A HISTÓRIA QUE EU SEI (XIX)

Um certo Luciano Guidotti
Piracicaba parecia não mais suportar o poder e o domínio dos políticos do passado, da velha herança dos “coronéis” do antigo PRP. Assim, quando Luiz Dias Gonzaga – que já lançara o filho, Bento, para deputado estadual – lançou-se a si mesmo como candidato a Prefeito ainda outra vez, a insatisfação foi grande. Era um outro Brasil que se estava formando, tempos novos de um pós-guerra transformador . Buscava-se, em Piracicaba, um nome novo, sem vícios políticos, sem passado partidário, alguém com um perfil de administrador e de progressismo que pudesse empolgar a opinião pública. O nome escolhido foi de Luciano Guidotti.

Luciano Guidoui tinha nascido em Avaré e, de lá, mudara-se para Limeira onde tinha sido barbeiro. De Limeira, transferiu-se para Rio Claro e, em 1928, chegara a Piracicaba. Homem pobre, inculto, mas de grande vitalidade e força de vontade. Em Piracicaba, o desconhecido Luciano Guidotti – que, a pouco a pouco, trouxe os irmãos Luiz e João para trabalhar com ele – montou uma pequena loja de comércio, a “Casa dos Dois Mil Réis”, na esquina da rua D. Pedro II com rua Governador Pedro de Toledo, no Largo do Mercado. No mesmo local, funcionava uma barbearia para a qual Luciano Guidotti trouxera um barbeiro seu amigo, de Limeira. A “Casa dos Dois Mil Réis” começou, pouco a pouco, a se desenvolver e Luciano Guidoui passou a ganhar algum dinheiro. Logo após a guerra, por influência de seu irmão Luiz – que representava a “Frigidaire” em Piracicaba – Luciano Guidotti conseguiu ser o concessionário da General Motors (GMC) na região. Já tinha passado por uma experiência que não dera muito certo, a da comercialização de óleo de laranja. Para muitos, a fortuna de Luciano Guidotti ter-se-ia formado a partir do comércio de óleo, mas seus familiares negam: com a concessionária de automóvel e caminhões é que Luciano Guidotti passou a ser empresário de sucesso, reconhecido, tornando-se homem muito rico. E se ia tornando cada vez mais popular e estimado dada a sua sempre pronta disposição para atender e socorrer as obras assistenciais e de benemerência de Piracicaba. Quando D.Ernesto de Paula deu início à construção das torres da Catedral de Santo Antônio, foi com um auxílio inestimável de Luciano Guidotti que as obras tiveram o seu deslanche. Luciano cedera um automóvel para ser rifado, uma doação altamente generosa para a época. Por outro lado, assistia, generosamente, as obras do Asilo de Velhos, do Lar Escola Coração de Maria Nossa Mãe, auxiliara à Santa Casa, enfim a muitas obras de benemerência em Piraciacba. Assim foi indo até que aceitou assumir a presidência do Asilo dos Velhos, que se transformaria no “Lar dos Velhinhos”. Seu trabalho, sua atuação na administração do “Lar dos Velhinhos” foram de uma eficácia que impressionou a todos. Luciano Guidotti conseguia mobilizar o empresariado, levantar financiamentos, empréstimos, obter doações. Inspirava confiança e, por sua dedicação àquelas obras, poucos eram os que se negavam a colaborar. O nome de Luciano Guidotti chegava às páginas dos jornais locais. De repente, o antigo dono da “Casa dos Dois Mil Réis” tinha grande ascensão social. Era ‘o italiano’ de sucesso, progressista, o “apolítico”. No “Lar dos Velhinhos”, o secretário da instituição – e homem de confiança e de apoio a Luciano Guidotti – era Sebastião (“Tatu”) Rodrigues Pinto, proprietário da principal casa de música e discos da cidade, a “Casa Edson”, e um udenista histórico.

Quando Luiz Dias Gonzaga lançou-se candidato a Prefeito, a UDN se irritou.

Mais ainda Sebastião “Tatu” Rodrigues Pinto, que nunca conseguira digerir o que considerava “traição” de Luiz Gonzaga, ao deixar a UDN pelo PSP. Foi, então, que Sebastião Rodrigues Pinto teve a idéia: por que não se lançar a candidatura de Luciano Guidotti para Prefeito? Levou a proposta para seu fiel amigo, Francisco Salgot Castillon, que, a princípio, não a levou a sério. Sebastião “Tatu” insistia, justificando-se: “É um homem estimado, está mostrando ser um grande administrador e, além do mais, ele é ‘italiano’, vai empolgar o eleitorado.” A pouco e pouco, a idéia de Sebastião “Tatu” foi assimilada e, de repente, passava a ser uma onda, um movimento. Luciano Guidotti negava-se a aceitar, assustado com a repercussão de seu nome junto a políticos, partidos, empresários, estudantes, intelectuais, na imprensa e rádio. E havia um outro problema: além de ser um homem inculto, semialfabetizado, Luciano Guidotti nem eleitor era!

A UDN encampou o lançamento da candidatura de Luciano Guidotti a Prefeito. No PSD, o deputado João Pacheco e Chaves percebeu a viabilidade do nome daquele empresário como uma possível solução para derrotar o gonzaguismo.

De início, pensava-se em Luciano Guidotti apenas para derrotar Luiz Dias Gonzaga. Depois, quando a candidatura de Luciano se formalizou, houve euforia, confiança, esperança em seu nome. Quando, finalmente, Luciano Guidotti concordou em ser candidato, foi montada uma estratégia: far-se-ia um grande jantar em sua homenagem, pelos serviços que Luciano prestava à comunidade, e, durante o jantar, seria lançada a sua candidatura, um apelo para que ele aceitasse ser candidato. O difícil foi convencer Luciano Guidotti a fazer um discurso, pois ele lia mal e com dificuldades, e falava pior ainda. Salgot Castillon escreveu o discurso para Luciano ler, mas, quando chegou a hora de falar, Luciano Guidotti guardou o discurso e falou de improviso, explicando que era um homem sem letras e sem cultura e, por isso, falaria a seu modo, do jeito que costumava falar. Foi uma ovação. A simplicidade de Luciano Guidotti cativava a lodos.

E, em Piracicaba, começava a crescer, cada vez mais, o movimento espontâneo de apoio à sua candidatura.

Desprezando os partidos políticos, pouco afeito aos entendimentos partidários, insistindo em dizer-se “apolítico”, Luciano Guidotti fez uma exigência: queria, como candidato a vice-prefeito, alguém com mais conhecimento, mais experiência, com mais cultura enfim. O escolhido foi o professor Alberto Volet Sachs que aceitou e passou a ser um grande e eficiente assessor de Luciano Guidotti, desde a campanha eleitoral.

Estava nascendo, em 1955, uma estrela de primeira grandeza na vida político administrativa de Piracicaba. O “gonzaguismo” e o “coronelismo” estavam em vias de ser sepultados. Em seu lugar, viria o tempo dos comendadores. Depois de José Vizioli, um outro “italiano” chegava à Prefeitura.

*CONTINUA

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