PRUDENTE DE MORAES: vida, paixão e morte (5)

V – Paixão

“O Paisano”, presidente para ser lembrado

Em tantos livros que lhe foram dedicados – biografias, dicionários enciclopédicos e outros – talvez a síntese do governo de Prudente de Moares e dele próprio como político esteja no registro do “Lello Universal”. A referência é curta e definitiva: “A sua administração será sempre lembrada por sua energia e integridade”. E apenas um homem enérgico, íntegro e sereno poderia suportar o peso que, sobre seus ombros, Prudente de Moraes recebeu por herança: problemas e mais problemas, um Brasil entregue ao caos.

Ainda ridicularizado por seus detratores – que insistiam em chamá-lo de “Biriba”, “Prudente Demais”, “Caipira de Piracicaba” – Prudente de Moraes contrariou a oposição e suas certezas: a de que ele nem sequer chegaria ao Rio de Janeiro e de que, se chegasse, não tomaria posse. O vice-presidente, o baiano Monoel Vitorino, fora eleito pelo Partido Federalista, homem ligado ao presidente anterior, Floriano Peixoto, e aos “florianistas”, que reivindicavam a permanência de um governo forte. Nem em seu vice-presidente, o “Biriba” poderia confiar. Aquela continuava não sendo “a República dos meus sonhos”, como dissera Saldanha Marinho.

O “Caipira de Piracicaba” chegou ao Rio de Janeiro, como presidente eleito, no dia 2 de novembro de 1894. Sua árdua missão era governar um Brasil dividido por revoluções e por indícios de que algo preocupante acontecia em Canudos. Era Antônio Conselheiro que, desde o advento da República, doutrinava multidões contra “A Lei do Cão” que, nos folhetins de literatura de cordel, era como os poetas popülares se referiam à separação entre Igreja e Estado e ao casamento civil. E, mais ainda, Prudente de Moraes chegava para substituir um presidente autoritário que se tornara conhecido como “O Marechal de Ferro”, “Major”, “Consolidador da República”, “A Esfinge”, “O Homem Enigma”. Parecia demais para um caipira de Piracicaba.

Tal era o quase descrédito da imprensa e da classe política que o escritor Arthur Azevedo — com o pseudônimo de “Gravoche”, no jornal “O Paiz”, escreveu em trovinha humorística:

“Vai-se o marechal ingente,

Vai-se o grande alagoano.

E eu, leitor, digo somente,

Seja, Prudente, um Floriano.”

A chegada

O historiador Hélio Silva escreveu páginas pungentes sobre a chegada de Prudente de Moraes ao Rio de Janeiro, os dias que se seguiram e a posse. E dele a narrativa no capftulo intitulado “O Presidente Paisano”:

“(…) O cenário merece ser descrito: nenhum representante de autoridades nem políticos, e na opinião de alguns íntimos, nem o povo. Se bem que a História, futuramente, apresente o povo, aclamações, a verdade é que Prudente de Morais desembarcou sem acompanhante. Por essa época, andara na cidade uma delegação de generais uruguaios. Haviam embarcado para São Paulo e a Estação apresentava a decoração de flores naturais com que fora enfeitada para o embarque dos orientais. A decoração tinha alguns dias, as flores estavam fanadas. Foi nesse ambiente de pétalas murchas, poeira, ausência do mundo oficial, que Prudente de Moraes desembarcou do trem para receber o abraço de um amigo solitário, em companhia do qual se dirigiu para o Hotel dos Estrangeiros, na Praça José de Alencar.”

Esse amigo solitário era, segundo a historiadora piracicabana Nair Barbosa, o campineiro Francisco Glicério, que fora mentor político tanto de Prudente de Moraes quanto de Campos Salies no tempo imediatamente anterior ao advento da República. Militar, educador, político influente, Francisco Glicério (de Cerqueira Leite) tivera grande influência no governo de Deodoro da Fonseca, de quem fora Ministro da Justiça. Era ele, ainda segundo Nair Barbosa, o amigo do “abraço solitário” que, diante da decepção de Prudente, “em tom de camaradagem, preveniu o presidente eleito de que havia mandado preparar um almoço no Hotel dos Estrangeiros.” Mas acrescentando que seria ele, “Prudente, quem pagaria a despesa.”

