Thales de Andrade, segundo João Chiarini – I

Um dos textos deixado manuscrito por João Chiarini, e conhecido por poucos, denomina-se “Thales de Andrade: a maior criança do Brasil – aspectos folclóricos de suas obras”. Fruto da percepção de Chiarini como folclorista, mas também como contemporâneo de Thales, o texto analisa e redescobre as obras de Thales de Andrade sob a perspectiva da cultura popular, do resgate a temas do folclore, de respeito a uma tradição secular.

Thales de Andrade cujas obras estão sendo reeditadas em Piracicaba, foi assim descrito:

“Não se conhece com segurança o limite de separação entre a literatura infantil, ou para crianças, e a literatura para jovens, ou de adolescentes, e a dos adultos. Porque realmente há uma zona média. Há temas que agradam a uns e a outros.

Toda literatura veio do folclore. E a infantil, que vagamente é “o conjunto de obras literárias a respeito de assuntos que interessam, de preferência, às crianças,” tem também a sua origem vital no folclore.

thalesThales foi o pioneiro em literatura intencionalmente infantil, do adolescente. Buscou símbolos e empregou-lhes tratamentos inéditos. Distingue bem a criança do adulto. Com vantagem sobre Monteiro Lobato, que só apareceu em 1921, quando Thales já publicara “A Filha da floresta”, ora em sua 10º edição, um combate à devastação das matas e incentivo ao reflorestamento.

“Saudade”, leitura escolar para o curso primário, é o enaltecimento do rurícola. Apoio ao lavrador. Racionalização das atividades rurais. Melhoria e conforto do habitante da roça. Remédio contra o êxodo dos campos. Encantos bucólicos. Magia da saudade. Existem mais de 60 edições e, agora, já no seu 66º aniversário de lançamento editorial.

Gauguin foi quem, primeiramente teve alguma intenção folcló-ESPECIAL rica na sua pintura. Na música de Beethoven há também material folclórico. Em Monteiro Lobato há outra porção, como no seu “Saci”, que é um grande livro, que resultou o melhor cinema brasileiro, com as legendas de Artur Neves.

Mas, folcloricamente, existe mais cultura popular no “Saudade”.

Se a gente pudesse escrever diferente, diria que Thales é folclore. Livro para escola, tipicamente rural, que alcançou a maior tiragem entre outros do ensino primário, é sem dúvida um livro da cultura popular.

Todo o mundo brasileiro e das Américas já o leu. Duas centenas de escritores comentaram-no. “Saudade” apareceu analisado sob os mais variados aspectos, ângulos e prismas. Contudo, nem mesmo Lima Barreto, o supremo Lima Barreto, viu a intenção folclórica em “Saudade”. Inclinação consciente de burilador. Porque á nesse intuito uma validade científica.

“Saudade”não poderia ser um livro rural se não tivesse um conteúdo, pronunciadamente, folclórico. Examine-se o problema da superstição, que é bem colocado. Há uma segurança na informação.

O capítulo “São João”é puro, é a festança popular exata Não é essa festa, que se faz no mês junino nos clubes recreativos e dançantes. Como aqui, tal como aqui mesmo, reflete e diz mal da nossa compreensão e folclore.

Os termos “São João” chamariam à atenção dos estudiosos de nossos falares. Mário de Andrade observou esta face. Lembramonos bem, porque lêramos parte do seu dicionário de expressões populares, onde mestre Thales era um dos informantes.

Eis alguns vocábulos do “São João, dentro do “Saudade”: festejar, fogos de vista, festeiro, cantoria, carroçados, puxava o terço, valsa da moda, ponteando a viola, acabou-se o dinheiro do fogueteiro, rodelas de limão, etc…

No “Meia-noite”, que faz parte do nacionalíssimo volume, há : festantes, lavar o São João, etc. É aqui que o seu autor, há 67 anos, já estudava a “lavagem do santo”. Fala-nos das superstições, que não são lendas, porque se lhas fazem no dia do santo em todos os anos e em todos os lugares.

Tratou, ainda, do “braseiro”, que é o aspecto de passar-se descalço por um “brasido”. Cita, para finalizar, os versos que se dizem no plantio de roseiras na noite do ano, que já foi fortemente fria (24 de junho).

Há outros lados curiosos. É que ele reúne no livro as lições ditas pelo povo, como “soldado velho não se aperta”; as preparações que constituem a nossa cozinha folclórica, como “melado com farinha”, “paçoca de carne seca com bananas”; a farmacopéia rural, como “óleo de cravo”e as redondilhas emotivas.

Os seus “causos”são finos, quase inocentes, sensíveis. Cornélio Pires contou-os, burilando-nos, inventando folclore, o que não é possível, para quem o entende.

Em 19 de outubro de 1949, pela “A Gazeta”, perguntávamoslhe porque não quereria falar de nossas lendas, de nossos mitos, das tradições, das artes de utilidades, das artes caseiras e técnicas populares, se Thales é um imenso baú folclórico?

