O Papa, aborto e pedofilia.

PapaParece-me que a única explicação para a manifestação do Papa Bento XVI – a respeito das eleições brasileiras, referindo-se a aborto – é a de que o líder espiritual dos católicos esteja indignado com as cenas da sra. Mônica Serra carregando a imagem de Nossa Senhora Aparecida. Pois, sendo ré confessa da prática de aborto, a sra. Mônica Serra cometeu verdadeiro atentado ao pudor ao usar o símbolo da maior devoção dos brasileiros para campanha eleitoral.

Talvez, pois, Sua Santidade – em referência às cenas de Mônica Serra com a imagem da Virgem Aparecida – tenha chegado ao limite de sua tolerância: “Que os bispos não permitam esse acinte, essa exploração da fé, que impeçam a promiscuidade entre religião católica e aborto.” Completando, em recado subliminar, no código que os eclesiásticos entendem: “Ré confessa de aborto, dona Mônica não merece ser pretendente a primeira dama do Brasil.” Talvez, seja isso, pois qualquer outra explicação seria no sentido de admitir uma insuportável ingerência oficial da Santa Sé na política interna do Brasil e em nossa soberania.

Ora, o povo, em sua imensa sabedoria, sabe que “em casa de enforcado, não se fala de corda”. E nenhum outro Papa se viu às voltas com tantos escândalos e crimes sexuais como Bento XVI. A Igreja Católica, em todo o mundo, está manchada, atingida, marcada por ignominiosos crimes de pedofilia, tendo vitimado milhares de inocentes, pagando-lhes indenizações milionárias que jamais irão aliviar dores, sofrimentos e traumas. Quem tem telhado de vidro não atira pedras no do vizinho. E a Igreja Católica – de cuja autoridade moral ninguém duvida, ainda que as decepções se avolumem em progressão geométrica – tem muitas contas a prestar, especialmente quando deixa de se dirigir ao seu público alvo, os católicos, para tentar universalizar sua pregação moral.

Se Hugo Chaves, com seu sonho bolivariano, ou se Fidel Castro, com seu ideal comunista, ordenassem a seus representantes, no Brasil, que se manifestassem, em nome de seus projetos de vida, na ordem política brasileira, toda a imprensa e a instituição democrática iriam se rebelar contra o que seria uma intromissão indébita. Por que, com o Papa, deveria ser diferente? Sua Santidade é, para os católicos, infalível em questões de moral e de fé. No entanto, até isso não passa de pretensão ou de recurso dogmático de poder. Pois são cada vez mais constantes as confissões de erros, de equívocos, de faltas e de falhas cometidos pela Igreja Católica, que se tornou, desde João Paulo II, verdadeira especialista em pedir desculpas. Pode-se aguardar que, dentro de mais algum tempo, a Igreja irá rever sua obsessão em relação à camisinha. Ora, é mais pecador quem usa camisinha e não propaga a AIDS, ou quem a propaga por obedecer Sua Santidade e não usá-la?

A Igreja Católica tem o dever de dar uma pausa nessa pregação moralista enquanto não resolver-se em seus problemas internos. Ou haverá quem veja muita diferença, de ordem moral e legal, entre os delitos de aborto e de pedofilia? Um pedófilo mata moralmente crianças em formação. O aborto, como o da sra. José Serra, mata o feto. De um lado, entre padres, há um infanticídio moral. Do lado das aborteiras, há um feticídio. A diferença está em questões ontológicas, que podem se tornar bizantinas.

Em dois mil anos de existência – com imensos e extraordinários serviços prestados á humanidade, sendo um patrimônio moral e cultural inavaliável – a Igreja Católica já aprendeu que seus vínculos com o poder secular são deletérios para si mesma. Passou a época de seu pacto com reis e príncipes, com ducados e reinados. O Vaticano, para ser respeitado universalmente e por todos as instituições seculares, tem que se portar como Estado que é. E um Estado, pelas leis internacionais da civilização, não tem o direito de interferir em outro Estado. Se, por orientação do Papa, bispos e padres insistirem nessa ingerência indébita, deveriam ser indiciados, julgados e penalizados pela Justiça civil. A questão é da mais alta e séria diplomacia, das relações entre Estados e não, apenas, questões de fé ou de moral, nas quais, aliás, a Igreja não tem sido, não, infalível.

Os Papas podem continuar sonhando com o grande projeto de “um só rebanho para um só pastor”. Mas ele não vale para os não católicos ou para países que tenham consciência de sua dignidade internacional no conserto secular e democrático das nações. Acreditar nesse sonho imperial ou é arrogância demais ou delírio com traços patológicos.

Mais dignificante seria se Sua Santidade, já em idade avançada, cuidasse da eleição de seu sucessor providenciando para que, no colégio eleitoral cardinalício, não participassem cardeais pedófilos ou que lavam dinheiro em operações financeiras mal esclarecidas. E bom dia.

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