Nova Aurora, Coca Cola e Frapê

coca-cola-76Viver vive-se vivendo (30)

O final da II Guerra trouxe o novo para o mundo. Já antes de a guerra terminar, eram outros os costumes,havia abalos na ordem moral e religiosa.

Éramos, afinal de contas, sobreviventes,todos nós. E, sem saber qual e como seria, estávamos abertos a um novo tempo, a um novo mundo. Hoje, as crianças como que nascem já conhecendo o sabor da Coca Cola. E de maçãs. Não havia maçãs brasileiras, a não ser umas pequeninas,mirradas. Quando, no início do pós-guerra, começaram a chegar da Argentina, era quase um sonho imaginar comer maçãs, especialmente se fossem verdes. E a Coca Cola se tornou acessível ao povo – como que transformando em realidade o que se via em filmes – apenas naqueles anos. Ora, ninguém poderá imaginar o que tivesse sido – para uma criança acostumada à gengibirra ou a cotubaína dos Andrade ou do Orlando – o primeiro gole de Coca Cola. Era a garrafa pequena, sinuosa. A maioria dos bares tinha geladeira com barras de gelo. E eu me lembro da primeira Coca Cola, que meu tio Toninho, irmão de meu pai, me ofereceu na “Nova Aurora”, um dos bares da moda, na esquina da rua São José com a Boa Morte, onde está, agora, o Bradesco. Foi como se eu me visse diante da garrafa mágica de onde sairiam gênios e duendes. Vi o largo gole que meu tio bebeu, imitei-o . Pareceu um choque elétrico percorrendo o corpo,um golpe de vida nova, uma explosão no estômago. A Coca Cola era mágica. E, contrariando o orgulho caipiracicabano, ela “fazia arrotá” mais do que a gengibirra…

Era na Nova Aurora que se reunia a juventude refinada de Piracicaba nos meados dos anos 40. E era na Nova Aurora que se ia beber uma outra novidade, apresentada como Nova Aurora, Coca Cola e Frapê delícia dos deuses: “frapê de coco”,que se escrevia “frappé”. Piracicaba,toda feita de preconceitos, estava representada naquele quadrilátero central, da Matriz de Santo Antônio até o Teatro Santo Estêvão, o jardim que fora remodelado pelo Prefeito Jorge Pacheco e Chaves. A “classe operária” e os mais humildes “quadravam jardim”: as moças andavam em bandos no sentido horário,os rapazes também em bandos no sentido anti-horário, olhando-se, “flertando”. Outros rapazes ficavam apenas parados vendo as moças “quadrando jardim”. E da atual calçada do Itaú ao Bradesco ficava a “calçadinha de ouro”, onde faziam o “footing” as moças da classe média alta e das elites. Os “agricolões”,principalmente, ficavam vendo-as ir e vir, da “Bombonière” do Passarella até o Cine Broadway,passando pela Nova Aurora.

Chega até a ser doloroso lembrar,mas Piracicaba “cedia” parte do centro da cidade aos negros, que ficavam como que confinados ao quadrilátero formado pelas ruas São José, Governador Pedro de Toledo,Moraes Barros e a calçada da Brasserie.

Era o quadrilátero dos negros,da mesma forma como a “calçadinha de ouro” era propriedade intocável dos brancos ricos, bonitos e famosos…

O Cine Broadway era o cinema dos freqüentadores da “calçadinha de ouro”, da mesma forma como o Cine São José acolhia os negros daquele quadrilátero, moços e moças que “quadravam jardim”.

Era, sim, uma claríssima definição de preconceito social e racial, uma discriminação contra pobres e, racialmente,não apenas contra negros,mas também em relação a italianos,judeus, sírios, espanhóis, libaneses,alemães, japoneses. Não é à-toa, pois, sejam centenárias sociedades como a Italiana, a Sírio-Libanesa,a Espanhola e, também, a quase centenária Sociedade 13 de Maio.

Foram espaços de socorro mútuo.Meus olhos de menino viram aquelas ruas, meu corpo de criança viveu aqueles tempos, minha alma absorveu todo aquele universo fantástico que era possível ser vivido em tão poucos quarteirões, em tão poucas quadras. Na rua São José, entre o jardim central e a rua Alferes, o mundo passava, passeava. Até porque por lá estavam a Prefeitura, a Câmara Municipal, o Fórum. E a Nova Aurora, onde os amores despontavam e aconteciam. Sou capaz de descrever, ainda hoje, aquela rua:a garaparia de dona Antonieta na esquina,a Farmácia Normal, o Hotel Lago, a casinha de meu pai, a Livraria de João Fonseca, o Escritório de João Cardinalli – de dona Santa Michelin e seus filhos – dona Maria da Pfaff (Mattiazzo), o Garoto Chic, o Escritório Bandeirantes de Cícero Certain Ferraz, o armazém de Jorge Maluf, a tipografia Aloisi,o Bar Municipal… Tudo, numa calçada só. O mundo com toda a sua pluralidade.

Tolstoi enxergou antes: nenhum homem será universal se não conhecer,antes, a sua aldeia. Meu quarteirão, minha aldeia… Piracicaba, meu mundo.

2 comentários

  1. Heloísa piedade meneghel em 23/01/2014 às 13:41

    O artigo encheu meu coração de saudades e alegria .

  2. Daniel Cortarelli em 07/08/2017 às 16:28

    Nova Aurora era de propriedade de meu avô – Agenor Barbosa – onde meu pai (Agenor Cortarelli – Canarinho), conheceu minha mãe – Maria Madalena Barbosa Furtado.

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