Pedaço de pão e maçã

Viver vive-se vivendo (5)

Foto: Francisco Norton de Matos/Olhares

A frugalidade da vida, penso tê-la cultivado a partir da primeira infância. Eram frugais, os tempos. Não por virtude, mas por necessidade. A Guerra revelara a face cruel do existir: viver era apenas sobreviver. Não sei como, foi-me um aprendizado. Antes de viver, sobreviver. E, mais do que isso, sobreviver rapidamente para, então, usufruir da aventura da vida, da graça da existência. Aprendi, desde os primeiros dias, que a vida é dom. Chego próximo do fim acreditando nisso.

Carências podem matar ou estimular à criação. Os sonhos, penso eu, nascem de ausências. Quando se tem em abundância, não se sonha: farta-se, enjoa-se, não se aprecia. Se os tempos, neste início de terceiro milênio, são de esbanjamentos, de excessos, de emoções e de prazeres descartáveis, o mundo que conheci, a Piracicaba de meus olhares primeiros foram de necessidades, de miudezas. E de fome. Pois já havia a fome, maldição humana diante da perda do Paraíso.

A penúria tem o poder de transformar carentes em gourmets. Pequeninas coisas tornam-se tesouros. E são petiscos e comida de reis até mesmo as sobras que nos chegam à boca. Encontrar o sabor delas, aprender com isso, dessa experiência podem surgir gourmets. Pois os gourmands nem sempre saboreiam. Apenas comem. Piracicaba vivia na pobreza da Guerra, prazeres poucos, medos muitos. Viver com o não-ter, mais do que sobrevivência, foi uma arte.

Nunca, ao longo da vida, consegui jogar fora ou apenas abandonar um pedaço de pão. Não me foi ensinado, mas descobri por mim mesmo o sagrado do pão. Muito antes de me falarem de “corpo de Cristo”, o pão foi-me apresentado como vida. E vida integral. Havia filas imensas diante das padarias, das poucas que existiam. O trigo era uma impossibilidade. E o sagrado do pão foi-me revelado um dia, acho que nos meus cinco anos, quando minha mãe me levou a um canto da casa, olhou para os lados como se com receio de estar sendo vigiada e deu-me, misteriosamente, um pedaço de pão.

Era um milagre, minha mãe era capaz de fazer milagres, foi o que senti. E ela me empurrou, ordenando-me eu fosse embora, comer às escondidas o meu pedaço de pão. Comi-o debaixo de uma árvore, como quem saboreia o banquete real. Muitos anos depois, ela me explicou porque me dera a mim, não a outros irmãos, aquela regalia: “você tinha febre de vontade de comer pão, seus irmãos não precisavam tanto.”

Era um outro tempo surgindo, ainda que não o percebêssemos. O final da Guerra trazia outros costumes, haveria abalos na ordem econômica, moral, religiosa. Mas, entre espantos e perplexidades, as pessoas tinham como que uma vitória pessoal, conquista por assim dizer epifânica: éramos sobreviventes. O nome-síntese disso tudo era o mesmo de sempre: uma “nova aurora”. Sem saber qual e como seria, a realidade é que estávamos abertos a um novo mundo. E a novos tempos. A sensação foi a de sair-se de um quarto fechado e, então, contemplar pradarias vicejantes, verdes batidos de um Sol jamais visto.

Pode parecer ridículo aos olhos de moços e de crianças hoje, mas não saberei jamais descrever o deslumbramento, o encanto, o susto à primeira mordida de uma simples maçã. Pois não havia maçãs brasileiras, a não ser as pequeninas, mirradas, tristes maçãs. E, terminada a Guerra, elas começara a aparecer em raras mercearias e em alguns restaurantes e bares, tão excêntricas pareciam ser, as maçãs argentinas. Parecia um sonho poder morder uma daquelas sedutoras riquezas argentinas, especialmente se fosse verde. Pois maçãs verdes eram de um exotismo impossível de explicar, não sei como fazê-lo.

Um dia, meu tio Toninho, irmão de meu pai, levou-me a um restaurante, a “Leiteria Brasileira” – no térreo do Clube Coronel Barbosa, a esquina – e me deu a maçã verde. Não tive coragem de mordê-la diante dele. Guardei-a no bolso do calção, escondi-me para poder saboreá-la debaixo da árvore, de minha árvore: uma mangueira no quintal do Hotel Lago. A maçã passaria a ser a minha “madeleine”, muito antes de me chegarem os proustianos tempos.

O apetite dos sobreviventes é estranho, ao mesmo tempo satisfazendo-se com sobras ou migalhas, mas absolutamente insaciável quando se descobrem as possibilidades infindas de viver, de estar vivo, de ter sobrevivido. Sobreviventes não podem dar-se o direito de viver pouco. Cada dia teria que ser um lauto café da manhã. Tentei. (Ilustração: Araken Martins)

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