Monte Alegre: glória, queda e renascimento (1)

Monte Alegre:
glória, queda e renascimento – I

Mais do que metáfora, pode se dizer que a alma piracicabana se alimenta do rio Piracicaba. Às margens dele, construímos uma cultura, uma forma de ser. As marcas são indeléveis, permanentes. Por isso, já no Século XXI, todo um projeto de vida e de desenvolvimento de Piracicaba volta-se ao próprio umbigo da terra, aos lugares que lhe deram identidade: rua do Porto, Engenho Central, os lugares ribeirinho se, acima de tudo, Monte Alegre. Mais do que um nome mágico, é um lugar como que sagrado: relicário ecológico e patrimônio histórico-cultural.

Piracicaba, mesmo quando aconteceu o grande ciclo do café, viveu sob o signo do açúcar. E continua vivendo. Desde o início, quando a povoação se instalou em 1º de agosto de 1767, à margem direita do rio, já se sabia que as terras eram de tal forma férteis que permitiriam uma produção de cana superior à de Itu. (A historiadora Maria Celestina Teixeira Mendes Torres têm profundos estudos sobre essa formidável história, fontes idôneas para os textos destes fascículos.) Assim, quando a povoação se transfere para a margem esquerda, em 31 de julho de 1784, vão surgindo, ao longo do rio, acima e abaixo, os engenhos de açúcar, aumentando a área canavieira. Desde o seu início, pois, Piracicaba se faz elemento fundamental na economia açucareira paulista.

Os senhores de terras

Em meados do Século XIX, a economia brasileira era dominada pelos barões do café, poderosos e absolutistas, influentes também na política. Senhores de grandes propriedades, como que imperaram em todo o Vale do Paraíba e no Oeste Paulista. Em Piracicaba, a lavoura de café teve, também, algum destaque. Mas, desde o Século XVIII, pequenina ainda, a povoação surgira para abastecer a longínqua Iguatemi, donde a necessidade de lavouras de subsistência, que surgem ao lado da incipiente lavoura de cana. Há como que uma economia mista com o plantio de milho, arroz, feijão, algodão, fumo, mandioca, além de cabeças de gado vacum e cavalar e boa quantidade de porcos.

A lavoura de café existe, mas os fazendeiros se destacam pela produção de cana de açúcar. No Século XIX, contam-se 51 importantes engenhos de açúcar, e apenas 21 fazendeiros plantando café. Segundo levantamento de Maria Celestina, o tombamento de 1817 acusava, em Piracicaba, “264 fazendeiros, sendo35 senhores de engenhos e 893 escravos”. A maioria dos engenhos e “fábricas de açúcar” está à margem esquerda do Rio Piracicaba, “junto à estrada da Vila de Itu e Porto Feliz”, no “bairro do Lambari e estrada de São Carlos (Campinas)”. E, no “bairro do Ribeirão das Panelas e Morro Azul”, há referências ao engenho de Felipe de Campos Bueno e a “terras com princípios de cana do dr. Nicolau Pereira de Campos Vergueiro”.

As terras férteis de Piracicaba já despertavam o interesse de homens de negócios e de grande fortuna. Um dos grandes proprietários, tido como um dos maiores latifundiários paulistas do Século XIX, foi o lendário Brigadeiro Luiz Antônio de Souza, casado com Genebra de Barros Leite. Estreitamente ligado a Piracicaba, o Brigadeiro Luiz Antônio possuía 16 engenhos, e instituíra morgadios (dotes de terras rurais) para os filhos, um deles o que se tornaria Barão de Limeira, Vicente de Souza Queiroz, e Luiz Antônio de Souza Barros, que se tornaria um dos senhores de engenho e fazendeiro de café de maior prestígio em Piracicaba.

Laços de família e Vergueiro

Laços familiares poderosos fincam raízes em Piracicaba. Ao falecer, o Brigadeiro Luiz Antônio deixa, nas redondezas do povoado, terras sem fim. Uma de suas filhas, Ilidia Mafalda – irmã de Vicente e Luiz Antônio – casa-se com o Marquês de Valença, Estevão Ribeiro de Rezende, de forma que os seus descendentes virão fixar-se em Piracicaba, de onde surgirão os Barões de Rezende. Por outro lado, com a morte do Brigadeiro, a viúva Genebra casa-se com outro fazendeiro e político poderoso e de grande prestígio, José de Costa Carvalho, governador da Província, Marquês de Monte Alegre. Assim, por laços afetivos e familiares estão unidos os Barões de Limeira e de Rezende, o Marquês de Valença.

A esse tempo, um jovem português – bacharel em Direito e futuro senador – adquire, com o seu sogro, José de Andrade Vasconcelos, uma sesmaria com o nome de Morro Azul, origem do Engenho do Limoeiro. Em 1814, o mesmo Campos Vergueiro adquire a sesmaria Monjolinho, nos campos de Araraquara. As propriedades são fazendas imensas, que se unem – através da sociedade agrícola Vergueiro & Souza – às terras do Brigadeiro Luiz Antônio, fazendas do Taquaral e o Monte Alegre, este último adquirido ao Padre Manoel Joaquim do Amaral Gurgel, também um dos grandes proprietários de terra em Piracicaba. São fazendas como nome de Limoeiro, Taquaral, Monte Alegre, Pau Queimado, Monjolinho, que se estendem desde São Carlos (Campinas) até os Campos de Araraquara, nas proximidades onde está, hoje, Bauru.

