A Igreja Metodista no Brasil entre Bento XVI e o G-12

O Papa Bento XVI, como era de se esperar, continua aprontando das suas. Claro que por detrás da nota do Santo Ofício está não o dedo mas toda a mão de Bento XVI. O que mais me impressionou nesta última não foi a declaração da Igreja de Roma como a única verdadeira Igreja, mas sim de publicamente manifestar seu ódio contra Leonardo Boff, único teólogo católico contemporâneo que tem explicitamente citada no documento uma obra sua – Igreja, Carisma e Poder. Caramba, o cara não perdoa o Boff de verdade e de jeito nenhum!

Mas, deixando de lado a falta de amor (como se isso fosse possível a um cristão ou cristã), quanto ao conteúdo da mensagem, nada de novo no quartel de Abrantes, isto é, no Vaticano. Só explicita o que já está dito nos documentos eclesiológicos do Vaticano II. E nisso a nota está cem por cento correta. Somente quem não leu tais documentos estranha o conteúdo da mensagem, que aliás o Cardeal Ratzinger já em 2000 tinha exposto na sua Dominus Iesus. Nas minhas aulas de ecumenismo quando trato do Vaticano II e o ecumenismo peço aos alunos e alunas para lerem a Lumen Gentium e a Unitatis Redintegratio e identificarem o que que mudou e o que não mudou na eclesiologia católica no Vaticano II. E aí fica claro que a Igreja de Roma no Vaticano II não abriu mão de ser a única Igreja onde subsiste a verdadeira Igreja de Cristo.

O problema não é o conteúdo mas o contexto em que a mensagem é publicada. E aí que a coisa pega. É claro que o que está em jogo é a perda de poder que o catolicismo e todas as demais “mainline churches” estão sofrendo pelo mundo afora, inclusive a Metodista, com perda de membros e/ou de influência na sociedade, que é o caso daquelas que estão crescendo numericamente mas não conseguem conviver com o avanço dos direitos humanos individuais e sociais, como no caso das fundamentalistas e neo-pentecostais. É a luta contra a modernidade e a pós-modernidade. A luta contra a possibilidade de se suspeitar das verdades de cada uma dessas igrejas jura ser a revelação positiva da única verdade divina. Mas também para nós na América Latina, a mensagem tem de ser considerada no contexto da Conferência Episcopal de Aparecida onde fica claro o buraco que o pentecostalismo em suas diferentes versões tem aberto na Cristandade Católico-Romana da América Latina. Com as decisões de Aparecida é claro que o Catolicismo Romano Latino-Americano está pretendendo entrar para valer na competição pela clientela do mercado de bens religiosos e disputar com outras religiões, particularmente com o pentecostalismo, a parte que pensa lhe caber neste latifúndio religioso. Daí negar a eclesialidade de todas as demais Igrejas não Romanas, e, especialmente, as pentecostais. Ora, qualquer movimento ecumênico sério nos dias de hoje não pode deixar de reconhecer a legimitade eclesial de grande parte das Igrejas Pentecostais, mesmo que muitas vezes se venha discordar de suas práticas e doutrinas. Mas não, para estancar minha hemorragia, sangro o meu próximo! Aí é cada um por si e salve-se quem puder! Farinha pouca, meu pirão primeiro! Homessa, diria o Eça, eitcha lógica besta!

Sou ecumênico e continuarei a ser ecumênico não por causa disto ou daquilo que essa ou aquela Igreja diz ou deixa de dizer, faz ou deixa de fazer, principalmente do que a minha ou a Igreja de Roma pensa ou deixa de pensar! Sou ecumênico e continuarei ecumênico porque creio que esta é a vontade de Jesus Cristo expressa no Evangelho, e, no meu caso de metodista, porque o fundador da “minha seita”, John Wesley, foi um homem de espírito católico, que sem abrir mão de suas profundas experiências e convicções teológicas que animaram todo o seu ministério de evangelista e avivalista, pensou e deixou os outros pensarem, ao ponto de discordando das doutrinas e práticas da Igreja de Roma, criticando-as radicalmente em diversos de seus escritos ao longo de seu ministério, no final de sua vida, no sermão “Sobre a Igreja” não ousar negar a eclesialidade da Igreja de Roma e excluí-la da Igreja Católica (Universal) de Cristo! Por isso, creio que não se pode nuncar esquecer que acima de tudo o Evangelho do Reino de uma nova vida foi vivido e proclamado por Jesus no meio dos pobres, dos doentes, dos endemoniados, dos herejes, dos réprobos, dos excluídos, das prostitutas e publicanos, marginalizados pela sociedade e religião de sua época.

Portanto, em fidelidade ao Evangelho e ao Metodismo Histórico, sou e continuarei sendo ecumênico! E não adianta os irmãos e irmãs anti-ecumênicas metodistas ficarem a bater palmas por causa da farrapada anti-ecumênica de Bento XVI e a pensar que agora se pode na Igreja Metodista “lançar uma pá de cal sobre os remanescentes amantes da Igreja Católica e do ecumenismo”. Respeitando e defendendo veementemente o direito de termos opiniões diferentes sobre assuntos de doutrina e prática, creio que não é assim que vamos no espírito de Cristo resolver nossas diferenças. Se repugnamos veentemente o Santo Oficio Romano, com muita mais razão devemos repugnar o Santo Ofício Metodista, pois não foi caça às bruxas, de um lado ou de outro, que o Concílio Geral decidiu!

Ao mesmo tempo, contudo, o respeito à diferença não significa indiferença frente a doutrinas que ferem o metodismo histórico como é o caso do cripto-movimento G-12 crescente em diferentes regiões da Igreja Metodista brasileira, que, como se escondendo por detrás da prática wesleyana de pequenos grupos, acaba por instituir dentro de muitas igrejas locais uma eclesiologia da igreja em células “dentro da visão” e subordinadas e condicionadas às experiências desenvolvidas nos encontros com Deus, fora do ambiente da igreja local, mas que acabam por impor sua lógica à vida de nossas igrejas locais. Lideranças são marginalizadas e excluídas porque, por razão de consciência e fidelidade à proposta de uma igreja inclusiva de dons e ministérios, não aceitam submeter-se a tal lógica. O argumento de que o modelo de igrejas em células faz a Igreja crescer numericamente é frequentemente ouvido e justifica.

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