Por qué non te callas, Fernando?

Admirei Fernando Henrique Cardoso, votei nele. E, mais do que o outro Fernando, o Collor, Fernando Henrique se tornou uma das minhas grandes decepções. Ele nos enganou. E, na verdade, eu me deixei enganar, por seus diplomas, por uma história fantasiada de vítima da ditadura, por sua cultura, o professor brasileiro na Sorbonne. Política é uma farsa só ou – na racionalidade das razões de Estado – a imundícia do Poder. Fim de parágrafo: é conclusão de quem já passou por todos esses caminhos.

Votei contra Lula todas as vezes anteriores de ele chegar à Presidência da República. Votei em Collor, contra Lula; depois, em Brizola, contra Lula; votei em Fernando Henrique, contra Lula. E, finalmente, vi-me pergutando-me a mim mesmo: por que não Lula? E votei em Lula.

Digo não me sentir traído por Lula, um político esperto, pragmático. Mas fiz a besteira de não ter reconhecido a máscara acadêmica que Fernando Henrique usou e ainda usa para disfarçar a sua vaidade imensurável, talvez uma enfermidade. Pois havia antecedentes patéticos que evitei admitir em relação ao ex-presidente Um deles: quando, candidato a Prefeito de São Paulo, se sentou na cadeira de vencedor, antes mesmo de se iniciar a apuração de votos. Fernando Henrique perdeu, Jânio Quadros zombou dele, dedetizando a cadeira em que ele estivera E outra, apenas para confessar minha besteira, minha falsa convicção: Fernando Henrique foi convidado a ser o Ministro das Relações Exteriores de Fernando Collor. E aceitou. Quem impediu a apoteose da vaidade amoral de Fernando Henrique foi Mário Covas, que se rebelou contra aquele oportunismo.

Há alguns anos, convidado e honrado a escrever um documento tentando sintetizar a opinião de reitores das universidades brasileiras, estive, também, na reitoria da USP. E o reitor da época, desconsolado, me dizia, apontando um sofá de sua sala: “Está vendo, aquele sofá? O Fernando e a Ruth estão sempre aqui. O Fernando tenta nos convencer das medidas econômicas neoliberais que ele prega. Mas tudo isso é coisa do Banco Mundial, pois recebemos relatórios sobre isso.” Fernando Henrique, tido como homem e líder de esquerda, tinha retornado de uma reunião no Banco Mundial e declarara: “Esqueçam de tudo o que escrevi.” O mundo esqueceu. Aliás, o Brasil se esqueceu de que o Plano Real aconteceu na Presidência de Itamar Franco e Fernando Henrique, um aprendiz de economia, foi apenas executor de todo um projeto geopolítico.

Outro honesto envaidecimento pessoal que o jornalismo me deu: fui entrevistador e confidente deste que é um dos maiores poetas brasileiros de todos os tempos, o Thiago de Mello. Escrevi sobre isso, ao publicar uma para mim honrosa e privilegiada entrevista do imenso poeta. Thiago me contava de suas dificuldades quando exilado político no Chile, onde também estavam Fernando e Ruth Cardoso. Apenas para registrar: depois do Chile, Thiago de Mello refugiou-se em Paris, onde morou com Picasso. Mas, no Chile, o poeta criador do “Estatuto do Homem” juntou-se ao casal Cardoso. E revelou: quando algum exilado chegava na morada deles, Ruth punha-se a cerzir meias da família, como para demonstrar dificuldades financeiras. Mas Fernando Henrique tinha bolsa da Fundação Ford. E há aquela imoralidade que a grande imprensa noticiou mas não comentou: Fernando Henrique, na última semana de sua presidência, recebeu, em Brasília, os mais poderosos empresários do Brasil. E eles, naquele jantar, passaram a bandeja e doaram cerca de 200 milhões de reais para o quase ex-presidente criar o seu Instituto de Cultura, ou algo que o valha. Detalhe: na antiga e espetacular sede social do Jockey Club, no Vale do Anhangabaú.

Nunca se explicou a milionária verba de quase 20 milhões de dólares para o filho Paulo Henrique representar o Brasil numa feira mundial em Paris. E uma das filhas, ainda agora, flagrada recentente como funcionária fantasma do Senado? A imprensa brasileira criou um escudo de proteção a Fernando Henrique, mas é falso. Ele envelhece sem ter a compostura de ex-presidente, sem ter, como diria Sarney, respeito à liturgia do cargo. Qualquer homem, próximo dos 80 anos, tem o dever de transmitir sabedoria, senão sua vida não teria tido qualquer importância. Fernando Henrique insiste em esbanjar uma vaidade que aparenta ser patológica, agora beirando ao ridículo e ao patético.

Qualquer ex-presidente deve ficar calado, disponível a transmitir experiência, conhecimento, razão. Fernando Henrique parece enlouquecido de ciúmes de Lula, incapaz de ver as transformações que acontecem, cego a novas realidades. Talvez, precisássemos do Rei da Espanha para lhe passar um corretivo: “Caramba, Fernando, por qué non te callas?”

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