Jornalismo e Direito

Viver muito complica as coisas. De alguma maneira – sinto-o, pelo menos por mim – é como se se perdesse a noção do tempo, confundindo o ontem com o hoje, tendo consciência de rupturas das quais, no entanto, não se sabe o início, o quando e o onde. Assemelha-se ao filme já assistido, cujo final se conhece, que, porém, desvela cenas antes não percebidas.

Se me perguntarem – e há quem já mo pergunte – o que está acontecendo com o jornalismo no Brasil, confesso-me constrangido de responder. Pois estou também perplexo, não sabendo se é real o que percebo, se são apenas impressões, se morreu o que existia ontem, se apenas está desmaiado à espera de um redespertar. O que é jornalismo hoje? Para mim, continua o de sempre, o da escola jornalística que me ensinou: serviço à população, algo missionário e com forte vocação sacerdotal. É busca permanente da verdade, da justiça, do bem público. Sem imprensa verdadeira não há povos livres. E acentuo: imprensa verdadeira. Porque, agora, se insiste em se falar em imprensa livre, sem, no entanto, definir-se o que é essa imprensa. Liberdade sem responsabilidade é mistificação.

A vida toda – e lá se vão, insisto, 56 anos de jornalismo árduo e independente – defendi o direito de a imprensa – refiro-me a veículos impressos – ter a sua própria ideologia, pensamento político, preferências partidárias. Isso, na dimensão da opinião. No mundo realmente civilizado, jornais e revistas declaram seus posicionamentos e, assim, há os de confissão comunista, socialista, capitalista, fascista. Tudo às claras, permitindo, ao leitor, posicionar-se diante das reflexões e opiniões. A parcialidade na opinião tem o significado de tomar posição e ser parte da diversidade de pensamento social. Imparcial é o trato com a notícia, que há de ser absolutamente objetiva, clara, honesta. Divulga-se, com clareza e reta intenção, o que aconteceu. E, então, que se faça o comentário, que se dê opinião, cada qual com seu ponto de vista. Isso é jornalismo. Ou era. Ou deveria voltar a ser.

O Brasil assiste, há algumas décadas, a um verdadeiro bloco monolítico de opinião jornalística. Não há divergências, nem contraditório. É como se quase todos se tivessem unido, em cruzada escandalosa, em torno de um mesmo objetivo que se revela, cada vez mais, mercantilista. Os chamados poderes político, ideológico e econômico se uniram. E o povo não faz parte disso. Pelo contrário, o povo é propositalmente massacrado pela má informação, que é mais danosa do que a desinformação.

A maneira como quase todos os veículos estão conduzindo o julgamento, pelo STF, do escândalo a que se deu o nome de mensalão – essa conduta é, em meu entender, pérfida. Começa pela adjetivação tendenciosa: mensalão. Isso faz supor uma corrupção mensal e continuada, o que não houve. Houve corrupção e ainda há, em todos os níveis. Mas parece que a única existente é a que a própria imprensa denominou de lulo-petismo. Por quê? Por que se poupam caciques do tucanato, do DEM e, agora, também desse já velho PSD? Quais os critérios e medidas? Por que o silêncio seletivo de jornais e revistas, em todo o país, também em Piracicaba?

O atual jornalismo pretende ser, ao mesmo tempo, detetive, promotor, juiz de primeira à última instância, fazer julgamentos próprios e definitivos, escolhendo quem deve ser réu para se tornar culpado. Agora, se dá à pretensão de confrontar os votos da mais alta corte de Justiça do Brasil. Jornais se tornam universidades especializadas em Direito; jornalistas passaram a ser mestres e doutores em leis, legislações, filosofia e ciência do Direito. Perderam o senso de limites e de ridículo. A ciência do Direito é, na área de humanidades, uma das mais complexas, intrincadas, difíceis e quase impenetrável em suas filigranas. O juiz verdadeiramente honesto não discute e nem julga por suposições, mas pelo que consta dos autos. Não adianta a pressão jornalística, nem a pressão popular. Um simples erro processual pode anular um processo aparentemente definido.

A toda poderosa imprensa brasileira – com honrosíssimas exceções – dá-se, agora, também o poder de julgar o próprio Supremo Tribunal Federal. É como um filhinho de papai rico que acredita ter o direito a tudo. Quando isso acontece, não são juízes e desembargadores que são desrespeitados. É a instituição jurídica que balança. É a ordem jurídica nacional que se põe em risco. E uma nação nada mais é do que um povo e um país jurídica e constitucionalmente constituídos.

Parece que Assis Chateaubriand – o grande aventureiro da imprensa brasileira – reencarnou.

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