“Ripolândia”: última zona de verdade (1)

A reportagem que segue, em três partes, foi editada do Semanário A PROVÍNCIA, edição de 1988.

O texto abaixo, de autoria de Cecílio Elias Netto, serve como introdução para toda a história que será contada.

“Ripolândia”, lugar boêmio, um nome nascido de ódios

Por Cecílio Elias Netto

Esta reportagem pretende ser não apenas uma rememoração de um lugar boêmio que está, definitivamente, incorporado à história da cidade, como, também, fazer um registro de algumas confusões que ainda permanecem com foros de verdade.

Romeu Rípoli (acervo A Província)

Os tempos eram outros, e não há como entender a “Ripolândia” fora daquela realidade social: as zonas de meretrício não eram apenas um lugar de exercício da sexualidade, mas um espaço boêmio, de diversão, de alegria, de encontro de amigos. E, também, eram lugares estreitamente vinculados ao poder político – já que, sendo apenas “toleradas” – aquelas casas necessitavam de proteção, de cobertura, de auxílio de pessoas influentes – os políticos, num tempo de “coronelismo” político. O homem comum, os frequentadores, os moços nem sempre tinham consciência dos envolvimentos políticos em zonas de meretrício, mas existiam e eram grandes – como, hoje, por exemplo, ocorre com o jogo-do-bicho. Ruth Mansur, a verdadeira “Rainha da Zona”, foi mulher com grande influência política, que ela exercia de forma indireta.

Ainda criam-se fábulas e fantasias em torno do “fechamento” da zona do meretrício no ex-Jardim Brasil, a “Ripolândia”. Mas a realidade foi apenas uma: foi este jornalista, na época proprietário e diretor de”O Diário”, quem desencadeou a campanha pelo seu “fechamento”, mobilizando entidades e poderes constituídos, com a participação de assistentes-sociais, clérigos psicólogos. E por quê? A razão era apenas uma: a “zona do meretrício”, nos anos 70 – quando a liberação sexual já se tornara realidade em todo o mundo, uma nova realidade surgia em relação a costumes e comportamentos, incluindo os contraconceptivos – a “zona” se tornara um cancro social, com o início do tráfico de drogas e de entorpecentes. Ruth Mansur deixara de ser a “rainha da zona”, para tornar-se vítima dos tóxicos e instrumentos de traficantes. Uma figura tétrica surgia em Piracicaba: o investigador Lazinho, discípulo do famigerado Delegado Fleury. Homem corajoso, mas comprometido, Lazinho fez, de sua bandeira anti-tóxico, um motivo para tornar-se homem que comandava aquele mercado. E as prostitutas eram instrumento de sua sanha. Chegava ao fim uma época em que zona era o local da boêmia. Iniciavam-se os tempos da violência e das drogas.

Este é um aspecto, que deixamos como registro. O outro é o nome “Ripolândia”, que se ligou a Romeu Ítalo Rípoli, um homem de múltiplas atividades sociais, políticas, esportivas em Piracicaba, controvertido e polêmico.

Romeu Rípoli era um homem avançado para o seu tempo, um visionário. E um grande amante, cujos “casos” repercutiam no silêncio da cidade pequena. Empreendedor, Rípoli iniciou negócio imobiliário e empreendimentos audaciosos, como a Cidade Jardim, obra sua, num tempo em que aquele local era um imenso matagal. E Rípoli, juntamente com Ari Coelho, idealizou o “Jardim Brasil”, num dos locais mais bonitos e aprazíveis de Piracicaba, acreditando em moradias mais econômicas. Dividiram entre si os lotes. Estava construída a primeira casa do Jardim Brasil. Uma delas foi vendida a Ditinha Penezzi e Ditinha, num negócio imobiliário qualquer, vendeu-a para Yvonne Mansur, a “Ruth” que instalou lá a nova zona do meretrício, com requinte.

Por que “Ripolândia”? Esse nome, quem o deu, foi outro empresário e político, João Guidotti. Rípoli e João eram amigos e sócios, fundadores da Sobratel, a primeira repetidora de televisão do interior de São Paulo. Mas os negócios os separaram, tornando-os inimigos irreconciliáveis, e isso prosseguiu até o fim da vida deles, num clima permanente de ódios e de rancores. E ambos ingressaram na política, cada qual seguindo uma vertente. Ora, Rípoli era conhecido por seus amores que repercutiam num tempo em que amores clandestinos existiam, mas ocultos pelo sigilo das hipocrisias. Então, assim que se criou a zona do meretrício, em terras que Romeu Rípoli loteara, João Guidotti fulminou e o veneno pegou: “É a Ripolândia”. O nome ficou, como um símbolo negativo. E ficou, agora como saudade de um lugar e de um tempo, onde e quando a boêmia era mais risonha e franca.

*CONTINUA

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