A HISTÓRIA QUE EU SEI (LI)

Caça às bruxas
Dizer que, no ano de 1964 e nos imediatamente subsequentes, houve excessos de uso de força em Piracicaba, seria pretender criar fantasmas onde eles não apareceram. Houve casos isolados, alguns deles com consequências dramáticas, cujas origens, no entanto, chegaram ao tragicômico. As violências cometidas eram de ordem política local e desencadeadas pelos próprios políticos que divergiam entre si e buscavam ter espaços privilegiados entre os proclamados “chefes revolucionários”. A posição mais incômoda era a de Salgot Castillon que – sendo líder populista que sempre estivera ao lado dos trabalhadores nas greves que se haviam realizado em Piracicaba – era, ao mesmo tempo, entusiasmado correligionário de Carlos Lacerda, um dos promotores mais eficientes do golpe militar. À medida que Carlos Lacerda ia sendo marginalizado pelos chefes militares, Salgot Castillon foi-se, também, afastando dos novos donos do poder. Na Assembléia Legislativa, um dos líderes do governo de São Paulo era o deputado Domingos José Aldrovandi. Os “ademaristas” continuavam dando as ordens políticas na cidade, mas não mostraram temperamento ou vocação para delações ou perseguições em relação, principalmente, aos sindicalistas. Por sua vez, Luciano Guidotti, na Prefeitura, mantinha o seu entusiasmo pelo ideário da “revolução”, respaldando as suas atividades políticas, junto com o irmão João Guidotti, nas relações pessoais com o vice-governador Laudo Natel.

Os militares, em Piracicaba, estavam vinculados a Sorocaba, sendo o Tiro de Guerra o ponto de referência. E, aqui, quem representava o Exército era o Coronel Pedro Corlatti, um homem cordato, pacífico, um “bon vivanft” que, de repente, se via em situação pelo menos incômoda: sendo pessoa de boas relações em todas as áreas e homem dado aos bons prazeres da vida, Pedro Corlatti, de repente, se via assediado por políticos e empresários que passaram a defender interesses próprios, fazendo delações e exigindo providências. Como Delegado Regional de Polícia – vinculado ao DOPS estava

Adir da Costa Romano, um homem pronto e disposto, por seu lado, a mostrar serviços. Usava-se a bandeira da moralidade política mais uma vez. E, na Câmara Municipal, dois vereadores foram vítimas, durante o processo revolucionário, de extinção de seus mandatos, acusados de corrupção eleitoral e de tráfico de influência. Tratava-se de Assib Elias Maique, que se elegera oferecendo presentes e literalmente comprando votos na zona rural: dava um pé de botina e prometia, se fosse eleito, dar o outro pé, essa uma de suas artimanhas… E a outra foi a vereadora Maria Benedita Penezzi contra quem os “ademaristas” levantaram a denúncia de chantagear um comerciante japonês do Mercado, estimulando um processo no qual, alguns anos depois, “Ditinha” foi absolvida.

O papel da Igreja católica, através da atuação de D. Aníger Melilo e dos novos e jovens padres que estavam na Diocese, foi exemplar. Deram guarida a operários, a jornalistas, a estudantes, a trabalhadores, posicionando-se sempre ao lado das pessoas que estavam sendo denunciadas ou investigadas. As reações nos dois mais atuantes centros acadêmicos da cidade – o C.A. “Luiz de Queiroz”, da ESALQ, e o C.A. “Frederico Herrmann Júnior”, das faculdades que viriam a ser a UNIMEP – eram barulhentas mas sem maiores conseqüências, limitando-se a um ou outro depoimento na Delegacia de Polícia. Deve-se dar um registro especial a uma pessoa que, em meio a todas as delações, se transformou em alguém de bom senso e de cautela: o investigador do DOPS, Paulo de Camargo, que, mesmo recebendo ordens superiores para detectar “subversivos” ou usar de truculência contra eles, se tomou, na realidade, como um conselheiro de intelectuais, operários e estudantes que começaram a ver a temporada da caça às bruxas solta …

Pedro Corlatti veio a ser substituído, algum tempo depois, pelo Tenente Alfredo Mansur e, com este, as coisas se modificaram, especialmente quando o ano de 1968 chegou. Alfredo Mansur tomou-se homem de confiança do “guidotismo” e do empresariado local que, especialmente através de Leopoldo Dedini, não perdoava alguns-;episódios e greves, como as que aconteceram na Metalúrgica Dedini, em Rio das Pedras e o episódio do “enterro simbólico” do Comendador Antonio Romano. E foi por causa das greves anteriores que, logo no dia 3 de Abril, começaram as primeiras prisões em Piracicaba: de operários. E o motivo passou a ser parte do anedotário ou da tragicomédia da política de Piracicaba. A alegação dos “revolucionários” era a existência de um túnel preparado para explodir dependências da Metalúrgica Dedini …

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