com ovo frito. Os deuses, com toda certeza, não comeram delícia igual a um pão com ovo, no meio da tarde, a garganta sendo refrescada com largos goles de gengibirra. Ou de cotubaína.

Eram simples, os tempos, os idos dos 1940 de onde começo a me lembrar. E pobres. Quase nada se comprava feito. Fazia-se quase tudo em casa. E se há cheiros que permanecem como que grudados na alma, digo que, talvez, sejam três deles: o de café, logo pela manhã; o de feijão temperado e de bife chiando na frigideira, com cebolas. Durante a guerra, a II, faltava quase tudo, especialmente pão. Por isso, comer pão com ovo era luxo para poucos. Não por causa do ovo, que havia galinhas em quase todos os quintais, galinhas poedeiras. Nos da gente ou nos do vizinho. Mas pão de trigo era luxo, iguaria para poucos, aqueles que sabiam onde encontrar farinha no chamado “mercado negro”.

Não saberei dizer o que substituía o trigo, mas me recordo de bolos e de tortas de fubá, que se comiam no meio da tarde acompanhados com goles de café. E, depois, quando ressurgiu o pão, a grande gula era comer “cachorro quente”, enormes, com salsichas aceboladas. Ou, melhor ainda, imensos sanduíches com lingüiça que vinha dos sítios ou de famílias italianas de Vila Rezende. Meu pai, que teve bar e boteco para sobreviver, ficou famoso pelo sanduíche de pernil que fazia, sei lá qual o milagre que ele praticava, sei que as pessoasfaziam fila para comer. E, em minha casa, quando se fazia pernil nos almoços dominicais, era ele quem cortava a carne, como se todo o segredo estivesse ali, no corte. Ou na faca.

Comia-se banana amassada com aveia e, quando tinha, com colheradas de mel. Era aveia “Quaker”, tão conhecida quanto o maldito óleo de fígado de bacalhau, “Emulsão de Scott”, com o pescador carregando o bacalhau nas costas. Pão com manteiga “Viação”, a mais saborosa, salgada, que, neste 2007, ainda existe e é requisitada em empórios e supermercados. . Bolinhos de chuva,que se comia a partir da pontinhas mais secas. E – comida dos deuses! – os imensos peixes recheados das mesas dominicais, não sei se jaús ou dourados, servidos em travessas imensas, assados em fogões a lenha. Pois as casas tinham fogão a lenha e, no quintal, um maior, onde se faziam pães, onde se assavam peixes, leitoas, cabritos. E tachos também imensos, para fazer doces de goiaba, marmelada e, no caso de meus pais, o doce sírio famoso, “raha”, cuja fórmula – após a morte de uma irmãzinha nossa – meu pai cedeu ao amigo do coração, Neguinho Martini.

Macarronada e polenta estavam na mesa de todas as famílias, não apenas das italianas. E, na de minha família, a festa era árabe, de dar saudade, de doer no coração afogado pela água na boca. Eram os quibes fritos, assados, quibe cru; charutinhos de repolho e de folha de uva; abobrinha recheada; arroz com lentilhas, a célebre “mijahdra”; arroz com galinha e sêmola e sei lá mais o quê, parecendo néctar do Olimpo. E tripa de carneiro, recheada com arroz, carne de porco, mistura divina, que se comia por metro. Para mim, menos de cinco metros não tinha graça.

Comiam-se pé de moleque, cocada branca e cocada preta, maria-mole, algodão-doce, ai, paro por aqui. Quando se aproximam Natal, Páscoa, festas, a alma dói. .Cadê o doce sírio feito por minha mãe? (Ilustração: Araken Martins.)

1 comentário

  1. Urbano Zotelli em 06/11/2014 às 17:01

    Olá, Cecílio, o seu artigo tem aromas, sabores, água na boca, saudades. A saborosa manteiga citada é “Aviação”,

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