Quando Zé Galinha quase virou mártir

Foto: José Branco/Olhares

Engana-se quem – bombardeado por tanto noticiário sobre mensalão – pensa fosse, a política de ontem, feita de idoneidades e honestidades. Havia de tudo. De coronéis a compradores de votos; de safados a negocistas. Havia, no entanto – e aí deve estar a diferença – uma quantidade maior de homens íntegros e de políticos com vocação de serviço.

Mas as malandragens eram notórias. Em 1969, uma das mais acirradas campanhas políticas para prefeito aconteceu entre duas fortes lideranças locais: Salgot Castillon e João Guidotti. Este – também um líder, mas com atuação mais de bastidores – fora lançado candidato na esteira da comoção causada pela morte de seu irmão, o quase idolatrado Luciano Guidotti. João seria o continuador de Luciano, pregava-se. João era a memória de Luciano, anunciava-se. E Salgot Castillon, assumidamente populista, era incensado pelas classes mais pobres, por moradores da periferia e da então ainda bem povoada zona rural.

Alberto Coury – coordenador da campanha de Salgot – encomendara uma pesquisa eleitoral a um instituto que hoje se tornou famosíssimo. Mas eram duas pesquisas: uma, verdadeira, para uso na campanha eleitoral; outra, forçada, dando vitória de Salgot, para ser publicada pela imprensa. A pesquisa verdadeira, no entanto, mostrava uma boa vantagem de João Guidotti na zona central da cidade, o que podia ser decisivo nas eleições.

Foi quando Geraldo Bastos – outro líder, também na direção da campanha, um gênio político – teve a idéia dramática e maldosa: “Vamos usar o Zé Galinha uns três dias antes das eleições.” Zé Galinha era um moço queridíssimo pelas famílias piracicabanas, rapaz com problemas mentais sérios, amável mas com distúrbios que, às vezes, o levavam à violência. Zé Galinha era o xodó da população, tal a sua fragilidade e humildade. O plano de Geraldo Bastos era simples: provocar Zé Galinha, dizendo que João Guidotti o xingara, que João Guidotti estava falando mal dele, mentiras puras. Com isso, irritado e furioso Zé Galinha iria tirar satisfações com João Guidotti e este, um homem hormonal e dado a violências, acabaria agredindo Zé Galinha. Providencialmente, um fotógrafo estaria próximo da agressão, fotografaria e a violência contra Zé Galinha sairia nos jornais. Até a manchete estava programada: “João Guidotti agride Zé Galinha. E ainda quer governar Piracicaba?”

Tudo estava programado e arquitetado por Geraldo Bastos, com a anuência de Alberto Coury. Foi quando, quase às vésperas da armação e da farsa cruel, Salgot Castillon apareceu no comitê e soube dos planos. Furioso, reagiu, não admitindo que aquilo acontecesse, que era uma sujeira, uma deslealdade. Alberto Coury ainda argumentou: “Se Zé Galinha não apanhar você vai perder a eleição.” Salgot brigou com todo o mundo, impediu que o plano de Geraldo Bastos fosse realizado e que Zé Galinha, dessa forma, se transformasse num mártir político.

Salgot resolveu a situação a seu modo: sumiu durante dois dias nos quais subiu a rua Morais Barros de baixo a alto, visitando casa por casa. E desceu a rua 15 de Novembro, também de alto a baixo, casa por casa, tomando café, conversando, beijando crianças e furando a sola do sapato. E ganhou as eleições. Meses depois, porém, seria cassado pelos militares, ele que era presidente da ARENA.

 

 

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