Velhos Pescadores (II)

Agora o Gijo. O nome é Luiz Beato. Filho de italianos, nasceu ali mesmo na beira do rio. Era um pescador singular: disse que não tinha o que contar…

Devagar, porém, foi revelando coisas.

Grande observador e boa memória. Disse que o peixe sempre aumenta muito depois das enchentes. Após a de 1929, a maior de que se lembravam os vivos, numa só rodada, até as Ondas, em 5 horas, pescou 27 dourados!

Conhecia o rio a palmo, até nas noites sem luar. Identificava a “altura” pelas árvores das margens. Apesar do perigo, não tinha medo de rodar rio abaixo em noites escuras. Declarou que é verdade que viu a morte muitas vezes, mas, felizmente, nem morreu nem viu ninguém morrer no rio …

Sabia nadar e bem, mas há pescadores que não nadam.O Sebastião Negrinho, por exemplo… Nadar, porém, não lhe parecia muito necessário ao pescador, pois nunca viu um complicado por isso. É verdade que o Chico Fonseca não nadava e morreu sozinho num bote. Mas, quem sabe o que aconteceu?

A população da Rua do Porto se caracterizava pela pacatez, por ser ordeira. Por que? Talvez por ser antiga e radicada ali. Até 1950 não havia forasteiros, parecia uma família. Depois começou a aparecer gente de fora, japonês e até nortista. Gente boa e ordeira.

Gijo era um dicionário vivo da ictiologia do Piracicaba. Conhecia todos os peixes, e suas manhas e particularidades. Facilmente ditou a lista começando do menorzinho até os maiores: o piquira, o lambari de rabo vermelho, de rabo amarelo (tambiú) e de rabo prêtú (viuvinha); o saguiru, que não pega no anzol, rajado e prata; a tuvira em forma de espada e que anda de marcha à ré; a tanchioa: a solteira (piaba); a piaba de galho amarelo e galho preto; a saicanga ou “tabirú” de rabo amarelo; o peixe-cadela (branco); o cascudo (bugiu, barata, pintado, espada e preto); a piranha que aqui existe em pequena quantidade e não ataca animais; a trair; o bagre; o mandi (branco, amarelo, “chinga” e bicudo), o melhor peixe para pegar de anzol; o peixe-sapo: a jurupoca, que estava desaparecendo; o pacupeva, que desapareceu; o pacuguaçu e o amarelo; o xiwboré de escama; o cará, um peixe novo que estava aparecendo; a piracanjuba; corimbatá papa-terra e o “uvú; o dourado; o “jaú”; o pintado.

Para Gijo, é possivel viver da pesca. Ele, pelo menos, viveu muito tempo, só dela. Declarou ter saudade do tempo em que não se vendia peixe a peso, mas por peça ou fieira. Uma fieira de mandís, com mais de dois quilos por três mil réis!…

Gostava também de pescar longe do Piracicaba. Fazendo isso no Paraná, no Verde, no Itapura… Também ajudou a transmigrar peixes do Piracicaba para o Paraíba. Era tão difícil antes da invenção norte-americana da câmera de oxigênio. Em caminhão levava-se 15 horas daqui a São Paulo.

FIM

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