LAUDATO SI

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NÃO, não se trata de uma fórmula cabalística de algum código bizarro. É do Papa argentino, gastando um pouco do italiano que já aprendeu no Vaticano. É o título da sua recente carta encíclica sobre o meio ambiente, publicada agora, no dia 18 de junho pp. São as palavras que iniciam o “Cântico das Criaturas”, do outro Francisco: “Louvado sejas, meu Senhor …”

São coisas de Franciscos: o Francisco papa e o Francisco de Assis. Um de 2015, o outro de 1182.Os dois vidrados em meio ambiente. Ou melhor, em ambiente integral. Total. Nada pela metade. Por isso, o Papa Francisco, depois da publicação da sua encíclica “Laudato si (“Louvado Sejas”) passou a ser apelidado de o “Papa Verde” (revista Isto É), autor da “Encíclica Verde”(Estadão), ou melhor, do “Evangelho Verde” (revista Veja). E, olha que o Papa Francisco não é palmeirense. Ele é fanático pelo San Lorenzo!

Nesta carta encíclica, o papa Francisco se torna o alto-falante amplificado da mãe- natura, nossa mãe, para fazer ressoar o “grito da Terra”, quase em agonia (Leonardo Boff). De fato, é a primeira vez que um papa dedica uma encíclica inteira só para a ecologia, para o meio-ambiente, em linguagem franca, aberta, desassombrada, alertando para a grave e ameaçadora situação ambiental em suas inúmeras frentes: a poluição, as mudanças climáticas, a questão da água, a perda da biodiversidade, da deterioração da qualidade da vida humana e a decorrente degradação social e a desigualdade no planeta.

 A exemplo do Francisco de Assis, o nosso Francisco olha para a Terra não apenas com o olhar frio da ciência e da Teologia, mas a contempla com o coração: como o Francisco, de quem herdou o título, o Papa faz da natureza a nossa “irmã” e a terra é a “nossa casa comum”: “louvado sejas, meu Senhor, pela nossa irmã, a mãe terra, que nos sustenta e governa e produz variados frutos com flores coloridas e verduras”.

Francisco lamenta a nossa má interpretação do Gênesis, quando Deus confiou ao homem e á mulher a responsabilidade de administrar a terra, não de dominá-la e saqueá-la. Integrar-se com ela, pois nós também, somos terra: “Tu és pó, argila, terra e a ela voltarás”. Ou como canta o poeta indigenista argentino Atahualpa Youpanguy: “O ser humano é Terra, que caminha, que sente, que pensa e que ama”.

Mas, o ser humano, elevado à condição de criador, de parceiro de Deus na criação, de seu administrador, seu cuidador, “seu jardineiro” se transformou no seu mais cruel predador e devastador. O ser humano frustrou a esperança divina: “A terra, nossa casa, parece transformar-se cada vez mais num imenso depósito de lixo. Produzem-se anualmente centenas de milhões de toneladas de resíduos, muitos deles não biodegradáveis: resíduos domésticos e comerciais, detritos de demolições, resíduos clínicos, eletrônicos e industriais, resíduos altamente tóxicos e radioativos.

E o Papa introduz uma dimensão nova no debate ambiental: Ele não lista simplesmente uma série de problemas ecológicos, mas mostra como todos eles são dimensões de uma crise conectada que é tanto ambiental como social e moral. A grande novidade do Papa nesta encíclica é introduzir essa dimensão moral e social.

O pontífice critica abertamente as nações ricas, as multinacionais e a cultura do consumismo e do descarte entre outros alvos. Com essa encíclica, o Papa vai provocar uma reviravolta na discussão ecológica, quase sempre restrita ao meio ambiente, esquecendo que não existe meio ambiente, mas sempre ambiente inteiro dentro do qual cabem as pessoas, as instituições e todas as coisas desta nossa Terra-mãe. Tudo está estreitamente interligado, conectado no mundo.

Mais uma vez o papa Francisco sacode o mundo não com um discurso piegas, fervorinho para catolicões, freiras e beatas, mas com palavra cortante, corajosa, na ousadia de quem não quer deixar as coisas como estão. É com ele que eu vou! …

Pe. Otto Dana- Pároco emérito da Igreja Sant´Ana em Rio Claro – SP

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