O sonho de Manoel Gomes Tróia (5)

O sagrado da Medicina

Em Piracicaba, criando a Fundação Municipal de Ensino, Luciano Guidotti ia ao encontro dos que sonhavam com melhorias na qualidade de vida e, especialmente, na saúde dos piracicabanos. É nessa Fundação que nasce a proposta de se criar a Escola de Enfermagem, idéia que os curadores, estimulados por Manoel Gomes Tróia, levaram à frente. A influência dos médicos piracicabanos se acentuava. E o surgimento de novas clínicas e hospitais era inevitável.

Já existiam, no final da década de 60, a Santa Casa de Misericórdia, o Hospital e Maternidade Piracicaba (do médico Nelson Gimenes, inaugurado em 1956), a Clínica Cesário Mota (criada em 1960, por grupos espíritas), a Clínica Amalfi, e crescia, em qualidade e recursos, o Hospital dos Fornecedores de Cana, mantido pela Associação dos Fornecedores de Cana desde 1965. Isso propiciava, também, o acirramento de conflitos entre hospitais, criando tensões entre os médicos. A experiência do IPASP, da APM, as mudanças no atendimento à população aumentam a convicção de Manoel Gomes Tróia de que chegara o momento para a criação da UNIMED-Piracicaba. E, ainda sendo chamado de “louco, utópico”, como que brandia os códigos médicos, o juramento de Hipócrates, todo o sagrado da Medicina e dos compromissos médicos para investir contra a mercantilização. Em 1967, (Foto: Praça da Catedral, meados dos 1960)numa reunião de presidentes das regionais da Associação Paulista de Medicina, na sede em São Paulo, Manoel Gomes Tróia exige e consegue que fosse dado, a Piracicaba, o título de “Cidade Pioneira no combate ao mercantilismo médico”.

A SERVMED e a SAMEP, exercendo a medicina de grupo, tornaram-se alvo obsessivo de Manoel Gomes Tróia. E não há como dizer o contrário: a luta tornara-se uma obsessão. As profundas alterações no mercado de trabalho e na relação médico-paciente deixavam entrever contornos perigosos para o exercício da profissão, especialmente na preservação do “sagrado da Medicina”. O cooperativismo era a saída, continuava proclamando Tróia. E, contra a medicina de grupo, invocava todos os argumentos éticos, especialmente os do Código de Ética Médica que “proibia a exploração de um colega por dinheiro”. O ideal hipocrático era invocado em todas as reuniões e palestras: “no juramento do médico, tudo é um compromisso com a ética e com o relacionamento médico/paciente.”

No entanto, as empresas de medicina de grupo continuavam em expansão. Os grandes debates éticos – que haviam movimentado a Associação Médica dos Estados Unidos, na primeira metade do século XX – estavam superados por decisão da Suprema Corte daquele país em 1943.1 As alegações contrárias ao “assalariamento médico” tinham sido derrubadas e, com isso, as empresas passavam a expandir-se também para outros países.

No Brasil, tornava-se cada vez menos discutível o surgimento de tais empresas,cujas origens remontavam à década de 1925/35, com o Instituto de Medicina e Cirurgia, em Campinas, e Beneficência Médica Brasileira S/A, em São Paulo, organizados por Luiz Gonzaga Vianna Barbosa; João Penido Burnier, com o Instituto Penido Burnier, também em Campinas; Leonel Tavares Miranda de Albuquerque, com o Instituto Clínico de Madureira, no Rio de Janeiro.

Tróia reunia-se com médicos e encontrava pouca receptividade. Alguns se estimulavam,outros mostravam-se cépticos, os mais antigos eram contrários à idéia. Ainda que amigos de Tróia, os médicos João José Correa, Benito Felipini, Ben-Hur Carvalhaes de Paiva, Alfredo de Castro Neves tentavam dissuadi-lo da idéia.

– “O Forastieri (João Carlos Sajovic Forastieri) ouvia e pensava. E o Alfredo de Castro Neves passou a chamar de ‘TróiaMed’ a minha proposta.”2

Em 1970, Piracicaba era um município com 152.505 habitantes. A esmagadora maioria da população estava na zona urbana: 127.818 pessoas, restando 24.687 na zona rural.3 O processo de industrialização se acelerara. Era o que, no Estado de São Paulo, se chamara “interiorização do desenvolvimento”. Tragédias haviam acontecido e, politicamente, duas delas marcavam a cidade: a morte repentina de Luciano Guidotti (7 de julho de 1968) e a cassação dos direitos políticos – já sob a ditadura do AI-5 – do prefeito Francisco Salgot Castillon (16 de outubro de 1969). No Brasil, há, ao mesmo tempo, a euforia pelo proclamado “milagre econômico” do Presidente Médici e o surgimento de um clima de terror diante da censura, do arbítrio e das torturas.

