Escola de fidalguia (2)

Construir um local para acolher a biblioteca pública municipal de Piracicaba é um dever que atravessa décadas de desleixo administrativo. Aparentemente, o fato de a atual administração anunciar a construção de um espaço para a Biblioteca pode soar como meritório. E é, se considerado o menosprezo de outros. Mas perde muito de sua importância se a realidade fosse posta a nu, à informação pública, revelando contextos, história e responsabilidade. O local da “nova biblioteca” é, na verdade, a prioridade maior destinada à construção do Memorial da República e a Prudente de Moraes, do qual a Biblioteca seria um valioso anexo, rico instrumento de cultura e de interesse nacionais.

Ora, foi o prefeito Ricardo Ferraz de Arruda Pinto – interventor municipal nomeado pelo então interventor estadual Adhemar de Barros – quem, no longínquo 1939, criou e instalou a biblioteca municipal de Piracicaba, que seria a primeira de todo o interior de São Paulo. O primeiro diretor foi o inesquecível Leandro Guerrini, um dos símbolos da fidalguia piracicabana. A biblioteca começou numa sala da Câmara Municipal, com apenas 837 livros, passando a funcionar no andar superior do também saudoso Teatro Santo Estevão. Inicialmente denominada “Biblioteca Municipal Adhemar de Barros”, justiça foi feita, quando se lhe deu o nome de Ricardo Ferraz de Arruda Pinto.

O prefeito atual – que foi intelectual respeitado na área de economia, sendo considerado um acadêmico, mas optando pelo universo nebuloso da política – rouba, a Piracicaba, uma excepcional e por assim dizer única oportunidade de se transformar na Meca do Republicanismo brasileiro, pois a obra mais notável seria a construção do Memorial a Prudente de Moraes, com a biblioteca sendo parte do conjunto, conforme obra que João Chaddad conhece, sabe, embora, nos últimos tempos, o mesmo João Chaddad ande esquecido de que Piracicaba é muito mais e vai muito além de pontes, de rotatórias, de festivais de semáforos, de prioridade a veículos.

A criação do Memorial a Prudente de Moraes contou com a participação de reitores da Unicamp, da Usp, da Unimep, do Ministério da Educação, da Secretária de Educação paulista, tornando-se, mais do que um sonho, um privilégio para Piracicaba, onde repousa o Pacificador da República, fonte inesgotável de decência política e de memória ética. O Memorial de Prudente de Moraes transformará Piracicaba num dos centros fundamentais da memória republicana brasileira, cidade e lugar de visitação obrigatória a estudantes, historiadores, pesquisadores. Infelizmente, porém, os tempos de velocidade e de voracidade política não abrigam a fidalguia do espírito de uma Piracicaba pioneira em cultura, exemplar em dignidade de uma anterior vida política.

Em seu livro de memórias, Juscelino Kubistchek fez questão de anotar, quando sobrevoava Piracicaba, a sua admiração e seu desejo oculto: ele gostaria de, como Prudente de Moraes, “ser sepultado na terra em que vivi.” Para entender de memória, no entanto, é preciso que pessoas tenham respeito pela sua própria memória. Quase sempre, ocorre que o desprezo memorialístico é uma fuga para tentar esquecer a própria história pessoal. Os povos não podem viver a partir de medocridades pessoais. Os povos precisam se inspirar em seus grandes vultos e reverenciar a memória dos que são suas balizas morais.

Não se diga ser insignificante construir o prédio da biblioteca, que é iniciativa meritória considerando os antecedentes. Mas despreza-se a oportunidade de realizar o maior, o mais amplo, o mais abrangente, o mais fidalgo: o Memorial a Prudente de Moraes. Alegar falta de recursos para tanto seria, ainda outra vez, mistificar a população. Há rotatórias, pontes, estacionamentos públicos e até banheiros públicos infinitamente secundários diante da importância cívica, cultural e histórica de um fidalgo Memorial a Prudente de Moraes, o Memorial da República. Acadêmicos sérios sabem avaliar essa dimensão.

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