O Ilustrador JIC Mendes

JIC Mendes _ caricat

José Inácio Coelho Mendes – JIC Mendes nasceu em 1925 em Piracicaba, onde nadava e remava no rio, que mais tarde viria a retratar em pinturas a óleo. Quando foi cursar a faculdade na Capital, sustentou-se durante um breve período fazendo desenhos para o jornal “A Noite”. Formado engenheiro civil em 1950, foi o segundo funcionário (depois do contador) contratado pela recém-constituída Companhia Nacional de Investimentos, a CNI. Nessa empresa, foi o engenheiro responsável por executar e supervisionar a construção de edifícios emblemáticos de São Paulo, como o Copan, o Eiffel, o Triângulo, o Coliseu e a Galeria Califórnia. Nos anos 1960, fundou sua própria empresa de construção civil, pioneira no uso de concreto pré-moldado no Brasil e inventora da argila expandida cinasita: a CINASA. Posteriormente se dedicou também à escultura em argila e bronze. Depois de aposentado, teve a oportunidade de realizar sua aspiração da juventude, trabalhando como arquiteto ao lado do seu primogênito Fernando. Seus 6 filhos, 13 netos e bisnetos se alegram e se orgulham da grande família unida que ele constituiu com a Mirinha em quase 70 anos de casamento. A cidade de Itu, onde ele vive há mais de quatro décadas, agraciou-o com o título de cidadão ituano, por pensar grande e enxergar longe.

Em 9 de setembro de 1947, o jornal paulistano “A Noite” anunciou em sua primeira página a estreia de um novo colaborador: o ilustrador JIC Mendes. O jovem piracicabano de 21 anos, instalado na capital há três, precisava de trabalho para se manter enquanto cursava a faculdade de engenharia. Confiante em seu talento, juntou numa pasta alguns desenhos e muita coragem e compareceu à redação. Foi recebido por um repórter que gostou dos desenhos e levou-os aos seus superiores. Estava contratado!

Seguindo sua maior influência, o desenhista Belmonte, produziu imagens que retratam o povo com compaixão e perspicácia, lançando sobre seu tempo um olhar crítico e bem-humorado. Nos 7 meses de setembro de 1947 a março de 1948, foram 40 ilustrações de temática variada e traço magistral, publicadas sempre na primeira página do vespertino.

Depois do lápis, JIC trabalhava a nanquim, repassando os traços do desenho feito no papel vegetal, acrescentando sombras, padrões e texturas, compondo letras e legendas. Depois de algum tempo, passou a usar também, para fazer as sombras, uma tinta azul que produzia um colorido cinza homogêneo após a impressão. E além do lápis e do nanquim, trabalhava com muita imaginação e capricho nos detalhes.

JIC Mendes juntava seus desenhos aos de profissionais mais experientes, como o quase-xará Mendez, do Rio de Janeiro, retratistas de estilo mais realista como Alcides Torres, Pacheco e Paulo Ribeiro, e caricaturistas como Moura, Vic e Alvarus. Todos eles forneciam retratos e caricaturas das personalidades nacionais e internacionais que eram notícia. Porém, as peças desses artistas eram reutilizadas, às vezes por anos, quando a figura pública voltava a ser objeto de comentário.

JIC chegou para revolucionar essa prática. Suas obras, sempre inéditas e feitas sob medida, teciam comentários sobre os eventos e personagens do momento com agilidade para captar o espírito da notícia e com abundância de referências pictóricas aos fatos da época. É uma riqueza fabulosa de alusões que só ele, depois de mais de 70 anos, consegue restituir plenamente, graças a uma memória impressionante. Memória essa que, agora, pode ser de todos nós.

JIC Mendes 1

Na Rua Sete de Abril, onde ficava a redação de “A Noite”, a companhia telefônica havia instalado dutos de ventilação sob as calçadas. O implemento urbano provocou — ou sugeriu à imaginação do JIC — esta cena picante, típica do olhar irônico e malicioso do ilustrador. Vale reparar o artifício técnico: no segundo quadro, o galanteador parece menor, para sugerir a perspectiva e o deslocamento da moça. E o detalhe cômico: mesmo com a distância, ainda se vê as notas musicais emitidas pelo assobio.
E para quem se lembrou da Marilyn Monroe que segurava o vestido branco esvoaçante sobre uma grade de ventilação do metrô sob o olhar ávido de Tom Ewell, vale lembrar que essa cena antológica do filme The Seven Year Itch (O pecado mora ao lado) só aconteceria oito anos mais tarde, em 1955.

JIC Mendes 3

Diante do facão MADE in URSS que cinde o planeta em dois, a pombinha que carrega a palavra “PAX” tatuada no peito até deixou cair o ramo de oliveira que segurava com as patas. A opinião pública atribuía à ação do governo soviético o recrudescimento das tensões que levou a essa divisão. De fato, a política internacional caminhava para uma bipolaridade cada vez mais marcada: no plano econômico o COMECON (1949) seria a contrapartida do Plano Marshall (1947); no plano militar a OTAN (1949) teria como resposta o Pacto de Varsóvia (1955).
Comintern era a sigla da Terceira Internacional Comunista, organização criada por Lênin em 1919 para congregar os partidos comunistas do mundo todo. Porém, sob Stalin a Comintern perdeu sua importância até ser extinta em 1943. A Cominform (Oficina de Informação Comunista) foi criada em 1947 para substituí-la, mas não conseguiu tomar o lugar de sua predecessora no imaginário popular.
Se a responsabilidade não era exclusivamente da União Soviética, a cisão era bem real e suas consequências severas. Atento aos fatos da política mundial, JIC nos dá aqui sua versão para o início da Guerra Fria.

[Este texto é parte do livro “Pira Cartum – Homenagem a 32 cartunistas e ilustradores de Piracicaba nos 45 anos do Salão de Humor”. Organizadores: Adolpho Queiroz, Edson Rontani Junior, Maria Luziano e Victor Corte Real. Uma publicação da Coleção AHA de Humor Gráfico – Associação dos Amigos do Salão Internacional de Humor de Piracicaba (Editora Nova Consciência – 2018)]

Para conhecer demais cartunistas e ilustradores integrantes do livro, acesse a TAG Pira Cartum.

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