Lembranças e tipos inesquecíveis de uma piracicabana

Piracicaba ficou 200 km distante da minha moradia, em S.Paulo – capital, nesses últimos 40 anos. Mas continua absolutamente presente e próxima, em memórias afetivas.

Meus tipos inesquecíveis eram meus professores, do Colégio Barão do Rio Branco e do Sud Mennucci. As professoras, para mim, eram mulheres importantes e altivas. Absolutamente orgulhosas, no bom sentido, de seu “status” e da sua profissão. Elas eram as modelos e eu tinha total convicção, ao estudar, que quando ficasse adulta, eu “saberia tudo” como elas. Muitas eram solteiras e ficaram para sempre solteiras, nada as desmerecia, pelo contrário. A profissão as protegia e envolvia em dignidade intocável.

A coordenadora pedagógica do Sud Mennucci que eu considerava “o máximo” era casada – d. Aglaé Piffer Leme que, com 4 filhos, marido agrônomo bem sucedido, dirigia carro e trabalhava meio período como nossa coordenadora pedagógica, na parte da tarde. Sempre bem arrumada, cabelos curtos, elegância clássica, um olhar atento sobre todos os alunos e alunas da escola pública – Instituto Educacional, onde trabalhava.

Suavidade e severidade eram distribuídos em idênticos 50% de sua personalidade. Mas o que mais eu amava presenciar, era a sua devoção ao marido, quando vez ou outra, almoçávamos juntas com sua filha mais velha, nossa colega de escola. Ela deixava o meu coração adolescente exultante de esperança de encontrar um amor assim, dedicado e carinhoso, no futuro.

Para quem não viveu, mas tem interesse em entender o que era ser mulher naquela época, década de 50 e 60, filmes de sucesso na televisão eram tipo “Papai Sabe T udo” e “I love Lucy”, e no cinema, as estrelas marcantes eram Sandra Dee e Doris Day, caracterização do ideal feminino. Confusão, encontros e desencontros, ingenuidade, vestidos bem colocados, cabelos impecáveis, e a conquista fulminante do coração de um homem, não sem muitas pitadas de mal entendidos e vilões tentando estragar o final feliz.

D. Aglaé reunia, em sua pessoa, um pouco de cada uma dessas mulheres – inteligência contida, energia de ação, ousadia por dirigir um carro, mas creio que tinha motorista particular, trabalho profissional como coordenadora pedagógica, administrava lindamente uma casa, com arranjos de flor sobre a mesa de jantar, 4 filhos bem cuidados e, não titubeou quando precisou acompanhar seu marido ao Rio de Janeiro, ao ser convidado para assumir como Ministro da Agricultura.

O baile de 15 anos de sua filha mais velha foi na casa principal da Escola de Agricultura Luiz de Queiróz, pois seu marido era o diretor, com direito a velas e tules nos arranjos, mocinhas de vestidos românticos e jovens de terno, descendo as escadarias em estilo “E o vento levou”. Uma adolescência distante da política e bastante alienada do que estava começando a acontecer na década de 60. As festas caipiras também aconteciam sob sua coordenação pois, com 4 filhos, conseguia multiplicar a presença de crianças e jovens deixando a casa cheia quase como um clube.

Foram anos de adolescência de muito estudo e controle. Rígidos, regime rígido, moças voltavam para casa às 10 e meia da noite, não entravam de jeito nenhum no carro dos rapazes, sem outras companhias. Vez ou outra, eu me surpreendia quando alguém dizia que d. Aglaé havia me elogiado, pois como eu estudava muito e lia muito, ela apreciava e acompanhava meus esforços.

Quando nasci, era a melhor fase econômica e financeira de meus pais – 1951. Fui a primeira e única filha do casal, Alberto Zulzke Junior e Maria Inês Guidugli Zulzke (Maria), a nascer no Hospital Santa Casa de Misericórdia. Até então, os nascimentos aconteciam nas casas. Minha mãe tinha quase 42 anos e, seu marido, comerciante, meu pai, já estava com mais de 46 anos. Não poucas vezes, precisei explicar que ele não era o meu avô e nem minha mãe, a minha avó. Infelizmente, fiquei órfã aos 11 anos e, essa fatalidade, alterou o meu mundo. Minha mãe era extremamente prendada, costurava, bordava, fazia crochê, tricô e projetou para mim um universo profissional, diferente do dela.

Em Piracicaba, eu tive a sorte de conhecer pessoas inteiras, não fragmentadas por papéis ou estereótipos. Não eram personagens, por seus papéis profissionais. Nem obtinham o “glamour” superficial e teatral de suas conferências. Elas tinham vida pessoal verdadeira e davam e spaços para outros se aproximarem.

As crianças nascidas e criadas na Rua Governador Pedro de Toledo, formavam uma família expandida! Dentre minhas amigas estavam a Tila (Cecília) cujos pais tinham a Casa de Carnes, a Jill, neta ou bisneta dos proprietários do imóvel onde meu pai tinha sua Casa de tecidos, a Conceição (Ceiça), filha dos Roberti, da loja da frente, Rei das Roupas Feitas, além de outras amigas e colegas que nasceram no início dos anos 50 – filhas de farmacêuticos, professores, médicos e advogados que se espalhavam em 5 ou 6 quarteirões, no coração da cidade.

É dessa convivência da infância, ao lado de filhos de médicos como Dr. Raul, Dr. Omir e outros, com suas esposas bondosas e acolhedoras, a minha incapacidade, até hoje, de entender divisão de classes sociais ou hierarquia de valor de pess oas pelo seu poder aquisitivo.

Por mais que intelectualmente eu me force, não consigo concretizar o que seja mais valor de uma pessoa só por ser de família de alguém importante no século 18. E, da convivência com filhos e filhas de gerentes de banco, de vários bancos, inclusive da nossa querida Dra. Teresa Teixeira Monteiro, que eu sei que, dentro de suas casas, não necessariamente as torneiras de água são de ouro e nem todas as mães contam com motoristas, governantas ou babás. As esposas dos gerentes de banco eram dedicadas donas de casa.

A rua do comércio também era uma espécie de ONU pois cada comerciante tinha uma origem de imigração e, os sotaques, suas manias, produtos comercializados mostravam sua forma de ser. Eram judeus, alemães, turcos, portugueses, japoneses, italianos, entre outras descendências, distribuídos por atividades, em poucos quarteirões.

Ali, também, no centro, estavam as instituições de poder da pequena cidade – escolas, mercado, igreja Catedral, casa paroquial, prefeitura, câmara dos vereadores, jornal, jardim, igreja protestante e o primeiro edifício de mais de 10 andares construído na galeria. Nós achavamos o máximo andar de elevador naquele prédio da galeria! Ainda em construção, uma turminha de garotas, pequenas, entrava no elevador, às escondidas, para sentir aquela caixa se deslocando para cima! Que progresso e que medo! Pequena transgressão de crianças.

No centro também ficavam os cinemas e os clubes, onde dançávamos aos sábados e nos carnavais.

Piracicaba, depois dos meus 16 anos, passou a ser monótona para mim, a viuvez de minha mãe pesou demais. Fui para Campinas fazer Engenharia de Alimentos, na Unicamp e nunca mais voltei.

Piracicaba, deixou-me, na memória afetiva, um dos mais importantes aprendizados, famílias amorosas podem ter chefes muito bem sucedidos profissionalmente. O sucesso profissional não necessariamente exige o sacrifício pessoal. Eu encontrei mulheres e famílias que conseguiram realizar essa magia.

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