A fama de “louco” de Manoel Gomes Tróia como que se confirma. Em plena ditadura e, com o país silenciado pela censura, ele é convidado a dar uma entrevista sobre as idéias cooperativistas à então TV Tupi, Canal 4, e bate na mesma tecla e denuncia “o gigantismo do INPS, cuja origem é espúria e se tornou terreno fértil para a corrupção.” Quase de imediato, é chamado ao 5º G-Can, de Campinas, onde o temido e truculento Coronel Cerqueira Lima o interroga e detém. Era para aquele comando militar que se levavam aqueles que, de uma ou de outra maneira, pareciam hostis ao movimento militarista brasileiro. Ligado aos sindicatos, cujos principais líderes estavam em permanente suspeição, Tróia, ainda que tratado com cordialidade pelos militares, entende os sinais das advertências. Chegara-se aos “anos de chumbo”.

Desiste, então, de lutar contra o INPS e se convence, definitivamente, de que terá, a qualquer preço, que criar a UNIMED-Piracicaba. Em Santos, onde o médico Edmundo Castilho se tornou presidente da UNIMED-Santos, encontra acolhida e apoio.

O IPASP COMO EXEMPLO

Para Tróia, o IPASP passara a ser um exemplo das possibilidades que poderiam ser abertas. A Prefeitura Municipal – na proposta elaborada por Manoel Gomes Tróia e pelo dr. Lula – oferecia aos funcionários completo atendimento médico-hospitalar-odontológico. Não sendo regidos pela CLT, os funcionários não podiam ser atendidos pelo INPS, que Tróia tanto combatia. Com o IPASP, tinham todos os benefícios de saúde assegurados, incluindo hospitais da região. O pagamento, a partir de 10 de junho de 1969, era de total responsabilidade do IPASP, sendo 50% debitado na conta do contribuinte para reembolso parcelado.

A idéia funcionava e dava resultados. As consultas médicas eram feitas por guias expedidas para o médico escolhido pelo associado, com um pagamento, à época, de cinco cruzeiros novos. O atendimento odontológico era gratuito, havendo dois consultórios funcionando na sede do IPASP em três turnos.4 As coisas começavam a mudar. O INPS, pelo agente Célio Januzzi, informava que alterava sua política de atendimento hospitalar. Se, antes, atendia apenas internações para pequenas cirurgias e partos, agora estendia o convênio “para casos graves cuja internação é necessária para assegurar a sobrevivência do paciente”. O convênio, feito com o Hospital e Maternidade Piracicaba, dirigido pelo médico Adib Curi, se estendia também a casos como desidratação e enfarte.5

Era mais um resultado da luta de Manoel Tróia a partir da diretoria da APM. Sua liderança consolidava-se. (Na foto, comitiva piracicabana em visita ao Governador Abreu Sodré, 1970, no Palácio Bandeirantes. Tróia é o segundo à esquerda.)

A GOTA D`ÁGUA

Em outubro de 1970, Manoel Gomes Tróia volta a reunir médicos amigos e diretores da APM-Piracicaba. Mantém a pregação, expõe planos, apresenta dados e informações. A realidade da medicina e dos médicos mudara, o Brasil era outro. No país, houvera um crescimento de 102% no número de médicos formados pelas faculdades, em menos de dez anos: de 31.367 médicos em 1961, o número saltara para 67.330 em 1970. No Estado de São Paulo, o crescimento,no mesmo período, fora de 85%: de 9.155 médicos em 1961 saltara para 16.928.6 O nível de competição, portanto, aumentara de maneira surpreendente.