A grosseria de Floriano

A má vontade em relação a Prudente de Moraes prosseguiu nos dias que antecederam à posse. A presença de Floriano Peixoto era como que uma sombra. Os “florianistas” alimentavam intrigas, colocavam dúvidas em relação à posse. O “civilismo”, que Prudente de Moraes encarnava, incomodava interesses de muitos. E havia, ainda, o calor da “Revolta Federalista” no Sul, as desfeitas de Floriano.

Prossegue o historiador Hélio Silva, narrando aqueles dias:

“No final do dia (quando se alojou no Hotel dos Estrangeiros) chega um representante , vindo de algum banquete alegre e declara: estava ali para cumprimentá-lo em nome de Floriano Peixoto e desculpar-se por não ter estado presente ao desembarque: na véspera, dia de feriado, não recebera as instruções devidas. Prudente de Moraes agradece e apressa-se a telegrafar para Floriano, solicitando uma audiência em que, como presidente eleito, conversasse com o presidente em final de mandato, trocando idéia sobre administração pública. Dias depois, veio a resposta. Floriano, assoberbado de serviço, marcaria, oporturnamente, a audiência. E a data da posse chegou sem que aparecesse a oportunidade. O encontro entre Floriano e Prudente não se realizou.”

“…uma escolta de anjos.”

Mais melancólica ainda – e reveladora das dificuldades que Prudente de Moraes precisaria enfrentar – foi a posse. A tentativa de humilhá-lo ultrapassou os limites da civilidade. “Pouca gente acreditava na transmissão regular e pacífica do poder”, comentou Rodrigo Otávio. secretário de Prudente de Moraes na Presidência. Mas o primeiro´presidente civil da República não se deixou abater. E, no dia da posse – de fraque e cartola, sua postura nobre, os olhos verdes destacados nos rosto taciturno – Prudente de Moraes superou a última humilhação. É ainda de Hélio Silva a narrativa:

“No dia 15 de novembro, Prudente, trajado de acordo com o protocolo, aguardou, no hotel, que o viessem buscar. Só apareceu André Cavalcanti, convidado para chefe de Polícia do seu governo. Esperaram. Quando se convenceu de que não vinha ninguém, pediu ao amigo que se desse ao incômodo de ir ao Largo do Machado buscar condução. Veio o fiacre que ele conseguiu, um calhambeque em péssimo estado, o cocheiro mal ajambrado, e duas pilecas (cavalgaduras) maltratadas. Foi nesse veículo sem pompa que o novo presidente se transportou para o velho Palácio do Conde de Arcos onde prestou o compromisso legal. Acabada a cerimônia, o representante da Inglaterra. sabendo que o presidente da República estava sem condução, ofereceu sua esplêndida carruagem. Nela, Prudente se transportou para a sede do governo. Não tinha providenciado a escolta oficial. Havia, não se sabe bem por quê, um piquete de alunos do Colégio Militar. A guarda juvenil comoveu Prudente: ‘Melhor, só uma escolta de anjos.’”

A posse melancólica

Todos os que escreveram sobre Prudente de Moraes dão ênfase à sua posse, ao momento em que ingressou na sede do governo, o Palácio do Itamaraty, apoiados nas observações escritas por Rodrigo Otávio, o secretário da Presidência. O Palácio estava abandonado, as portas abertas, salões vazios. Na sala de despachos da presidência, havia “uma mesa grande com oito poltronas e um armário, no qual havia apenas um livro, que servia de registro de visitantes nos dias de festa nacional. Floriano não recebia ninguém. Nos grandes dias, se punha esse livro à disposição, indicando-se a data no alto da folha.” Rodrigo Otávio narra que as assinaturas eram quase sempre as mesmas.

