Inútil Greve

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greve-na-educao_thumb_thumbDeveria fazer parte do calendário escolar já que todo o ano tem paralisação de professores. Na década de noventa lecionei como ACT em diversas escolas estaduais aqui em Pira e participei de greves, que também já vinham ocorrendo bem antes. Melhorou alguma coisa definitivamente? Os professores não conseguiram mais que remendos, apesar de tantas lutas e até sangue. Podemos concluir, portanto, que esse tipo de ação desgasta e não leva a nada.

Embora legítimas, penso que as reivindicações dos professores são equivocadas a começar pela melhoria nas condições de ensino. Melhorar como se Educação não tem importância para os governantes do Estado de São Paulo das últimas décadas, exceto Montoro? Tanto é verdade que aos poucos, a fim de sobrar dinheiro para obras com melhor visibilidade, foram tirando muita coisa boa que tornava a Escola mais atrativa e qualificada. Laboratórios e anfiteatros viraram depósitos; matérias importantes como artes, filosofia, psicologia, etc. perderam importância; até educação física foi banida; e molecada cada vez mais obesa. Educação física agora é correr na quadra e entrar na sala melado de suor.

Prioridade para governo tucano é a economia. Não o pequeno empreendedor, que é o maior gerador de impostos e de emprego, mas as grandes indústrias, que dão retorno eleitoral. Nesse sentido, a escola está voltada a ‘fabricar’ mão de obra. Por isso, aulas de português e matemática passaram a ocupar grande parte da grade curricular. Porém, a Escola que está aí é tão ruim que nem isso consegue. Tanto que “Rendimento em Matemática cai 7,3%; em Redação 9,7% em relação a 2013. Apenas 250 de 6.193.565 participantes do ENEM conseguiram pontuação máxima na redação. Já a nota zero foi atribuída aos textos de 520.374 participantes (8,54%)”. (Estado de São Paulo 14.01.15). A Faculdade de Medicina da USP precisou criar curso extra de inglês para que seus alunos aprendam pelo menos termos técnicos. Isso indica Escola falida em todos os aspectos e, mesmo com os cortes que fizeram a fim de diminuir custos, continua dando prejuízo porque nem do essencial consegue dar conta. Portanto, perdem tempo os professores ao lutarem por melhores condições de Ensino enquanto permanecer no poder um partido que acha que Educação além de prédio é enquadrar o jovem. O governo que está aí melhora a escola, nunca o Ensino.

Outro equivoco no meu ver é a luta pelo aumento de salários. Não que ganhem bem; ao contrário. Porém, pergunto a qualquer professor se lhe pagassem mil reais por aula, conseguirá por isso dominar a classe, manter o interesse e o aproveitamento dos alunos. Duvido, e o professor sabe disso. Podem elevar o salário quanto quiserem. O Ensino não vai melhorar, porque salário não qualifica professor. E mesmo que fosse, esse tipo de escola não motiva e nem atrai o jovem de hoje. Morreu, e espero que os jovens a enterrem porque deu o que tinha que dar.

Os professores que conseguem algum sucesso, o fazem por carisma próprio e qualidades pessoais, especialmente liderança e empatia.  São pessoas comprometidas e inseridas no contexto social, donas de aguçado senso crítico e sensíveis à realidade dos jovens. Atraem pelo jeito de ser e modo de pensar. Como gente assim não se acha na esquina, e mesmo que achasse não é no professor que o sistema deve se apoiar porque é limitado e falível, mas na metodologia, na logística.

Ensino é pacto, horizontalidade, relação, compromisso e integração escola- família-comunidade. Ao se apossar do saber, erguer muros e grades, a Escola ficou só. Contudo, não são os políticos, mas os professores quem têm nas mãos os filhos do povo, matéria prima para se construir sociedade melhor, começando por destronar governantes incompetentes. Não perceberam isso ainda?

2 comentários

  1. Delza Maria Frare Chamma em 20/05/2015 às 17:08

    Antonio Carlos, estranhei sua análise neste texto que desde o título parece se esvair num niilismo total. Numa democracia os avanços se dão sempre através de lutas coletivas lideradas pelas entidades de classe. Podem ser lentos e dolorosos, mas, é imperativo lutar por eles. Engano seu afirmar que no governo Montoro os professores não precisaram lutar. O Senhor José Serra, esse mesmo, que hoje pede o impeachment da Presidente da República e a volta da ditadura, era o Secretário do Planejamento, no governo Montoro e reduziu ao extremo a saída de verbas para a Escola Pública e para salários de seus profissionais. Nossa categoria enfrentou, nesse governo, uma monstruosa greve que foi recebida pela costumeira tropa de choque, embora, esse, fosse o primeiro governo da redemocratização. A partir daí o aviltamento da educação pública foi se acelerando. Quércia, Mario Covas e os demais governos tucanos se encarregaram de trazer o neoliberalismo até a escola. Minimizar gastos suprimindo melhorias, verbas e salários. Hoje grande parte do Brasil tem seus professores em uma batalha enorme e fazendo greve para ser ouvido e equiparado em salário aos demais profissionais com ensino superior. E a cada luta, embora você o conteste, consegue-se algum avanço. A melhoria da Escola Pública, único espaço a contemplar toda a diversidade social e cultural do país, depende da competência técnica, do compromisso político e do respeito a seus profissionais. No Estado de São Paulo, concordamos com você, o governo tucano há quase 20 anos no poder colocou o ensino público na UTI. Se nada adianta lutar, como reitera você e se a greve é inútil, qual é a sua proposta, amigo Danelon para que a Escola Pública, em seus níveis estaduais e municipais, seja tratada com o respeito que merece?

