A Piracicaba de Walter de Francisco

“Eu era ainda criança, dos meus 10, 12 anos, quando as boiadas que chegavam à Estação da Paulista desciam a rua do Rosário, viravam na XV de Novembro indo até a rua do Porto, para serem levados até o matadouro. A população se acostumava e, ao primeiro grito de ‘olha a boiada’, as mães corriam para tirar as crianças menores da rua”.

Lembranças como essa povoam a memória de Walter de Francisco, um piracicabano que nunca se afastou por muito tempo de sua cidade. E, sendo dos tempos do bonde, também ele não poderia deixar de mencioná-lo ao falar da forma de transporte então utilizada.

“Quando fiz o Tiro de Guerra, tomava o bonde às 5:30 horas da manhã. As atividades aconteciam no Isolamento, uma área próxima da ESALQ, onde havia uma casa cercada por eucaliptos. Nesse horário, o bonde estava sempre cheio de atiradores que vinham do centro da cidade. Quando chovia, embora houvesse as cortinas de lonas que eram abaixadas, todo mundo acabava molhado”, rememora ele.

O menino, que cresceu na década de 40, tem, entretanto, como mais fortes lembranças, a Piracicaba tranqüila, onde ninguém ainda se preocupava com segurança nem se convivia com o medo.

“Meu pai era revisor do Jornal de Piracicaba e chegava em casa apenas de madrugada, 3 ou 4 horas. A porta adormecia aberta, à sua espera. Tínhamos apenas uma grande chave, que nunca se tirava do trinco, mas também poucas vezes era usada”.

De violência, ele só se lembra, mesmo, de um bandido chamado “Sete Dedos” que, sendo trazido para o Fórum (que ficava na Rua do Rosário), tentou fugir. “Eu era garoto, mas ainda me lembro das pessoas em volta do bandido baleado na perna, perdendo sangue. Foi a maneira usada pela polícia para impedir a fuga”.

Mas Walter também se lembra dos muitos “campinhos” de futebol, em áreas hoje transformadas em jardins – como em frente ao SENAI – ou em escolas – onde hoje se encontra a EEPG Honorato Faustino.

“Nos domingos pela manhã, toda a molecada saía pelas ruas para ir para algum campo, jogar uma pelada. E as torcidas acompanhavam os times dos bairros. Eu jogava no campo da União Porto, próximo à rua do Porto, como médio volante”.

Ele também é do tempo em que viagem era realmente uma aventura. “Ir para São Paulo não demorava menos que quatro horas, de trem. Lembro ainda da estrada de terra, até Tupi, Santa Bárbara, Americana. Os horários eram poucos. Como eu estudava à noite, em Campinas, a opção era mesmo pegar o trem das 17:40 horas, gastar duas até lá e, para voltar, tentar fazer parar o ônibus que vinha de São Paulo e passava pelo bairro Bonfim, para nos trazer de volta”.

Resultado: Walter não terminou o curso de Matemática, que iniciou na PUC-Campinas. Eram outros tempos, que se viviam em outra velocidade e poucas felicidades.

*-Walter de Francisco nasceu em Piracicaba, em 1938. Estudou no Colégio Sud Menucci e no Colégio Piracicabano, onde concluiu o curso ginasial e normal. Como professor, iniciou sua vida profissional junto ao SENAI em Piracicaba, ministrando aulas de Matemática, e, logo após, junto ao curso ginasial noturno do Colégio Piracicabano. Foi, ainda, docente da Academia da Força Aérea, em Pirassununga, durante três anos.

Sua vida profissional esteve sempre muito ligada ao Instituto Educacional Piracicabano e à UNIMEP. Foi professor dos primeiros cursos da Faculdade de Economia, Contabilidade e Administração de Empresas, diretor do Centro de Ciências Exatas e Tecnologia, um dos pioneiros no trabalho de instalação do Campus de Santa Bárbara D’Oeste e do Campus de Lins. Aposentou-se como professorem 1988, quando recebeu o título de “Doutor Por Notório Saber”.

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