Hélio Silva reproduz aquele momento:

“Seguido de poucaspessoas, esguio e solene, um doloroso sorriso em meio àquele cenário, Prudente atravessa as dependências descuidadas. Na grande sala dos fundos, dando para o parque, jazia sobre o assoalho de custoso mosaico de madeira, um caixão aberto, contendo jornais, papéis rasgados, garrafas vazias de cerveja e a palha que os envolvera. Os estofos de alguns móveis foram rasgados a pontaços de baionetas. Era inacreditável.

Só então apareceu alguém do mundo oficial: era o sr. Cassiano do Nascimento, ministro de quase todas as Pastas do governo FIoriano. Fez um pequeno discurso dizendo que, em nome do vice-presidente,fazia a transmissão do governo. Depois disso, em conseqüência de uma pergunta a Prudente, o grupo dirigido por aquele ministro se encaminhou para uma pequena sala à esquerda que servia para o despacho presidencial. Então, o sr. Cassiano despediu-se e se retirou. Prudente instalava-se na presidência da República do modo mais informal.”

O manifesto à Nação

Tornou-se peça oratória admirável o primeiro discurso de um presidente civil da República brasileira. Mais do que um discurso, foi um manifesto à Nação e uma declaração de princípios aos valores republicanos. Foi o discurso de posse, em 15 de novembro de 1894. Alguns trechos:

“A nação brasileira:

Assumindo hoje a Presidência da República, obedeço(…) à resolução da soberania nacional, solenemente enunciado pelo escrutínio de 1 de março. Aceitando este elevado cargo (…), especialmente na atual situação, submeto-me a imperioso dever patriótico e não pouparei nem esforços nem sacrifícios para corresponder à extraordinária prova de confiança de meus concidadãos, manifestada de modo inequívoco no pleito eleitoral mais notável da vida nacional.

(…) a forma republicana, tal como está consagrada na Constituição de 24 de fevereiro, é indubitavelmente a que tem que reger para sempre os destinos do Brasil.

A República está, pois, firmada na consciência nacional; lançou raízes tão fundas que jamais será daí arrancada.

Ao passo que a Monarquia caiu sem a menor resistência, não obstante haver dominado o país durante setenta anos com o seu regime centralizador, a República, apesar de sua curta e perturbada existência, (…) venceu a poderosa resistência restauradora, porque tinha a seu lado a opinião nacional manifestada pelo consenso dos Estados (…)

Os adversários das novas instituições devem estar desiludidos: segura pela poderosíssima âncora da federação, a República resistirá a todas as tempestades que contra ela se desencadeiam, por mais fortes e violentas que sejam.

O governo que ora inicia a penosa jornada por esse caminho, fortalecido pelo apoio nacional, não se desviará dele, tendo por seus únicos e seguros roteiros — a justiça e a lei; por seu único alvo — a felicidade da Pátria.”

 O conciliador

Já nos primeiros dias de seu governo, Prudente de Moraes revelou a sua vocação conciliadora. Na formação do Ministério, revelou, em carta a seu amigo Bernardino de Campos: “Estou encontrando espaços para combinar um ministério de pessoal competente e que não signifique hostilidade ao Marechal (Floriano), que continua irascível.” Prudente queria evitar, no Ministério, pessoas de São Paulo e da Bahia, na tentativa de impedir novas exaltações de ânimo. Mas rendeu-se ao talento e à eficiência de um paulista, Rodrigues Alves – também caipira, de Guaratinguetá – a quem chamaria para a Fazenda.

O primeiro Ministério foi formado: Justiça, o pernambucano Antônio Gonçalves Ferreira; Marinha, o almirante carioca Eliziário José Barbosa; Guerra, o também carioca, general de divisão Bernardo Vasques; Relações Exteriores, o carioca Carlos Augusto de Carvalho; Fazenda, o paulista Francisco de Paula Rodrigues Alves; Indústria, Viação e Obras Públicas, o mineiro Antônio Olyntho de Santos Pinto.

Com essa equipe, o “Presidentee Paisano” iniciou a árdua jornada do primeiro governo civil da República brasileira.

*Continua

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