ARAPUCA

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Para ser prefeito – prefeita – de uma cidade não deveria bastar o número de votos e nem a apresentação de plano de governo feito por profissionais de gabinetes visando mais reeleição que gestão. Antes de tudo, todos os candidatos, juntamente com suas equipes e partidos deveriam passar por um intenso curso de gestão pública.

Nele, ouviriam organizações comunitárias, crianças, jovens, idosos, mulheres, sitiantes, empresários, imprensa, sindicalistas, presidiários, pessoal da Universidade, da Saúde, Assistência, Segurança, Educação, Habitação, Meio Ambiente, Transporte, Lazer, etc. Só então fariam seu plano de governo visando cidade boa para todos.

Grosso modo falando, nossos gestores enxergam a árvore e não a floresta. Em vez de vida, inclusão e relações saudáveis, nossas cidades estão virando espaço de exclusão e isolamento. Em vez de segurança e saúde, medo e doenças. Em vez de solidariedade e equidade, individualismo e diferença social crescente. Em vez de ar limpo, água boa e natureza equilibrada, poluição, quentura e lixo.

É certo que somos todos responsáveis, senão por atos, por omissão. Porém, maior parcela cabe ao poder público, porque se tivermos governantes, autoridades e políticos comprometidos com o bem comum, nenhum outro poder tira farinha. Porém, como todo mundo pode ver, não é isso que acontece.

Devido ao desinteresse da população, campanhas eleitorais custam caro para despertar ouvidos de um povo que prefere novela à política. Quem as bancam sãos empreiteiros, donos de meios de comunicação e fábricas de bebidas; banqueiros, usineiros, agronegociantes, investidores, etc. Claro que não fazem isso por amor ao país ou para eleger o melhor candidato; tanto que ajudam a todos. Como uma coisa puxa outra, políticos se elegem já compromissados com essa gente, cujo interesse da maioria é dinheiro para satisfazer o próprio ego e demonstrar poder.  O mesmo acontece quando partidos, a fim de implantar sua idéia de governo, montam a base aliada do prefeito já na campanha, coligando com mundo e fundo e bancando seus futuros servos na Câmara, em geral gente medíocre, mercenários sem bandeira que tudo aprovarão, nada fiscalizarão e impedirão que o façam.

Quando esse jogo de interesses se completa, a cidade sustentável e boa para todos vai pro brejo; basta observar. O transporte individual, apesar de entupir a cidade, estreitar calçadas, poluir e matar mais que guerras, ganha mais espaço que o coletivo, porque agrada a classe média. Sitiantes abandonam o campo e é preciso buscar alimentos cada vez mais longe e mais caros, enquanto a monocultura – cana no nosso caso – mesmo soterrando nascentes, assoreando rios, destruindo fauna e flora toma conta da zona rural. O mercado imobiliário deita e rola. Condomínios fechados fragmentam o solo urbano isolando privilegiados da massa. Canalizam córregos, suprimem o verde, sufocam minas; aumentam o perímetro urbano segundo seus interesses; inflam os preços dos imóveis e dos aluguéis e construtoras mantém trabalhadores sob condições análogas à escravidão. Quem na prática acaba por forçar política habitacional é o povo através de invasões. Por falta de maestro, as diversas secretarias não interagem sobrepondo ações ou conflitando interesses.

As praças são feias e crianças não mais alegram as ruas. Faltam entretenimento, lazer cinemas, e cultura para a periferia. Gastam fábulas com a Educação, no entanto a escola cada vez atrai menos, e alunos mal sabem escrever, calcular, pensar, conversar. Existem câmeras por todos os cantos, porém crimes aumentam e a polícia chega sempre atrasada. Se não chove, as torneiras secam; se chove cidadão morre afogado, soterrado ou de raio. Calçadas são armadilhas para idosos e gente com deficiência.

Para mim isso não é cidade. É arapuca.

2 comentários

  1. Eloah Margoni em 02/02/2015 às 18:11

    Bom e lúcido artigo, como de costume. Abraços!

    • Antonio Carlos em 05/02/2015 às 21:26

      Obrigado, grande escritora.

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