João Chiarini, o Mesoclítico – Parte 1

Minha irmã tem de entrar também nesta história. Afinal de contas, foi a Neusa a primeira pessoa que me falou da figura objeto deste depoimento. Eu era criança, quando a ouvi contar que esteve estudando, com outras colegas, na casa de uma delas, cujo nome era Eny e que, em um certo momento, seu irmão passou pelo grupo e, todo pomposo, talvez para esnobar e fazer charme, falou: “Não sei se leio ou ouço música”. Era o João Chiarini.

Ainda criança, também ouvia falar que comunistas se reuniam, nas imediações da minha casa, parece-me que na Rua Marechal Deodoro, para discutir política. E lá também estava o João Chiarini, que diziam ser o chefão da turma. Vários anos passados, e eu já seu amigo, toquei no assunto e ele me disse que lá somente aconteciam reuniões folclóricas, talvez sem ainda imaginar que não estava mentindo. Era uma antevisão: o comunismo, de fato, virou folclore…

No início do anos 60, eu estudava na Escola de Comércio Cristóvão Colombo, que ficava na Praça José Bonifácio e, quase todas as manhãs, o Chiarini circulava pelas imediações. As más línguas diziam que ele ali ficava para ver, discretamente, as belas alunas da escolinha do Zanin. Até que pode ser verdade, porque, durante os intervalos das aulas, todos os rapazes saiam para comer alguma coisa, na Bomboniere do Passarela, e aproveitavam para tentar ver os joelhos das colegas. Era só o que aparecia, quando sentavam nos bancos da praça, usando saias que chegavam às canelas.

Já no final dos anos 60, o José Maria Ferreira e a Maria Lúcia Hilsdorf me convidaram a participar da edição do suplemento Panorama (Artes, Literatura e Educação), a ser publicado no Jornal de Piracicaba. O suplemento mensal fez bastante sucesso, mas não durou muito, por motivos que agora não vêm ao caso. Entretanto, conquistamos vários amigos, pessoas mais velhas e tradicionais, uma delas o João Chiarini. Após nosso primeiro encontro, a nossa amizade durou até a sua morte.

O Chiarini não escondia de ninguém que gostava de mostrar-se culto, incapaz de desconhecer algum assunto, o que fazia com que houvesse quem duvidasse disso. A sua mania de divulgar o grande número de exemplares de livros, da sua biblioteca particular, chegou a ser alvo da ironia do professor Toledo Piza, da ESALQ, o que os tornou inimigos figadais. Em algumas ocasiões ele citava datas e detalhes de acontecimentos importantes, que nos faziam duvidar da precisão. Um desses casos foi quando ele me contou que, em 1927, o Nobel de Literatura Rudyard Kipliping chegou em Piracicaba, via estação da Paulista, descendo a Rua Boa Morte e se hospedando no Palacete Boyes. Em 2006, comprei o livro “Rudyard Kipling – As Cônicas do Brasil” e nele está a informação de que, de fato, o autor esteve mesmo em nosso país, em 1927. Hoje, sabe-se que esteve também hospedado no Palacete Boyes, devidamente documentado.

Um pecado. Atribuem a ele, quando vereador, a autoria do projeto que visava a demolição do Teatro Santo Estevão, que, para dizer a verdade, estava em estado de decomposição. Mas deixou saudade e, hoje, talvez pudesse ser restaurado.

Motorista de pouca quilometragem, certa noite o Chiarini me pediu carona até Santa Bárbara D’Oeste. Fiquei com vergonha de dizer a ele que nunca tinha colocado o fusca na estrada, mas para lá partimos. O Chiarini me contou que havia sido convidado a fazer a abertura do salão de belas artes. Durante a viagem, que durou muito além do previsto, dadas as minhas precauções como motorista de primeira viagem, comentei que a Editora Civilização Brasileira estava lançando uma série de livros com nomes de mulheres nos títulos.

Chegando em Santa Bárbara D’Oeste, após inúmeros pedidos de desculpas, como não podia deixar de ser, os organizadores informaram que já haviam realizado a abertura da exposição, mas deixaram ao Chiarini a indicação dos premiados, o que foi feito, após cuidadosa análise das pinturas.

Fomos, então, convidados a ir ao coreto, que ficava na praça principal, a fim de ouvir algumas músicas, após o que anunciaram que o professor piracicabano João Chiarini iria ser entrevistado pelo serviço de alto-falantes local, que ficava logo ao lado. O locutor declarou-se sãopedrense e perguntou se o Chiarini podia falar alguma coisa sobre o poeta Gustavo Teixeira, também de lá nativo. O palestrante discorreu longamente sobre a vida de Gustavo Teixeira e, eu ao lado, estava achando que talvez houvesse improviso e chutes demais. Foi, então, para minha surpresa, que o Chiarini comentou a conversa que tivemos no carro, durante a viagem, e disse que Gustavo Teixeira também escreveu poesias dedicadas a mulheres e, de memória, recitou algumas delas. Fiquei de queixo caído.

Não havia solenidade importante, em Piracicaba, que dispensasse a presença do João Chiarini, como um dos oradores. Seus discursos eram plenos de adjetivos, pomposos, mesocliseanos e neologísticos, sempre se e nos chamando de caipiracicabano.

Uma ironia. Ao ver passar um funcionário do Banco do Brasil, magro e alto: “Este indivíduo tem andar de logarítimo”.

Ser-lhe-ia injusto parar por aqui, sem uma mesóclise e afirmar que voltarei ao João.

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