Em princípios de 1957, atendeu-nos e apresentou-nos “Itaí, o menino das selvas”. É romance para o adolescente. Diferente e nada igual aos outros que conhecemos. Objetivamente ilustrado, científico, porque foram consultados indianistas, botânicos, piscicultores, zoólogos, mineralogistas, etc. A bibliografia é realmente alusiva.

Thales apresenta as figuras da invenção e da fé indígena , como curupira, uirapuru, Iara, Perudá e Boitataá, na sua feição protetora da flora, da fauna, das águas do amar.. Apresenta-as junto às crianças. E tudo fez na moldura das selvas brasileiras.

“Itaí, o menino das selvas”é a maior e a mais pujante contribuição ao folclore juvenil da nossa Pátria em todos os tempos.

Teve outro mérito acima de Lobato. Distinguiu nitidamente a crianças. Mestre-escola rural de Banharão, município de Jaú, sentiu-a, amou o escolar.

Como se separam um do outro? Thales indicou o caminho da terra, centro de toda a sua temática. Lobato fez ficção, divertimento, distração, recreação literária.

Thales foi sempre a verdade. Monteiro, um criador de histórias. Ao construtor se antepõe o contador piracicabano. Thales foi e é bem isso. Neste país ninguém conta melhor do que ele. As suas aulas de História do Brasil e da Civilização são documentários.

A sua composição é uma rosa dos ventos: “El rei Dom Sapo” é a proteção aos bons amigos; “Bem-tevi feiticeiro”, defesa das aves; “Dona Içá Rainha”, combate à saúva, que logrou a Grande Medalha de Ouro na Semana dos Insetos; “Bela, a verdureira”, um incentivo à horta escolar; “Totó judeu”, consideração pelos silvícolas e à obra de Rondon; “Arvores milagrosas”, apelo à pomicultura; “O pequeno mágico”, elogio à agricultura; “Fim do mundo”, conseqüências da destruição de elementos naturais necessários ao homem; “Caminho do céu”, clarinada à defesa biológica; “O sono do monstro”, a paz pela escola.

Lourenço Filho noticiou ter sido o primeiro trabalho de literatura luso-brasileira que desenvolveu o tema da paz pela escola. É um poema à fraternidade!

“A rainha dos reis” é a história e a importância do regime constitucional; “Praga e feitiço”, vida e holocausto de Tiradentes pela liberdade do Brasil; “Capitão feliz”, Cabral e o descobrimento do Brasil; “A bruxa branca”, libelo contra a escravidão e culto aos abolicionistas; “O castelo maldito”, obra contra o despotismo; “O grito milagroso”, o príncipe D. Pedro e o 7 de setembro; “O gigante das ondas”, Colombo e o descobrimento da América; “Morto e vivo”, culto aos mortos; “A cadeira encantada”, regime republicano e o 15 de novembro; “O mistério das cores”, instituição da bandeira nacional; “A estrela mágica”, Natal e a assistência à criança; “O melhor presente”, importância do alfabeto rumo à alfabetização; “Como nasceu a Cidade Maravilhosa”, culto aos fundadores e benfeitores do Rio de Janeiro; “Flor do ipê”, influência encantadora da bela representação da flor brasileira.

A tudo isso Thales denominou “Série encanto e verdade”, contos e pequenas novelas infantis. “Pioneiro na ruralização”, disse-o Sud.

Há didática e comoção nos seus trabalhos. Mas há sobretudo um protesto, em linguagem que até os sólidos entendem, porque é a fala nacional, popular.

Os seus livros têm outros destinos: dão peças infantis através das adaptações; dão músicas: “Saudade”é uma valsa de Ademar P. Castelar de Barros; “A filha da floresta” é valsa lenta de Benedito Dutra Teixeira; “Cantiga serrana”, canção-tango , versos de Benedito Costa e música de Erotides de Campos; “Rumo ao campo”, letra de Elias de Melo Aires e melodia de Fabiano Lozzano. Dão, ainda, rádio-teatro e são as suas narrativas televisionadas.

(Continua na próxima edição)

2 comentários

  1. andre scarlazzari em 18/07/2013 às 18:26

    Olá;
    Possuo a primeira edição do livro "A filha da floresta " publicado pelo jornal de Piracicaba e ilustrado por Alipio Dutra. Herdei de minha avó.
    É um pequeno livreto montado com grampos. Gostaria de doa-lo a uma instituição que o preserve.
    Aguardo sugestões.
    Atte;André Scarlazzari
    [email protected]

    • Débora Ap. de Souza em 14/04/2016 às 13:43

      Boa tarde André, não pertenço a nenhuma instituição, mas estou trabalhando em uma dissertação sobre a literatura infantil na qual me referencio Castor de Andrade e algumas de sua obras, entre elas A Filha da floresta. Essa obra muito valiosa para mim. Ficaria muito grata de recebê-la e, com certeza a tratarei com todo carinho e respeito que merece. Agradeço desde já.

      Débora Ap. de Souza

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