Além disso, os avanços tecnológicos, o desenvolvimento acelerado da indústria farmacêutica, a evolução das escolas de medicina criavam novos perfis de profissionais e exigiam outros recursos. As preocupações de Manoel Gomes Tróia tinham fundamento. Tanto assim que, poucos anos depois e analisando as transformações dessa época, o médico sanitarista Carlos Sampaio (da Fundação de Serviços Especiais de Saúde Pública) fazia uma breve radiografia, mas reveladora: “Em passado recente,os médicos eram poucos, sabiam pouco e tinham tempo para cuidar dos seus doentes e das doenças que eles poderiam cuidar.(…) Tinham tempo de curar quatro entre cinco. E aquele doente que tinha uma doença orgânica, mas que o médico não possuía condições técnicas nem aparelhagem suficiente para diagnosticar, esse continuava doente. (…) Mas as coisas foram se modificando, as técnicas foram aparecendo e, hoje, para que se tenha realmente condições de exercer a medicina dentro da tecnologia moderna, é preciso que se dispenda dinheiro, com aparelhagens e instrumentais que não estão nas posses de um indivíduo como médico.”7

Era como que uma guerra declarada: uns defendendo o modelo estatizante, outros propondo empresas de grupo, uns poucos, entre eles Manoel Gomes Tróia, pugnando pelo cooperativismo. Mas mesmo com tantas reuniões com médicos, a receptividade era pouco. Tróia chegou a seu limite:

– “Foi a gota d’água. Daí, fiquei com raiva e decidi: vou fazer!” 8

Não havia mais necessidade de tantas reuniões preparatórias entre médicos. Os prós e contra de uma cooperativa médica tinham sido analisados. E, apesar de desconfianças e expectativas, a idéia amadurecera. Tróia convoca, então, a assembléia geral da APM-Piracicaba para, no dia 14 de dezembro de 1970, votar a fundação da “Sociedade Cooperativa de Serviços Médicos e Hospitalares UNIMED-Piracicaba”.

Naquele ano de 1970, Alcides Aldrovandi estava ao lado de Tróia. E partilhava das idéias, dos mesmos sonhos. Nascido em Piracicaba, formado pela Faculdade de Medicina da Universidade do Brasil ( Rio de Janeiro), em 1934, Alcides Aldrovandi foi um dos fundadores da Associação Paulista de Medicina – Regional de Piracicaba, da Casa do Médico. A criação da UNIMED empolgava-o:

– “A criação da cooperativa era o último baluarte para a defesa da ética médica, contra a mercantilização da medicina. Era a união dos médicos para dirigirem os seus interesses, não deixando aos leigos, ou ‘ovelhas negras’, a interferência num campo onde a finalidade está acima de qualquer interesse material.” 9

Em São Paulo, o adolescente Moracy Arruda fazia o segundo ano do curso colegial. No Rio Grande do Norte, com 21 anos, Eudes Aquino de Freitas freqüentava, em Natal, a Faculdade de Medicina da Universidade Federal, fazia política estudantil e tocava e cantava música popular brasileira. Em Piracicaba, aos 17 anos, o jovem Paulo Tadeu Falanghe estava cursando o terceiro ano do colegial no Colégio Salesiano Dom Bosco, preparava-se para os vestibulares no Curso Luiz de Queiroz e, na Escola de Música de Piracicaba, habilitava-se paraformação de clarineta. Em Rio das Pedras, com oito anos de idade, o menino Euclydes Montagnani Jr. cursava a segunda série do ensino fundamental no E. E. “Barão de Serra Negra”.

* Continua

1 CORDEIRO, Hésio de Albuquerque. Bases teóricas para o estudo das transformações capitalistas da prática médica in Saúde em debate nº 14. Rio de Janeiro, 1982.

2 Entrevista de Manoel Gomes Tróia ao autor, 23/07/2002.

3 SACARO, Andrea & BILAC, Maria Beatriz B. Piracicaba: acervo de publicações especializadas e dossiê de informações regionais. Núcleo de Pesquisa e Documentação Regional (NPDR), UNIMEP, mar./1993.

4 O Diário, 06/07/1969 e 20/11/1969.

5 O Diário, 07-08/07/1969.

6 Anuário Estatístico do Brasil, 1963 e 1972.

7 A saúde no Brasil hoje (Mesa redonda promovida no Hospital Prof. Edgar Santos, em Salvador, Bahia, no dia 12/11/1976). Saúde em debate, julh/set 1977.

8 Entrevista de Manoel Gomes Tróia ao autor, 16/09/2002.

9 Entrevista de Alcides Aldrovandi ao Jornal UNIMED. nº 1, out/1992.

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