Ripolianas (2)

Conheci Romeu Ítalo Rípoli aos meus 21 anos, em meio a ódios políticos da Piracicaba de então. Foi em 1961. E, levado por vendavais e furacões, vi-me, por sugestão do jornalista Luiz Thomazzi, transformado em diretor da “Folha de Piracicaba”, tido, então, como “jornal dos comendadores”. Era paradoxal: um jovem comunista no jornal da alta burguesia. E Rípoli, na liderança de uma UDN que tinha Salgot Castillon como líder populista. Os conflitos entre os grupos eram irreparáveis.

Os irmãos Rípoli, Romeu e Libero, mais do que conflitos, viviam paixões dostoievskianas. Fui amigo do Líbero, antes de sê-lo do Romeu. Era mais um na linha fronteiriça entre a genialidade e a loucura. Romeu e Líbero foram os nossos Irmãos Karamasov, odiando-se e amando-se extremadamente. E, apesar das graves diferenças políticas, as perseguições dos militares acabaram unindo-nos. Rípoli, líder revolucionário, foi amargamente injustiçado. O golpe militar, em Piracicaba, era apenas paroquial. Inimigos vingando-se de inimigos. Rípoli denunciou a corrupção na Câmara Municipal. O tiro saiu-lhe pela culatra: de acusador passou a denunciado. Foi perseguido, processado para, no final, receber como que um diploma de honestidade: o General Rubens Restell, em carta oficial, declarava-o inocente de qualquer suspeita em relação ao Imposto de Renda.

Mas o golpe moral fora grave. Rípoli entrou em depressão profunda. Não havia quem o tirasse da cama. Emagrecia a ponto de assustar amigos e familiares. Amigos ficávamos à sua cabeceira, Raul Coury, Telmo Otero, Tone Kraide, Luiz Cunha, entre outros. E, de repente, Romeu, que se dizia ateu e materialista, entregou-se a um fervor religioso quase doentio. Buscou leituras deprimentes, escatológicas, que propunham o “contemptu mundi”, o desprezo pelo mundo, ou a “fuga mundi”, a fuga do mundo. Rípoli, amante da vida, parecia um monge trapista.

Certo dia, ele apareceu no “Diário” e me presenteou com o livro “Confissões”, de Santo Agostinho, quase ensebado. Pensei tivesse, ele, finalmente enlouquecido. E mais me convenci quando, do bolso do paletó amarfanhado, tirou um livro famoso e também terrível pela apologia ao desprezo pelo mundo: “Imitação de Cristo”, atribuído ao místico alemão Thomas a Kempis. Até pelo menos os anos 1960, era uma das obras mais vezes impressas no mundo. Entre coisas, das que me lembro, Kempis dizia: “Quem se conhece bem se despreza. A ciência mais alta é o conhecimento exato e o desprezo de si mesmo.” Era tudo o que Rípoli precisava para se matar… Mas sobreviveu.

Devo ter-me entristecido por o Rípoli sobreviver. Pois ele infernizou-me a vida. Telefonava-me às 5 horas da manhã, mesmo sabendo que eu ia dormir às 4. Ficava na redação com seu cigarro de palha fedorento, queimando sofás, carpetes, a própria camisa. Pela manhã, ele ia à pastelaria do Mário Japonês, comprava três pastéis: um, comia-o pelas ruas, sujando todo o rosto. E os outros dois, ele os guardava nos bolsos do paletó. Para comê-los em minha sala, jogando as migalhas no chão. As faxineiras queriam matá-lo. E eu, também.

Certa manhã, percebi o Rípoli sarando. Tínhamos uma funcionária muito bonita. Ele chegou e deu-lhe uma flor. Cochichou-lhe coisas, a moça sorriu. Dias depois, ressurgiu barbeado, camisa nova, cheiroso. E sem a “Imitação de Cristo”. Desistira do “contemptu mundi”, de desprezá-lo. Voltara renascido, com fome de velho lobo, o Rípoli de sempre.

*A série com o título Ripolianas é republicada para constar dos arquivos de A Provincia.com

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