ESALQ: um século de ciências agrícolas em Piracicaba – (X)

1.2.8 Tecnologia de produtos agropecuários

Tradicionalmente, a Escola Agrícola de Piracicaba sempre se dedicou ao açúcar e ao álcool, no último incluída a pinga ou aguardente. Neste campo, da Academia à usina e ao engenho de rapadura (hoje de novo na ordem do dia devido à nouvelle vague dos alimentos naturais ou orgânicos) e de pinga, os louros (desculpem o lugar comum) cabem a mestre Jayme Rocha de Almeida: goleiro de futebol, flautista de cinema mudo, com uma didática que invejo até hoje, revelou-se como cientista preocupado com a prática. Contribuiu decisivamente para a modernização de nossas usinas e destilarias. Sua amizade com outro grande homem, Mário Dedini, o imigrante de Lendinara, depois grande industrial, muito contribuiu para isso. Teria existido o Próalcool sem o trabalho prévio do Dr. Jayme e seus assistentes, Octavio Valsechi, Jorge Leme Jr. , Roberto Fleury Novais, Ênio Roque de Oliveira, José Stupiello? Entre outras coisas, foi ele que demonstrou (com a ajuda de Guido Ranzani) que a vinhaça é excelente fertilizante devido principalmente à sua riqueza em potássio. Com isso, resolveu uma grande questão ambiental: em lugar de jogá-la nos rios e contaminar as suas águas, como ocorria com o Piracicaba e seus afluentes, passou a ser aplicada nos canaviais como adubo. O Valsechi, em sua tese de livre-docência, orientada por Jayme Rocha de Almeida, estudou há quase meio século o efeito da queima na qualidade na cana.

A tecnologia de alimentos em Piracicaba praticamente foi iniciada pelo já citado Jorge Leme Jr. Em trabalho de determinações sistemáticas de vitamina C em frutas tropicais descobrimos a Myrciaria glomerata, uma fruta do cerrado, cabeludinha, que tem quase tanto acido ascórbico como a hoje popular acerola. O trabalho em questão mereceu a publicação em Nature, a prestigiosa revista inglesa.

Tem que ser mencionado o trabalho de Afrânio Antonio Delgado, que colocou técnica no artesanato da produção de aguardente.

Homero Fonseca, que começou como assistente do Dr. Jayme, foi um dos pioneiros no Brasil a estudar a contaminação dos grãos alimentares pela aflatoxina.

1.2.9 Produção animal

Os primeiros trabalhos sobre Zootecnia de ruminantes e não ruminantes são provavelmente devidos a Nicolau Athanassof e diziam respeito à introdução e manejo dos animais domésticos. A sua principal contribuição é, porém, o que escrevem os seus livros sobre bovinos e suinos, que são verdadeiros clássicos cheios de ensinamentos e de bom senso.

Lembrem-se os trabalhos de Alcides Di Paravicini Torres e de seu assistente, Antonio P. Trivelin, com aves. Aristeu Mendes Peixoto e seus assistentes, como Vidal Pedroso de Faria e Macir Corsi, dedicaram especial atenção ao manejo do gado de corte e de leite, tanto em condições controladas como no pasto. Os escritos de Aristeu também não podem ser esquecidos pela experiência que contêm e que transmitem.

Mais recentemente, a ESALQ começou trabalho muito sério de pesquisa com animais selvagens, como a capivara e o jacaré, visando o seu aproveitamento comercial.

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