100 anos de Niemeyer e nossos

Em decorrência da morte de Oscar Niemeyer, no noite de 5 de dezembro de 2012, A Província republica texto de Cecílio Elias Netto, publicado oficialmente em 7 de dezembro de 2007.

Há poucos dias, antes do 15 de dezembro, Oscar Niemeyer falou de seu centenário: “100 anos de vida não têm importância. Importante é o que se viveu.” Logo, importante é, também, ter vivido o tempo de vida de Oscar Niemeyer, a sua presença no mundo e no Brasil, um exemplo que ainda espanta pela lucidez e genialidade. O centenário dele, pois, é centenário de todo o Brasil que se enriqueceu com sua obra, com sua vida, com seu exemplo de humanidade.

De minha parte, espanto-me com a velocidade do tempo, mesmo quando tento imaginar o tempo como realidade imóvel pela qual somos nós que passamos, não nós por ele. Pois tive o privilégio de, por três rápidas vezes na vida, estar pessoalmente com Oscar Niemeyer, um ícone, um ídolo, um exemplo – já há tanto, tanto tempo, que é o que me assusta. Foi em 1959 que falei com Niemeyer pela primeira vez. Portanto, há quase 50 anos! E era a idade que ele teria: quase 50 anos. E eu um garoto ainda não chegado aos 20.

Foi no descampado já chamado Brasília, ainda não inaugurada, um terreno imenso de obras que pareciam atropelar-se umas às outras. Fui, na boléia de um caminhão, buscando uma reportagem em torno do que seria a nova capital brasileira. Quase uma semana de viagem, estradas de terra, biroscas onde se alimentar, um Brasil desconhecido, pobre, miserável naqueles cerrados tristes. No auge do civismo por um novo Brasil, quis a reportagem e quis mais: construir, com minhas mãos, um pedacinho daquele sonho. E o fiz, no meio metro de tijolos que ergui de uma parede do que seria o Hotel Nacional de Brasília. E Niemeyer estava lá. E parecia apenas olhar a vastidão onde, do abstrato, tirara o sonho que espantou o mundo.

Da segunda privilegiada vez, foi no Rio de Janeiro, ao lado de um outro homem que o Brasil reverenciou como exemplo de dignidade, de humanismo e de fé: o jurista Sobral Pinto. Foi um momento mágico: o católico convicto e ativo, de comunhão diária, o jurista Sobral Pinto, na conversa amorável com o comunista ateu e também convicto de sua ideologia, Oscar Niemeyer. Ele, Niemeyer, com humildade admirável, parecia beber as palavras sábias que, na entrevista, Sobral Pinto dizia ao jornalista ainda jovem.

Meu terceiro e último momento com Oscar Niemeyer foi durante o governo de João Herrmann Neto em Piracicaba, em meados dos 1970. Ninguém queria acreditar no que Herrmann conseguira e fizera: trazer Niemeyer a Piracicaba para conhecer o Engenho Central, a idéia de transforma-lo ao mesmo tempo em Paço Municipal, em Centro Cultural, em área de lazer e de gastronomia, um centro completo. Niemeyer foi comer cuscuz no Bar da Flora, a saudosa Flora de quem nunca mais soube. Dou-me conta, agora, de que Oscar Niemeyer estava próximo dos seus 70 anos. E ninguém percebera.

Este 15 de dezembro de 2007 passa a ser o dia em que o Brasil adquiriu a consciência de quanto é importante esse nosso centenário, esse tempo de Oscar Niemeyer ter iluminado a inteligência brasileira, dando-lhe a quentura do coração. Os 100 anos de Niemeyer, se não são importante para ele, são de importância histórica para o Brasil. Significam o centenário de um gênio. (Ilustração: Araken Martins.)

 

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