Rua-Mãe ou Rua trivial

A Rua do Porto é, na verdade, o espaço que margeia o rio Piracicaba desde a Casa do Povoador até o final das antigas casinhas de pescadores, tendo como monumentos remanescentes as chaminés da antiga olaria do dentista Elias Cecílio. O Parque da Rua do Porto é uma extensão e complementação da rua, sendo a avenida Alidor Pecorari o trecho criado como passagem à Avenida Paulo de Moraes e adjacências. O Parque foi desenvolvido na administração João Herrmann Neto, num ousado e inteligente aproveitamento de um lugar fundamentalmente histórico como área de lazer, entretenimento, cultura e gastronomia. Com Adilson Maluf, criou-se o Centro Cívico, que exigiu outras vias de acesso. Com José Machado, deu-se início à fase – colocada em ponto morto por Barjas Negri e agora reanimada – de revitalização e reurbanização do local.

Esse preâmbulo é, apenas, para levantar a questão que nos parece fundamental e que não vemos esteja sendo dimensionada por autoridades e entidades envolvidas na busca de soluções. É simples e teria que ser objetiva: o que é a Rua do Porto, afinal de contas, para Piracicaba? Qual o seu significado, qual a sua importância, qual a sua relevância para a história e para a vida da Cidade? Ou a Rua do Porto tem significação privilegiada como marco histórico, como umbigo e pia batismal de nossa terra – ou é, apenas, uma rua interessante com algumas possibilidades turísticas. A partir da definição e do entendimento que se tenha dessa rua é que se haverá de equacionar soluções e projetos.

A Rua do Porto é a Rua-Mãe de Piracicaba, com o proporcional peso histórico que o Pátio do Colégio tem em relação à cidade de São Paulo, para fazermos uma superficial correlação. E, se é Rua-Mãe, não pode ser tratada como lugar trivial, rua de passagem de um para outro local, rua de interesses apenas comerciais ou apenas gastronômicos. Rua-Mãe é um estado de espírito, um berço histórico, ponto de referência. E isso, desgraçadamente, não está sendo entendido e considerado em sua verdadeira dimensão por certa parte das pessoas e entidades envolvidas, cujo olhar se estende para questões banais de uma rua ou de uma área quaisquer.

Por abandono, descaso e ignorância cívica a Rua do Porto ficou ameaçada de ser tomada por traficantes, por marginais, pela prostituição. Desde alguns anos, denunciamos o espetáculo deprimente da prostituição profissionalizada naquela área, de homens, mulheres. Houve autoridades que minimizaram a questão, como se se tratasse de um direito de ir-e-vir. Prostituição, drogas, tráfico, crimes são componentes de um mesmo cenário sombrio que nada tem a ver com um lugar que, por ser patrimônio histórico e cívico, tem

Na última quarta-feira, novamente reuniram-se representantes da Prefeitura, Câmara de Vereadores e entidades, além de empresas de segurança. Idéias, sugestões, propostas, novos projetos, de novo se repetem conversas e delongas. Falta a definição. E é isso que temos tentado dizer, na vã esperança de tocar a sensibilidade dos nossos pragmáticos homens públicos, quase todos com visão prática neoliberal: a Rua-Mãe de Piracicaba tem que ser tratada como um berço, uma pia batismal, lugar sagrado. E, portanto, com uma legislação especial, que impeça um patrimônio coletivo de história e cultura seja tratado ora como trivialidade qualquer, ora como antro de marginalidade.

Rua-Mãe ou rua qualquer? Eis a questão.

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