    • Antonio Carlos em 24/05/2015 às 12:46

      Cara Delza, desculpe a demora. Fico grato por ler e comentar meu texto. Trata-se de opinião a partir de um ponto de vista, que não exclui outros, ou melhor, desperta outros, gerando polêmicas, sempre positivas quando não atreladas a sentimentos. Agradeço pelo “niilismo” no sentido que entendo de não aceitação das coisas como estão. Concordo que se houveram avanços em direitos sociais foi graças às lutas populares. Nada caiu do céu e nem cairá. Quanto ao movimento do professorado paulista disse ter foco errado. Repito que, embora mereçam muito mais que ganham, salário por si só não muda as coisas, e nem a melhoria nas condições de Ensino. Vocês estão gastando vela com defunto ruim. A ESCOLA que temos – grosso modo falando – não atende necessidades atuais. Como você bem disse ‘políticos’ destruíram o que tão difícil foi conquistar: acesso universal, democrático e de qualidade ao Conhecimento. Os motivos são óbvios. Porém, felizmente, parece que os jovens perceberam isso antes de vocês. Essa ESCOLA não responde aos seus anseios, é contrária à sua visão de mundo e parou no tempo. É uma escola pensada pelos adultos para enquadrar os jovens; o ‘andaime’ custa mais que o ‘prédio’. Para muita gente aula é bico. Diretores – muitos – fazem da escola seu gueto, são individualistas, desconfiados, preconceituosos e se servem do cargo para satisfazer carências pessoais. Nos meus 30 anos como assistente social, sempre tive dificuldades na adesão de diretores e diretoras a projetos comunitários. A maioria não se envolve com nada de fora. Escola parece OVNI. Pensa dar conta sozinha. Escondida atrás de muros, não percebe que o mundo mudou. Aliás, até percebe, tanto que se esconde porque tem nada a oferecer; virou refém. Não vejo ‘pessoal’ da Educação em reuniões comunitárias, Conferências Municipais, discussões sobre problemas da juventude. Claro que encontrei diretoras maravilhosas, tanto que suas escolas brilhavam, e ainda brilham. Aí o problema delas não é com os alunos, com os professores ou com a comunidade. É com o sistema que as persegue sem piedade porque tem inveja, por não poder controlar. Minha proposta, Delza está no texto. A escola precisa ‘derrubar’ muros, inclusive os de tijolos. Precisa de independência para se comprometer com a comunidade a fim de ter um projeto educativo concreto e pactuado. Precisa melhorar sua visão de mundo, peitar políticos, governos e estruturas que massacram e sufocam. Essa mudança não vem com gritos, paralisações e violência. Vem de dentro para fora. Vem da mudança de mentalidade. Conquistas materiais demandam vigilância constante. Idéias não.Escola que se enche de grades e câmeras acredita no ser humano? Entende que relações positivas são mais eficientes que regras? Vocês têm nas mãos a matéria prima onde se engendra mudanças. Nenhum político tem nas mãos tanta gente como vocês. Nenhum deles consegue falar a tantos ouvidos todos os dias e durante tantos anos. Não aperceberam ainda? Na verdade os ‘construtores’ rejeitaram a pedra principal. Em vez de reclamar dos alunos e desprezá-los como faz a maioria de vocês, unam-se a eles e então serão imbatíveis. Quem sabe faz a hora. Em vez de reclamar, façam. “A juventude é a janela pela qual o futuro entra no mundo”. (Papa Francisco).

      Garimpei algumas notícias interessantes para ajudar o debate.
      – O ingresso de alunos cada vez menos autônomos na graduação tem levado universidades privadas a adotarem práticas de colégio, como reunião de pais e boletins. Pais podem assistir à primeira do curso dos filhos. Folha 22.03.25.
      – Faltas nas escolas lideram denúncias no Conselho Tutelar em 2014. JP 03.03.15.
      – Nota de matemática recua na rede pública. Folha 30.11.14.
      – Entre 2012 e o primeiro semestre de 2014, foram realizadas 3.912 atendimentos pelo Conselho Tutelar II. A denúncia de evasão escolar nas escolas estaduais é a que tem mais demanda. Gazeta de Piracicaba 03.10.14.
      – Ensino médio não bate meta nacional e cai em 16 Estados. Rede privada também tem desempenho ruim. Folha 06.09.14.
      – Mais de 40% do professorado do Estado sofre agressões. JP 27.04.14.
      – 70% dos estudantes acham que as escolas da rede estadual são regulares, ruins ou péssimas. (Pesquisa APEOESP feita pelo Instituto Data Popular. Folha 24.03.14).
      – Quase 10 milhões de jovens do país não estudam e nem trabalham. Folha 30.11.13.
      – Um em cada cinco diretores de escolas públicas é indicado por políticos. Critério é adotado por 12,4 mil colégios estaduais e municipais do país. Folha 07.10.13.
      – “Todos os pais que me escrevem disseram que os filhos não gostam de estudar, que não se preocupam com as notas baixas, tampouco com o risco de retenção ou de mudança de escola. Nem as ameaças funcionam, contam os pais. Nem mesmo prêmio em dinheiro, que os mais novos gostam tanto de ter, dá resultado”. Rosely Saião – JP 30.10.12.

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