Escola de fidalguia (1)

Lamento ter sonegado a informação de quem chamou A Província, de um “jornal fidalgo”. Acho que – por lutas cruéis e vulgares que se desenvolvem nos bastidores de Piracicaba – me preocupei em poupar pessoas nobres e decentes. Pois é tanta e tamanha a sanha criminosa nos conluios do poder que, de repente, passa a ser comprometedora a opção pelo honesto, quase que vergonhosa e tola a convicção pela decência, pela vocação humana à dignidade. Confesso, pois, ter cometido uma tolice em pretender poupar quem nos chamou de “jornal fidalgo”, diante da nova proposta que, teimosamente, mantemos como princípio. Peço desculpas ao José Roberto Rodrigues, o Beto, presidente da Adunimep – esse cavaleiro andante que não teme ser visto como Quixote – e a seus pares, Sanchos que também enxergaram fidalguia neste trabalho. Tolamente, eu quis poupá-los de uma saraivada de ódios, de vinganças, de mediocridades, de estupidezes que assolam Piracicaba em todos os níveis, incluindo poderes, instituições sociais, áreas de educação, de cultura e de produção. Davi Barros e alguns outros não são causa. São produto. E, por conhecer tiranos medíocres anteriores, confesso que temi pelos que respeitam a nossa luta. Hoje, igualmente a ontem, os medíocres tentam matar a inteligência, o idealismo, a civilidade, a cortesia – tesouros que compõem a fidalguia.

Há, ainda, ranços do terror que a ditadura militar impôs a este país sem que, ainda, as feridas se cicatrizassem. O Brasil é um país que vive de farsas de anistias, de acordos, de acertos, de negociações. Ainda não se fez justiça e as grandes vítimas são essas gerações que, perplexas, não sabem para onde ir, o conflito entre as razões do mercado e a razão do coração. Há, em Piracicaba, cúpulas diretivas que são exemplos dolorosos e lastimáveis aos nossos jovens. Eles pautam suas vidas medíocres por números, gerentes de resultados, como feitores que contabilizam lucros. A corrupção caminha lado a lado à política de resultados, tão em oposição à política da consciência, fundamento da dignidade humana.

A cidade está entre a perplexidade e o medo, entre a vergonha e o susto, entre a indignação e a fuga.. Mas Piracicaba não é isso, nunca o foi em nossa consolidação ideológica, civilizada, culta. Piracicaba é fidalga, eis que aceito e agradeço e incorporo o que o Beto e professores da Unimep disseram de A Província. Este jornal é fidalgo por tentar ser imagem e semelhança da Piracicaba fidalga que nos foi construída pela epopéia de Luiz de Queiroz, dos Moraes Barros, dos Barões de Valença e de Rezende e de Serra Negra e de Piracicaba e do Piracicamirim. Os grandes pioneiros da indústria – Krahenbuhl, Diehl, Kiehl, Dedini, Morganti, Ometto, Romano, Teixeira Mendes – estes entenderam a fidalguia dos construtores de uma terra de cultura, de dignidade, de decência, de trabalho, um lugar de viver e de construir família e de cultuar e cultivar ideais.

A primeira lição de fidalguia é-nos, em Piracicaba, a memória de Prudente de Moraes, o primeiro presidente civil da República, o homem que é o referencial ético deste Brasil que fala em ética sem saber de seu imenso patrimônio moral. Prudente de Moraes foi consagrado, por Joaquim Nabuco, como o símbolo da honradez republicana, o “Santo Varão da República”. Mas, nos tempos de dirigentes apenas pragmáticos, o Prudente de Moraes que acolheu o Metodismo, que forjou a Educação, que implantou a Moral republicana, que é a síntese da dignidade brasileira – essa fidalguia é propositalmente esquecida.Mas é a primeira grande lição de fidalguia que, em nossa nova fase, A Província manterá viva em favor de Piracicaba.

Um jornal fidalgo, eis o lema que devemos ao Beto Rodrigues e a seus companheiros. Lá, na Unimep, ficou plantada essa fidalguia de Prudente de Moraes, na luta de Martha Watts, que gente medíocre não entendeu ou da qual ainda foge, pois a dignidade amedronta. Voltaremos.

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