Com a morte do Brigadeiro, e o casamento da viúva Genebra com José da Costa Carvalho, desfaz-se a empresa Vergueiro & Souza. Pelo acerto entre as partes, passam a pertencer ao casal José (Genebra) da Costa Carvalho o Monte Alegre, Taquaral e Limoeiro. Monte Alegre, à beira do rio Piracicaba e dentro do município de Constituição; o Taquaral, em direção a Rio das Pedras; o engenho do Limoeiro, nas proximidades de Porto Feliz. As terras que sobraram a Vergueiro – Ibiacaba e Tatu – correspondem em parte aos municípios de Limeira, Rio Claro e Araraquara.

Quando se forma, em 1822, o novo município de Vila Nova da Constituição, a maior parte das terras é formadas por Monjolinho, Morro Azul, Limoeiro, Monte Alegre, Taquaral e Pau Queimado. Essas terras iriam ser desmembradas, formando, mais tarde, cerca de três mil propriedades rurais.

O poderoso Costa Carvalho

José da Costa Carvalho está entre os mais poderosos paulistas de seu tempo. Nascido na Bahia, foi em São Paulo que se projetou. Político, jornalista, homem da cidade e de partido, mais urbano do que fazendeiro, mesmo assim se tornou grande senhor de terras, para as quais voltou a sua capacidade administrativa. Foi o fundador do primeiro jornal de São Paulo, “O Farol Paulistano”, lançado em 7 de fevereiro de 1827. A sua influência é tão grande e suas idéias marcam de tal forma a intelectualidade brasileira que, quando da abdicação de D.Pedro I, em 1831, é ele chamado para ser membro da Regência Trina. Homens vinculados a Piracicaba estão no poder: José da Costa Carvalho e Nicolau de Campos Vergueiro, ao lado de Diogo Feijó. As lutas políticas irão separá-los, mas a força desses homens marca um tempo em que Piracicaba e Itu são centros de política e de economia.

De seu casamento com Genebra, as propriedades de José da Costa Carvalho multiplicam-se: adquire mais terras na vizinhança de Monte Alegre, amplia-as com outras propriedades à margem do Rio Corumbataí, mais outras da antiga sesmaria de Carlos Bartolomeu de Arruda, ainda outras da sesmaria do Padre Galvão. E estende suas propriedades também para além do Taquaral.

Serão Monte Alegre e Taquaral o embrião da Usina Monte Alegre. E José da Costa Carvalho passará para a história como o Marquês de Monte Alegre.

Cana e escravos

Em 1836, Piracicaba – ainda Vila Nova da Constituição – está entre os principais produtores de açúcar para exportação no Estado de São Paulo. Com 78 engenhos, é superada apenas por Itu (93) e Campinas (83 engenhos e 9 fazendas). O café quase inexistia. A paisagem rural piracicabana é tipicamente canavieira: o verde claro dos canaviais, com alternância de pastagens, roças de feijão, arroz, milho, bananais e laranjais, além de pequenas plantações de algodão. Os viajantes e historiadores falam da presença de muita madeira de lei, como guarantãs, jequitibás, cabreúvas, perobas.

Em 1824, o engenho do dr. José da Costa Carvalho – o “Monte Alegre” – é administrado por Damião de Souza Nogueira, que também administrara o Limoeiro. Segundo Damião, havia escravos em ambas as propriedades. Em 1833, outro administrador de Monte Alegre e Monte Olimpo afirma haver “157 escravos naqueles engenhos, havendo necessidade de muita diligência e atividade.”

A produção e o Marquês

Há registros da produção de açúcar dos engenhos e nas terras de Costa Carvalho em Piracicaba, incluindo Monte Alegre. O administrador Damião de Souza Nogueira declara, em 1822:

“produziu 1.000 arrobas de açúcar branco, 550 arrobas de açúcar redondo, 41 canadas de aguardente, 500 alqueires de milho, 130 alqueires de feijão e 60 alqueires de arroz, com 30 escravos e 3 agregados”.

Em 1824, o mesmo Damião declara a produção:

“açúcar branco, 600 arrobas; redondo, 400 arrobas; milho, 400 alqueires; feijão, 84 alqueires; arroz, 20 alqueires; aguardente, 40 canadas; 28 escravos e 2 agregados.”

Outros administradores, no entanto, acrescentam números mais amplos à produção, num total de mais 1.027 arrobas de açúcar branco e 385 arrobas de açúcar redondo, o que revela o aumento de produção à medida em que se ampliavam as terras cultivadas. Não se pode estabelecer a produção por engenho, pois os relatórios não os citam nominalmente. No entanto, fica claro que José da Costa Carvalho é um adepto da policultura e, também, interessado na pecuária. Foi José da Costa Carvalho quem, também, tentou incentivar a produção cafeeira no município. Assim, embora não residindo em Piracicaba – em virtude de sua intensa vida política – José da Costa Carvalho se torna responsável por princípios de desenvolvimento que irão marcar o município. A questão do transporte da produção, das comunicações – temas constantes da Câmara Municipal de Piracicaba – são acolhidos com atenção especial por José da Costa Carvalho, o primeiro todo poderoso proprietário do Engenho de Monte Alegre, por isso mesmo tornado nobre com o título de Marquês de Monte Alegre.(Continua)

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